Dados da OMS revelam que uma em cada quatro mulheres já sofreu violência física ou sexual de parceiros ao longo da vida. Para Suzana Coelho, fundadora do Instituto Afetto, enfrentar o problema exige discutir masculinidades e investir em educação desde a infância.
Mesmo após duas décadas de avanços
legislativos e do fortalecimento das políticas públicas de proteção às
mulheres, o mundo ainda convive com índices alarmantes de feminicídio.
Segundo o último relatório Violência contra a mulher, da Organização Mundial
da Saúde (OMS), cerca de 25% das mulheres entre 15 e 49 anos já foram
submetidas a ‘violência física ou sexual’ pelo parceiro, ao menos, uma vez
durante o relacionamento.
Em meio ao Agosto Lilás, campanha nacional de conscientização e enfrentamento à
violência contra a mulher, os números reacendem o debate sobre a efetividade da
estratégia adotada. Apesar dos avanços, os indicadores demonstram que
ainda há um longo percurso para reduzir a violência motivada por questões de
gênero.
Os dados da 20ª edição do “Anuário
Brasileiro de Segurança Pública”, divulgada pelo Fórum Brasileiro de
Segurança Pública, revelam a dimensão da violência letal contra as mulheres no
país: 1,5 mil mulheres foram vítimas de feminicídio em 2025, um aumento de 4%
em relação ao ano anterior. O levantamento aponta uma média de quatro vítimas
por dia e uma taxa nacional de 1,4 feminicídio para cada 100 mil
mulheres.
Fundadora do Instituto Afetto e
especialista em diversidade, direitos humanos e desenvolvimento organizacional, Suzana Coelho afirma que os avanços ainda precisam
ser acompanhados de ações preventivas. "O país estruturou uma rede de
proteção muito mais robusta para as mulheres, com legislações específicas,
canais de denúncia, medidas protetivas e serviços especializados. Esses
mecanismos são fundamentais e salvam vidas, mas os dados mostram que, sozinhos,
eles ainda não conseguem interromper o ciclo da violência antes que chegue ao
feminicídio", conta.
Para Suzana, o enfrentamento
ao problema passa pela ampliação de políticas, programas e ações, que dialoguem
também com homens e meninos, promovendo a educação para relações
igualitárias, responsabilização e reflexão sobre masculinidades.
"Se 97% dos autores desses crimes
são homens, precisamos ampliar o foco das políticas preventivas. Poucas
políticas públicas de enfrentamento à violência de gênero são desenhadas para
atuar antes, com os homens e meninos: ações voltadas à prevenção primária,
educação sobre masculinidades, responsabilização não exclusivamente punitiva, espaços
de escuta e reeducação, programas capazes de interromper o ciclo de violência
antes da primeira agressão, não apenas após a última", analisa.
A especialista destaca que o feminicídio
raramente acontece de forma isolada. Antes do assassinato, muitas mulheres
enfrentam ameaças, perseguições, violência psicológica e agressões físicas. "O
feminicídio é a última etapa de uma escalada de violência. Quando conseguimos
identificar e interromper esse ciclo nos primeiros sinais, aumentamos significativamente
as chances de preservar vidas.", explica.
Durante o mês de agosto, Suzana alerta
para que o debate vá além da conscientização sobre denúncias e medidas
protetivas, incorporando estratégias permanentes de educação e transformação
cultural. Para ela, reduzir os índices de feminicídio depende de um esforço
coletivo que envolva famílias, escolas, poder público e toda a sociedade.
"O combate à violência contra a
mulher não pode começar apenas quando ela procura ajuda. Construímos, como
sociedade, um sistema quase inteiro voltado a proteger a mulher depois que o
risco já apareceu, e atribui à mulher a responsabilidade por se proteger de uma
violência que não produziu, e deixa em segundo plano a análise sobre os fatores
que levam um homem a chegar a esse desfecho. O combate à violência precisa começar muito antes, na formação das crianças,
na maneira como educamos nossos meninos, nas relações que construímos e na
forma como a sociedade encara a desigualdade de gênero. É essa mudança
estrutural que poderá alterar, de forma consistente, os números que o país
registra ano após ano", conclui.

Nenhum comentário:
Postar um comentário