Especialistas
apontam que emagrecimento rápido e alterações metabólicas podem afetar libido,
resposta sexual e percepção corporal em homens e mulheres
Canva Dados do Conselho Federal de Farmácia apontam que o
consumo das canetas emagrecedoras cresceu 88% no último ano
As chamadas “canetas emagrecedoras” se tornaram um
dos temas mais presentes nas conversas sobre saúde e emagrecimento nos últimos
meses. O uso crescente de medicamentos agonistas de GLP-1, como semaglutida e
tirzepatida, tem chamado atenção não apenas pelos efeitos na perda de peso, mas
também por possíveis impactos pouco discutidos no organismo, entre eles,
alterações relacionadas à saúde íntima e sexual de homens e mulheres.
Embora ainda não existam estudos conclusivos sobre
efeitos diretos na mucosa vaginal, lubrificação ou função do assoalho pélvico,
especialistas já observam sinais clínicos que apontam mudanças importantes na
resposta sexual e no funcionamento corporal após o emagrecimento acelerado.
Segundo a fisioterapeuta e doutora em Ginecologia e
Obstetrícia Daniella Leiros, da Clínica Videlis, em Ribeirão Preto (SP), o
corpo reage de forma integrada às mudanças metabólicas provocadas pelos
medicamentos. “As pessoas acreditam que emagrecer mexe só na balança, mas não.
O corpo inteiro reage. A região íntima é uma das primeiras a denunciar quando
algo está saindo do eixo. Ela fala, ela reclama, ela muda”, comenta.
O crescimento do uso desses medicamentos no Brasil
ajuda a dimensionar o tema. Dados do Conselho Federal de Farmácia apontam que o
consumo das canetas emagrecedoras cresceu 88% no último ano. Já uma pesquisa do
Instituto Locomotiva mostrou que 62% dos brasileiros conhecem alguém que
utiliza ou já utilizou esses medicamentos, enquanto 24% dos entrevistados
afirmaram já ter feito uso.
Alterações na libido e na
resposta sexual masculina
O estudo “Disfunção sexual masculina associada a
agonistas do receptor GLP-1: uma análise transversal dos dados do FAERS”,
publicado em 2025 no periódico britânico International Journal of
Impotence Research, identificou associação entre medicamentos agonistas de
GLP-1 e alterações no corpo do homem, como disfunção erétil, queda da libido e
alterações ejaculatórias
A fisioterapeuta Josiane Pavão, especialista em
saúde íntima masculina e sexualidade, explica que a resposta sexual depende
diretamente do equilíbrio metabólico e vascular do organismo. “A fisiologia da
ereção depende de integridade vascular e neurológica. Qualquer intervenção que
altere o metabolismo sistêmico pode modificar a resposta erétil”, afirma.
Além dos estudos envolvendo homens, relatos
científicos recentes também descrevem mulheres com redução importante da
lubrificação, dor durante a relação sexual, dificuldade de excitação e queda da
resposta sexual.
“Quando o corpo interpreta que você está vivendo
com menos energia, ele desliga o que não é essencial para sobreviver. Desejo,
prazer e resposta sexual são algumas das primeiras coisas que sofrem impacto”,
explica Daniella.
Corpo, metabolismo e
sexualidade estão conectados
Segundo as especialistas, homens e mulheres podem
apresentar manifestações diferentes, mas ambos sofrem consequências
relacionadas ao funcionamento íntimo e à percepção corporal. “Nos homens, vemos
impacto direto na hemodinâmica peniana. Nas mulheres, há sinais funcionais
relacionados à diminuição da resposta sexual, possivelmente pela combinação
entre perda de gordura local, variações hormonais e ingestão calórica muito
baixa”, detalha Josiane.
Entre os mecanismos apontados pelas profissionais
para explicar essas alterações estão mudanças hormonais rápidas, alterações na
circulação genital, perda abrupta de gordura corporal, ingestão calórica
insuficiente e impacto no sistema nervoso e no eixo do desejo sexual. “Tecidos
genitais dependem de aporte sanguíneo e equilíbrio metabólico. É fisiologia
pura”, resume Josiane.
As especialistas alertam que o objetivo dos estudos
não é condenar o uso dos medicamentos, mas ampliar o olhar sobre os efeitos do
emagrecimento rápido no organismo. “Não é para demonizar o remédio, é para
escutar o corpo. Se a sua região íntima mudou, é porque algo mudou dentro de
você. A saúde íntima faz parte da saúde geral e não pode ser deixada de lado”,
conclui Daniella Leiros.
Nenhum comentário:
Postar um comentário