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sábado, 15 de agosto de 2026

Autenticidade ganha espaço em meio ao avanço da inteligência artificial, avalia psicóloga

Com a inteligência artificial capaz de criar imagens impecáveis em segundos, marcas da vida real, como gestos espontâneos, texturas e pequenas imperfeições, passam a ocupar outro lugar na relação com a beleza e a identidade 

 

Durante anos, a beleza foi apresentada como uma superfície sem ruídos. Rostos sem marcas, cenários sob controle, corpos ajustados por filtros e fotografias calculadas até o último detalhe passaram a ditar o que deveria ser admirado. Agora, quando a inteligência artificial consegue produzir esse mesmo acabamento em poucos segundos, a perfeição começa a perder parte do encanto. O olhar parece procurar uma fresta por onde a vida possa entrar.

Texturas naturais, peças feitas à mão, registros espontâneos e pequenos desvios voltaram a despertar interesse. São sinais de passagem, tempo e autoria. Aquilo que antes seria corrigido ou escondido começa a ser percebido como vestígio de uma experiência que não nasceu de um comando.

Essa mudança já aparece na comunicação das marcas, em campanhas com menos retoques, produções mais simples e histórias apoiadas em experiências reais. Também chega ao consumo, com a procura por trabalhos em pequena escala, peças singulares e criações nas quais ainda seja possível reconhecer a mão de alguém.

Para a psicóloga Maria Klien, o movimento ultrapassa a estética. Ele toca a identidade e a maneira como cada pessoa deseja ser vista em um ambiente cercado por imagens fabricadas.

Passamos muito tempo tentando caber em padrões para sermos aceitos. Hoje, os algoritmos conseguem reproduzir esses modelos com enorme facilidade. Por isso estejamos voltando o olhar para aquilo que carrega uma história, uma escolha, uma maneira própria de estar no mundo. A perfeição pode ser reproduzida. A trajetória de uma pessoa não”, afirma.

A tecnologia criou um contraste curioso. Quanto mais o ambiente digital entrega imagens sem falhas, maior parece ser a procura pelo que guarda calor, hesitação e memória. Uma fotografia pode estar tecnicamente correta e, ainda assim, não provocar nada. Falta nela o que não cabe no enquadramento; o vínculo.

O cérebro procura reconhecimento e identificação. Quando tudo parece calculado ou previsível, a conexão pode enfraquecer. Nós nos aproximamos do que transmite alguma verdade, porque encontramos ali algo de nós mesmos. É como reconhecer uma casa não pela fachada perfeita, mas pela luz acesa na janela”, explica Maria.

Esse deslocamento também pode aliviar a relação com a própria imagem. A comparação com padrões inalcançáveis não desaparece, mas começa a dividir espaço com uma percepção menos rígida da beleza. Marcas no rosto, mudanças do corpo e traços particulares deixam de ser apenas elementos a corrigir e passam a contar uma história.

Autenticidade, porém, não exige o abandono da vaidade ou a recusa das ferramentas digitais. Para Maria Klien, o cuidado está em não entregar à tecnologia a tarefa de definir o valor de uma pessoa.

A tecnologia continuará evoluindo e fará parte da nossa rotina. Ela pode criar imagens, organizar referências e ampliar possibilidades, mas não consegue viver por nós. O sentido vem da presença, da intenção e da bagagem que acompanha cada gesto. Uma imagem pode nascer pronta. Uma identidade precisa de tempo”, observa a psicóloga.

Nesse cenário, o processo recupera espaço. O tempo dedicado a uma criação, o toque manual, as escolhas afetivas e até as pequenas irregularidades passam a importar tanto quanto o resultado. Em uma época de reprodução em larga escala, saber de onde algo veio e quem esteve por trás de sua construção muda a forma como esse objeto, imagem ou trabalho é percebido.

Ser humano talvez seja justamente deixar rastro; uma escolha inesperada, uma marca, uma lembrança que atravessa aquilo que fazemos. A inteligência artificial pode reproduzir estilos e criar cenas inteiras. O que nasce de uma vida vivida continua carregando uma origem que não se copia”, conclui Maria Klien.




Maria Klien - exerce a psicologia, com título de mestra na área, orientando sua investigação aos distúrbios relacionados ao medo e à ansiedade. Sua atuação clínica integra métodos tradicionais e práticas complementares, com foco nas demandas emocionais de cada indivíduo em seu contexto singular. Também é criadora do Psicologia da Moda, iniciativa que articula comportamento, identidade e expressão a partir da relação entre vestuário e subjetividade. Como empreendedora, se dedica à ampliação do acesso a recursos terapêuticos voltados à saúde psíquica, desenvolvendo instrumentos que contribuem para o equilíbrio mental e para o enfrentamento de questões que atravessam o bem-estar psicológico de cada paciente.


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