Com foco nos benefícios diretos da prevenção primária, cardiologistas e urologistas do Hospital Santa Lúcia orientam sobre a rotina de diagnósticos que garante longevidade, preservação do bem-estar e qualidade de vida
Além de ser um período de comemorações em família, o Mês
dos Pais é uma oportunidade de lembrar de um tema determinante na manutenção da
saúde e da longevidade masculina: a necessidade de acompanhamento médico
preventivo a partir dos 40 anos. Dados do Ministério da Saúde indicam que os
homens brasileiros vivem, em média, cerca de sete anos a menos em comparação às
mulheres, detalhe associado ao padrão de cuidado com a própria saúde. Procurar
atendimento médico somente em situações de emergência, por exemplo, pode levar
à descoberta de patologias já em estágios avançados.
A partir da quarta década de vida, o organismo masculino passa por
transformações metabólicas e vasculares progressivas que elevam o risco do
desenvolvimento de enfermidades crônicas, cardiovasculares e oncológicas. De
acordo com a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), as doenças do coração
continuam sendo a principal causa de morte no país, respondendo por aproximadamente
400 mil óbitos anualmente. Em paralelo, o Instituto Nacional de Câncer (INCA)
estima a ocorrência de 77.920 novos casos por ano de câncer de próstata no
Brasil para o triênio 2026-2028.
Diante desse panorama, especialistas reforçam a importância da realização
periódica de exames laboratoriais e de imagem. A identificação precoce de
alterações arteriais ou neoplasias (crescimento anormal e descontrolado de
células no corpo) em fase inicial garante a aplicação de tratamentos curativos
minimamente invasivos, com taxas de sucesso que ultrapassam 90%, além de
preservar a função orgânica e a autonomia do paciente ao longo do
envelhecimento.
Virada dos 40 anos
A diferença na expectativa de vida entre homens e mulheres reflete a
necessidade de implementar uma cultura de acompanhamento contínuo no cotidiano
masculino. O cardiologista Dr. Mohammed Nasser, do Hospital Santa Lúcia Gama
(HSLG), explica que fatores biológicos e comportamentais levam à maior
vulnerabilidade do coração masculino a partir da quarta década.
"As doenças cardiovasculares, especialmente a doença isquêmica cardíaca e
o acidente vascular cerebral, são a principal causa de morte no Brasil e no
mundo. O estrogênio feminino exerce um papel protetor sobre o sistema
cardiovascular das mulheres durante boa parte da vida adulta, uma vantagem
biológica que os homens não possuem”, observa o médico. “Além disso,
estatisticamente, os homens consomem mais álcool, apresentam maior taxa de
tabagismo e realizam menos exames de rotina. Isso faz com que quadros de
hipertensão arterial e hipercolesterolemia sejam descobertos apenas em estágios
adiantados."
Após os 40 anos, o corpo masculino passa por um processo cumulativo de
envelhecimento vascular e metabólico. Há uma redução natural da elasticidade
das artérias, desaceleração do ritmo metabólico e tendência ao acúmulo de
gordura visceral. Esse conjunto de fatores favorece um estado inflamatório
crônico que acelera a formação de placas nos vasos sanguíneos. A identificação
prévia de alterações permite adequar os hábitos de vida e adotar terapias
farmacológicas direcionadas, evitando eventos graves como o infarto agudo do
miocárdio e o AVC.
Avaliação cardiovascular
A investigação da saúde cardíaca masculina após os 40 anos deve ser personalizada
com base no histórico familiar, presença de fatores de risco (como estresse,
sedentarismo e obesidade) e estilo de vida. A combinação entre sedentarismo,
acúmulo de gordura abdominal e estresse crônico gera o ambiente propício para a
disfunção endotelial e o enrijecimento vascular.
Para mapear a condição do sistema circulatório, a rotina de exames
cardiológicos abrange testes laboratoriais e os procedimentos de imagem não
invasivos, que permitem identificar a presença de placas nas artérias antes que
ocorra dor no peito ou infarto. A lista de avaliações recomendadas pode
incluir:
- Perfil
metabólico e lipidêmico: dosagem de glicemia de jejum,
hemoglobina glicada, colesterol total e frações (HDL, LDL, VLDL) e
triglicerídeos para identificar diabetes e dislipidemias;
- Eletrocardiograma
(ECG) e Ecocardiograma: avaliação da atividade elétrica do
coração, análise estrutural das câmaras cardíacas e funcionamento das
válvulas;
- Teste
ergométrico: monitoramento
da resposta cardíaca, da pressão arterial e da capacidade física durante o
esforço gradativo;
- Monitorização
Ambulatorial da Pressão Arterial (MAPA): acompanhamento
das variações pressóricas ao longo de 24 horas para diagnóstico de
hipertensão;
- Ultrassom
Doppler de carótidas: avaliação do fluxo sanguíneo e busca por espessamentos
ou placas de gordura nas artérias que irrigam o cérebro;
- Escore de cálcio
coronariano e angiotomografia: exames radiológicos de alta precisão
que detectam a presença de calcificação e obstruções nas artérias
coronárias antes que provoquem isquemia.
