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segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Agosto Lilás reforça urgência de prevenir violência contra mulheres antes do feminicídio; especialista explica

Dados da OMS revelam que uma em cada quatro mulheres já sofreu violência física ou sexual de parceiros ao longo da vida. Para Suzana Coelho, fundadora do Instituto Afetto, enfrentar o problema exige discutir masculinidades e investir em educação desde a infância. 

 

Mesmo após duas décadas de avanços legislativos e do fortalecimento das políticas públicas de proteção às mulheres, o mundo ainda convive com índices alarmantes de feminicídio. Segundo o último relatório Violência contra a mulher, da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 25% das mulheres entre 15 e 49 anos já foram submetidas a ‘violência física ou sexual’ pelo parceiro, ao menos, uma vez durante o relacionamento. 

Em meio ao Agosto Lilás, campanha nacional de conscientização e enfrentamento à violência contra a mulher, os números reacendem o debate sobre a efetividade da estratégia adotada. Apesar dos avanços, os indicadores demonstram que ainda há um longo percurso para reduzir a violência motivada por questões de gênero.

Os dados da 20ª edição do “Anuário Brasileiro de Segurança Pública”, divulgada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, revelam a dimensão da violência letal contra as mulheres no país: 1,5 mil mulheres foram vítimas de feminicídio em 2025, um aumento de 4% em relação ao ano anterior. O levantamento aponta uma média de quatro vítimas por dia e uma taxa nacional de 1,4 feminicídio para cada 100 mil mulheres. 

Fundadora do Instituto Afetto e especialista em diversidade, direitos humanos e desenvolvimento organizacional, Suzana Coelho afirma que os avanços ainda precisam ser acompanhados de ações preventivas. "O país estruturou uma rede de proteção muito mais robusta para as mulheres, com legislações específicas, canais de denúncia, medidas protetivas e serviços especializados. Esses mecanismos são fundamentais e salvam vidas, mas os dados mostram que, sozinhos, eles ainda não conseguem interromper o ciclo da violência antes que chegue ao feminicídio", conta.

Para Suzana, o enfrentamento ao problema passa pela ampliação de políticas, programas e ações, que dialoguem também  com homens e meninos, promovendo a educação para relações igualitárias, responsabilização e reflexão sobre masculinidades.

"Se 97% dos autores desses crimes são homens, precisamos ampliar o foco das políticas preventivas. Poucas políticas públicas de enfrentamento à violência de gênero são desenhadas para atuar antes, com os homens e meninos: ações voltadas à prevenção primária, educação sobre masculinidades, responsabilização não exclusivamente punitiva, espaços de escuta e reeducação, programas capazes de interromper o ciclo de violência antes da primeira agressão, não apenas após a última", analisa.

A especialista destaca que o feminicídio raramente acontece de forma isolada. Antes do assassinato, muitas mulheres enfrentam ameaças, perseguições, violência psicológica e agressões físicas. "O feminicídio é a última etapa de uma escalada de violência. Quando conseguimos identificar e interromper esse ciclo nos primeiros sinais, aumentamos significativamente as chances de preservar vidas.", explica.

Durante o mês de agosto, Suzana alerta para que o debate vá além da conscientização sobre denúncias e medidas protetivas, incorporando estratégias permanentes de educação e transformação cultural. Para ela, reduzir os índices de feminicídio depende de um esforço coletivo que envolva famílias, escolas, poder público e toda a sociedade.

"O combate à violência contra a mulher não pode começar apenas quando ela procura ajuda. Construímos, como sociedade, um sistema quase inteiro voltado a proteger a mulher depois que o risco já apareceu, e atribui à mulher a responsabilidade por se proteger de uma violência que não produziu, e deixa em segundo plano a análise sobre os fatores que levam um homem a chegar a esse desfecho. O combate à violência precisa começar muito antes, na formação das crianças, na maneira como educamos nossos meninos, nas relações que construímos e na forma como a sociedade encara a desigualdade de gênero. É essa mudança estrutural que poderá alterar, de forma consistente, os números que o país registra ano após ano", conclui.

 

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