Levantamento do IBGE mostra que mais de um em cada quatro adolescentes brasileiros sente que ninguém se preocupa com ele; para o psiquiatra Oswaldo Petermann Neto, da plataforma Doctoralia, os efeitos da ausência paterna aparecem anos depois, no consultório de pacientes adultos
Mais
de um em cada quatro adolescentes brasileiros (26,1%) diz sentir que ninguém se
preocupa com ele. Um terço (33,3%) acha que os pais ou responsáveis não
entendem suas aflições. Os números são da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar
(PeNSe), levantamento do IBGE em parceria com o Ministério
da Saúde divulgado em março deste ano,
com quase 118 mil estudantes de 13 a 17 anos ouvidos em mais de 4 mil escolas
do país. É o retrato mais recente e mais representativo que existe sobre saúde
mental na adolescência brasileira.
Neste
domingo, dia 9, o Brasil celebra o Dia dos Pais. Para o psiquiatra Oswaldo Petermann Neto, disponível na plataforma
Doctoralia e com atuação em terapia
familiar sistêmica, os números escancaram um padrão que ele reconhece na prática
clínica: histórias de infância marcadas por um pai fisicamente presente, mas
emocionalmente ausente.
“No
consultório, quem chega com ansiedade crônica ou dificuldade de regular emoção
quase sempre tem uma história parecida: um pai que nunca fez nada de errado,
mas também nunca esteve realmente por perto. A criança não precisa de um pai
sem falhas, precisa de um pai que preste atenção quando ela fala, e que repita
isso todos os dias”, afirma Petermann Neto.
Ele
também chama atenção para o que descreve como o mito do pai perfeito, reforçado
por campanhas publicitárias na época do Dia dos Pais. “Perfeição é um padrão
impossível e, pior, irrelevante para o desenvolvimento emocional de uma
criança. O vínculo não se constrói em grandes gestos, se constrói em minutos
repetidos: ouvir o dia dela, atender quando ela chama, largar o celular por
alguns minutos. É isso que o cérebro em formação registra como segurança”,
explica.
A
observação clínica do médico dialoga com dados nacionais sobre paternidade. O Índice
de Desenvolvimento das Paternidades, do Instituto Promundo (relatório de 2026),
associa presença paterna mais ativa a índices menores de violência contra
crianças e adolescentes: Santa Catarina, estado com melhor desempenho no
índice, registra menos de 5 mortes de crianças e adolescentes por 100 mil
habitantes, contra 25 por 100 mil na Bahia, um dos piores colocados. O mesmo
levantamento mostra que mulheres brasileiras ainda dedicam mais do que o dobro
do tempo dos homens ao cuidado com os filhos.
Em
março, o Brasil deu um passo formal nessa direção. A Lei 15.371/2026 ampliou a licença-paternidade de 5 para 20 dias, com implementação
gradual até 2029, e criou o salário-paternidade para autônomos, trabalhadores
informais e MEIs. É a primeira vez que a legislação trata a presença do pai nos
primeiros dias como parte do desenvolvimento da criança, e não como um gesto
simbólico.
“A
lei chega tarde, mas reconhece algo que a clínica mostra há anos: presença na
infância não é sobre fazer tudo certo, é sobre estar acessível. É essa
disponibilidade, e não a ausência de erros, que aparece 20 ou 30 anos depois
como diferença entre um adulto que regula bem a própria ansiedade e outro que
não”, conclui Oswaldo Petermann Neto.
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