Empresas defendem o descanso, mas continuam
invadindo o horário de folga dos funcionários, psiquiatra explica como a
hiperconectividade favorece ansiedade, burnout e queda de produtividade
Um levantamento da Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV), divulgado nesta semana, mostrou que 77,8% dos empresários consideram importante que os funcionários se desconectem após o expediente, mas 88,9% das organizações ainda não possuem políticas formais que impeçam o envio ou a resposta de mensagens de trabalho fora do horário de trabalho. Além disso, 64,4% das empresas afirmam não possuir programas estruturados para prevenção de riscos à saúde mental.
Para o psiquiatra corporativo Dr. Daniel Sócrates, especialista em saúde mental no ambiente de trabalho, o problema vai muito além de responder um WhatsApp à noite.
"Quando o colaborador permanece mentalmente disponível para o
trabalho o tempo todo, o cérebro deixa de entrar em um estado fundamental de
recuperação. O descanso não é um luxo; ele faz parte do próprio processo de
produção. Sem essa pausa, aumentam o estresse, a ansiedade, a fadiga cognitiva
e, no longo prazo, o risco de burnout", afirma.
Segundo o especialista, o avanço da tecnologia tornou a comunicação mais
eficiente, mas também eliminou as fronteiras entre expediente e vida pessoal.
"Hoje carregamos o trabalho no bolso. Uma mensagem enviada às 22
horas pode parecer simples para quem envia, mas frequentemente gera no outro
lado uma sensação de obrigação de responder imediatamente. O cérebro permanece
em estado de alerta, como se nunca pudesse realmente encerrar o dia."
A falsa sensação de produtividade
Embora muitas lideranças associem disponibilidade constante a
comprometimento, Daniel Sócrates explica que a ciência aponta justamente para o
contrário.
"O cérebro não foi projetado para permanecer em atenção contínua.
Quando não há períodos reais de recuperação, diminuem a criatividade, a
capacidade de tomada de decisão, a memória de trabalho e até a qualidade dos
relacionamentos dentro da equipe."
Ele ressalta que colaboradores exaustos costumam produzir mais erros,
apresentam menor capacidade de inovação e tendem a se afastar com maior
frequência por problemas relacionados à saúde mental.
5 atitudes que ajudam a proteger a saúde mental das
equipes
Segundo Daniel Sócrates, algumas medidas podem fazer diferença no dia a dia corporativo:
- Definir horários claros para envio e resposta de mensagens.
- Evitar contatos fora do expediente, salvo situações realmente emergenciais.
- Orientar líderes a dar exemplo respeitando os períodos de descanso.
- Criar programas permanentes de prevenção dos riscos psicossociais.
- Avaliar resultados pela qualidade das entregas, e não pela disponibilidade constante dos colaboradores.
"O melhor profissional não é aquele que está conectado 24 horas por
dia. É aquele que consegue trabalhar com foco, descansar adequadamente e voltar
no dia seguinte com energia para produzir. Cuidar da desconexão também é cuidar
da saúde, da produtividade e da sustentabilidade do negócio", conclui o
psiquiatra.
Dr. Daniel Sócrates - Médico psiquiatra, doutor pela UNIFESP, com mais de duas décadas de atuação clínica. Dedica-se ao cuidado de profissionais que enfrentam altos níveis de exigência e responsabilidade, com abordagem focada em performance sustentável, saúde mental e qualidade de vida.
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