Próstata, saúde sexual e trato urinário
Embora a consulta urológica seja frequentemente associada de forma exclusiva à
próstata, a avaliação na quarta década de vida abrange outros fatores da saúde
masculina. O urologista Dr. Osei Akuamoa, do Hospital Santa Lúcia Norte (HSLN),
destaca que o acompanhamento urológico atua na detecção de diversas condições
operacionais e hormonais.
"Avaliamos a saúde prostática, que inclui o rastreamento da hiperplasia
prostática benigna e do câncer de próstata, mas também investigamos os sintomas
do trato urinário inferior, as alterações da libido, a disfunção erétil, a
fertilidade e a presença de patologias nos rins, bexiga e testículos”, lista o
especialista. “A disfunção erétil de início recente, por exemplo, é um marcador
vascular importante, podendo anteceder eventos cardiovasculares graves em um
intervalo de dois a cinco anos."
O câncer de próstata manifesta-se de forma assintomática em seus estágios
iniciais. No aparecimento de sinais clínicos, como dor óssea, sangramento ou
retenção urinária, a doença pode já ter atingido estágios avançados,
dificultando a cura. O urologista e especialista em uro-oncologia Dr. Carlos
Watanabe, do Hospital Santa Lúcia Sul (HSLS), enfatiza os ganhos do diagnóstico
em fase localizada.
"Quando o câncer de próstata é identificado precocemente, as chances de
tratamento curativo ultrapassam 90% a 95%”, enfatiza. “Além da alta taxa de
cura, o diagnóstico precoce possibilita o emprego de técnicas cirúrgicas de
alta precisão, como a cirurgia robótica, ou a indicação de vigilância ativa em
tumores de baixo risco. Isso reduz significativamente a necessidade de
tratamentos agressivos, preservando a continência urinária e a função sexual do
paciente."
Para homens sem histórico familiar, a discussão sobre o rastreamento
individualizado deve começar aos 50 anos. Contudo, a investigação deve ser
antecipada para a faixa dos 40 aos 45 anos em grupos com fatores de risco
aumentados, como:
- Homens com
parentes de primeiro grau (pai, irmão ou filho) diagnosticados com câncer
de próstata, especialmente em idade precoce (abaixo de 65 anos);
- Homens negros,
que apresentam maior incidência estatística e propensão a tumores de maior
agressividade;
- Indivíduos
portadores de mutações genéticas conhecidas, como BRCA1, BRCA2, ATM,
HOXB13 ou associadas à síndrome de Lynch.
A investigação urológica combina a dosagem do antígeno
prostático específico (PSA) no sangue, o exame físico (toque retal) e, quando
necessário, exames complementares como a ressonância magnética multiparamétrica
da próstata e a biópsia dirigida.
Guia de longevidade masculina
A atenção à saúde deve evoluir conforme as demandas biológicas de cada etapa da
vida.
Aos 30 anos:
- Cardiologia: aferição
periódica da pressão arterial, dosagem de glicemia de jejum e perfil
lipídico completo;
- Urologia: primeiro
check-up urológico para avaliação do trato genital, orientação sobre
autocuidado testicular e investigação de lesões cutâneas ou por HPV;
- Estilo de vida: revisão do
histórico familiar de neoplasias (próstata, intestino, pulmão) e adoção de
rotina com atividade física regular e peso corporal adequado.
Dos 40 aos 49 anos:
- Cardiologia: check-up
cardiológico com eletrocardiograma, teste ergométrico, ecocardiograma e
avaliação de risco vascular global;
- Urologia e
Oncologia:
avaliação prostática (PSA e toque retal) sob indicação médica para homens
com fatores de risco a partir dos 40-45 anos;
- Coloproctologia:
realização
da primeira colonoscopia a partir dos 45 anos para rastreamento de lesões
pré-malignas (pólipos) e prevenção do câncer de intestino e reto;
- Pneumologia: tomografia
computadorizada de tórax de baixa dose para pacientes fumantes ou
ex-fumantes com carga tabágica relevante, visando ao rastreamento precoce
do câncer de pulmão.
