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sábado, 15 de agosto de 2026

Novo estudo mostra que 90% das empresas não têm política formal de desconexão, psiquiatra comenta

Empresas defendem o descanso, mas continuam invadindo o horário de folga dos funcionários, psiquiatra explica como a hiperconectividade favorece ansiedade, burnout e queda de produtividade


Um levantamento da Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV), divulgado nesta semana, mostrou que 77,8% dos empresários consideram importante que os funcionários se desconectem após o expediente, mas 88,9% das organizações ainda não possuem políticas formais que impeçam o envio ou a resposta de mensagens de trabalho fora do horário de trabalho. Além disso, 64,4% das empresas afirmam não possuir programas estruturados para prevenção de riscos à saúde mental. 

Para o psiquiatra corporativo Dr. Daniel Sócrates, especialista em saúde mental no ambiente de trabalho, o problema vai muito além de responder um WhatsApp à noite. 

"Quando o colaborador permanece mentalmente disponível para o trabalho o tempo todo, o cérebro deixa de entrar em um estado fundamental de recuperação. O descanso não é um luxo; ele faz parte do próprio processo de produção. Sem essa pausa, aumentam o estresse, a ansiedade, a fadiga cognitiva e, no longo prazo, o risco de burnout", afirma.

Segundo o especialista, o avanço da tecnologia tornou a comunicação mais eficiente, mas também eliminou as fronteiras entre expediente e vida pessoal.

"Hoje carregamos o trabalho no bolso. Uma mensagem enviada às 22 horas pode parecer simples para quem envia, mas frequentemente gera no outro lado uma sensação de obrigação de responder imediatamente. O cérebro permanece em estado de alerta, como se nunca pudesse realmente encerrar o dia."

 

A falsa sensação de produtividade

Embora muitas lideranças associem disponibilidade constante a comprometimento, Daniel Sócrates explica que a ciência aponta justamente para o contrário.

"O cérebro não foi projetado para permanecer em atenção contínua. Quando não há períodos reais de recuperação, diminuem a criatividade, a capacidade de tomada de decisão, a memória de trabalho e até a qualidade dos relacionamentos dentro da equipe."

Ele ressalta que colaboradores exaustos costumam produzir mais erros, apresentam menor capacidade de inovação e tendem a se afastar com maior frequência por problemas relacionados à saúde mental.

 

5 atitudes que ajudam a proteger a saúde mental das equipes

Segundo Daniel Sócrates, algumas medidas podem fazer diferença no dia a dia corporativo: 

  • Definir horários claros para envio e resposta de mensagens.
  • Evitar contatos fora do expediente, salvo situações realmente emergenciais.
  • Orientar líderes a dar exemplo respeitando os períodos de descanso.
  • Criar programas permanentes de prevenção dos riscos psicossociais.
  • Avaliar resultados pela qualidade das entregas, e não pela disponibilidade constante dos colaboradores. 

"O melhor profissional não é aquele que está conectado 24 horas por dia. É aquele que consegue trabalhar com foco, descansar adequadamente e voltar no dia seguinte com energia para produzir. Cuidar da desconexão também é cuidar da saúde, da produtividade e da sustentabilidade do negócio", conclui o psiquiatra.

 

Dr. Daniel Sócrates - Médico psiquiatra, doutor pela UNIFESP, com mais de duas décadas de atuação clínica. Dedica-se ao cuidado de profissionais que enfrentam altos níveis de exigência e responsabilidade, com abordagem focada em performance sustentável, saúde mental e qualidade de vida.
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