Especialista alerta para os riscos de trocar o médico pela internet e reforça que ferramentas digitais devem somar e não substituir a avaliação do profissional de saúde
A Inteligência Artificial já é parte da rotina de saúde dos brasileiros: uma pesquisa realizada pela Conexa e pela Afya mostra que 79% dos pacientes usam ferramentas de IA no dia a dia, e quase metade (49%) já migrou esse hábito especificamente para questões de saúde. A mudança vai além do volume de uso, ela também transforma a forma como a busca por informação acontece. Antes, o paciente digitava sintomas em buscadores tradicionais e encontrava links variados, de sites médicos confiáveis a conteúdos sensacionalistas. Hoje, ele conversa diretamente com um assistente virtual, que já entrega uma resposta pronta, sem que o usuário precise avaliar a fonte.
De acordo com o Dr. Ronaldo Gismondi, cardiologista e diretor médico da Afya, essa mudança traz um risco pouco percebido: a resposta da IA não nasce de raciocínio clínico, mas de associação de conteúdos. "A LLM não funciona por inteligência, funciona por associação. Ela busca informações relacionadas na internet, faz um apanhado e entrega a resposta sem o paciente saber de onde aquilo veio. É uma caixa-preta", explica.
O médico destaca que ferramentas de IA generativa vêm evoluindo e, ao identificar uma pergunta de saúde, já buscam priorizar fontes confiáveis. Ainda assim, o maior risco permanece: o tom humano e articulado da IA passa uma falsa sensação de segurança, especialmente quando a ferramenta não é baseada em dados científicos, como no caso de LLMs genéricas. "O problema é o paciente achar que aquilo é confiável só porque é chamado de inteligente e conversa como um ser humano", alerta o Dr. Gismondi.
Para o especialista, parte da
confiança excessiva vem do próprio comportamento das ferramentas. "A IA
genérica tende a concordar com você, tende a bajular, tenta te entregar algo
positivo sobre o que você está perguntando. Como usa uma linguagem sempre
educada, a sensação é de estar sendo ouvido, o que não significa que a resposta
seja correta", explica.
A falta de aprofundamento clínico
Um dos maiores limites das ferramentas de IA, segundo o médico, é a incapacidade de investigar além do que o paciente relata espontaneamente. "Quando eu atendo alguém com febre e mal-estar há dias, se ele só me conta isso, eu penso nas causas mais comuns na nossa região. Mas se eu pergunto “você viajou recentemente?” e ele responde que esteve numa fazenda no Pará, isso muda tudo, preciso pensar em doenças típicas daquela região, como a malária. A IA não sabe fazer esse tipo de pergunta complementar", exemplifica.
Outro exemplo citado é o de
pacientes diabéticos com dor de estômago, mal-estar e vômito. "Para o
paciente, parece um sintoma gástrico comum. Mas pode ser um infarto, que simula
um problema de estômago. Um médico atento investiga isso, a IA, sem o exame e o
contexto completo, pode não perceber", afirma.
Como avaliar a qualidade da
informação
Para ajudar o público a navegar
com mais criticidade, o Dr. Gismondi recomenda alguns critérios práticos:
• Peça fontes. Ao consultar uma
IA sobre saúde, oriente-a a citar apenas sociedades médicas oficiais, textos
científicos revisados e a indicar de onde veio cada informação;
• Verifique a autoridade. Antes
de seguir a orientação de um perfil ou site, cheque se a formação da pessoa é
compatível com o que ela está afirmando e se o conteúdo é coerente com o consenso
científico vigente;
• Priorize instituições com
curadoria. Hospitais de referência, sociedades médicas e organizações de
educação em saúde costumam ser fontes mais seguras justamente por aplicarem um
processo de curadoria científica antes de publicar qualquer conteúdo.
O alerta sobre desinformação nas
redes sociais
O médico também chama atenção para perfis que divulgam informações de saúde sem base científica, muitas vezes baseadas em opinião pessoal. "Eles tentam se mostrar grandes conhecedores do assunto, seduzem pela palavra, despertam curiosidade ou medo para atrair atenção. Nada disso é um bom companheiro para decisões de saúde", afirma.
Para o Dr. Gismondi, buscar informação para entender melhor um sintoma ou uma condição pode até ser positivo, desde que o paciente confronte o que encontrou com fontes oficiais e não tome decisões sozinho. "Uma coisa é eu querer entender o que está acontecendo comigo. Isso pode até melhorar meu autocuidado. Outra coisa é decidir sozinho o que fazer a partir disso", pondera.
Segundo o especialista, alguns sinais indicam que a busca por informação deve dar lugar à busca por atendimento imediato:
- Alteração
do nível de consciência (sonolência excessiva, confusão mental);
- Perda
súbita de força ou sensibilidade em um membro ou na face (possível AVC);
- Dor
torácica e/ou falta de ar;
- Sangramentos
ativos;
- Sintomas intensos e de início abrupto, ou quadros recorrentes/refratários que não melhoram com o tempo (febre persistente, dores contínuas, vômitos ou diarreia recorrentes).
Para o Dr. Gismondi, a tecnologia deve atuar como aliada da prática médica, nunca como substituta. O conceito de human in the loop segue indispensável: cabe ao médico ouvir o paciente, fazer as perguntas certas, examiná-lo e construir, junto com ele, um plano de cuidado que leve em conta não só os sintomas, mas também como a pessoa se sente diante deles.
"O bom companheiro nas decisões de saúde é o médico que te ouve, entende o que você sente e como você reage a isso, e alinha com você um plano de cuidado, que nem sempre é o que a gente queria, mas é o que é possível e realista", conclui o especialista.
Essa percepção também aparece nos dados: a mesma pesquisa Conexa/Afya mostra que 67% dos pacientes preferem conversar diretamente com o médico em vez de confiar apenas na tecnologia, e 56% afirmam que não confiariam em uma consulta 100% conduzida por IA, sem qualquer mediação humana, uma confirmação estatística de que o julgamento clínico e a empatia continuam sendo insubstituíveis.
Afya
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