Dos 50 aos 59 anos:
- Urologia: acompanhamento
anual da próstata com PSA, toque retal e ressonância magnética quando
houver indicação clínica;
- Coloproctologia:
repetição
periódica da colonoscopia em intervalos definidos com base nos achados do
exame anterior;
- Cardiologia: monitoramento
intensivo da pressão arterial, controle de gordura visceral e exames de
imagem vascular (doppler e escore de cálcio);
- Pneumologia: manutenção da
tomografia de tórax de baixa dose anual em fumantes e atualização do
esquema vacinal respiratório (influenza e pneumocócica).
Aos 60 anos ou mais:
- Oncologia e
Urologia: vigilância
contínua para tumores de próstata, bexiga, rim, aparelho digestivo e pele;
- Cardiologia: controle
rigoroso de hipertensão, diabetes, insuficiência cardíaca e arritmias,
além do rastreamento de apneia obstrutiva do sono;
- Geral: avaliação
nutricional, preservação da massa magra e acompanhamento multidisciplinar
integrado.
Medicina diagnóstica por imagem
A evolução da medicina diagnóstica simplificou o processo de rastreamento de
doenças internas, permitindo que alterações nos órgãos e vasos sanguíneos sejam
mapeadas sem a necessidade de intervenções invasivas. O Centro de Diagnóstico
por Imagem do Hospital Santa Lúcia (HSL), integrado às estruturas
especializadas do Centro Radiológico de Brasília (CRB) e do Centro Radiológico
do Gama (CRG), oferece suporte tecnológico de ponta para a realização dos
exames de rotina masculina. A estrutura inclui:
- Ultrassonografia
abdominal e pélvica: permite a avaliação morfológica dos rins, bexiga,
fígado e vesícula biliar, identificando cálculos, cistos ou nódulos em
estágios iniciais;
- Tomografia
computadorizada de tórax de baixa dose: possibilita a detecção de
nódulos pulmonares milimétricos com exposição reduzida à radiação;
- Angiotomografia
e escore de cálcio coronariano: mapeiam detalhadamente as artérias do
coração, permitindo quantificar o grau de calcificação coronariana;
- Ressonância
magnética multiparamétrica da próstata: fornece imagens de alta
resolução espacial que auxiliam a diferenciar lesões benignas de tumores agressivos,
guiando biópsias com precisão milimétrica e evitando procedimentos
desnecessários.
Mitos e fatos sobre a saúde masculina
1. O exame de PSA normal garante que não há câncer de próstata?
Resposta (Dr. Carlos Watanabe – Urologista): Não totalmente. Embora o PSA
seja uma ferramenta indispensável, estudos apontam que uma porcentagem de
homens com PSA em níveis considerados normais (abaixo de $4~ng/mL$) pode
apresentar lesões tumorais na biópsia. Da mesma forma, alterações no PSA podem
ocorrer por inflamações (prostatites) ou crescimento benigno do órgão. O
diagnóstico correto depende da associação entre histórico clínico, toque retal,
curva do PSA e exames de imagem de alta precisão, como a ressonância magnética.
2. Quais sinais urinários sutis devem levar o homem ao consultório?
Resposta (Dr. Osei Akuamoa – Urologista): Alterações de evolução lenta
costumam ser ignoradas. Acordar várias vezes à noite para urinar (noctúria),
notar redução na força do jato urinário, ter sensação de esvaziamento incompleto
da bexiga, sentir urgência para urinar ou observar a presença de sangue na
urina (mesmo em um único episódio) são sinais que exigem investigação urológica
imediata.
3. Por que exames de imagem do coração são indicados se o paciente não sente
dor no peito?
Resposta (Dr. Mohammed Nasser – Cardiologista): A aterosclerose (acúmulo de
gordura e cálcio nas artérias) é uma doença silenciosa que se desenvolve ao
longo de anos sem provocar sintomas aparentes. Quando a dor no peito surge, a
artéria frequentemente já se encontra com estreitamento crítico. Exames como o
escore de cálcio e o ultrassom de carótidas identificam essas placas na fase
subclínica, permitindo iniciar o tratamento profilático antes que ocorra um
infarto ou AVC.
4. A disfunção erétil tem relação com a saúde do coração?
Resposta (Dr. Osei Akuamoa – Urologista): Sim, a relação é direta. As
artérias que irrigam o tecido erétil possuem calibre menor que as artérias
coronárias. Por esse motivo, o comprometimento endotelial provocado por hipertensão,
colesterol elevado ou diabetes costuma se manifestar primeiro na função sexual.
Alterações de ereção podem anteceder eventos cardiovasculares graves em dois a
cinco anos, funcionando como um sinal de alerta para a saúde vascular global.

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