Reportagem do The New York Times
expõe abusos em clínicas de terapia ABA nos Estados Unidos; Autistas Brasil
alerta para riscos da desinformação e da mercantilização do cuidado após casos
investigados também no Brasil
A investigação publicada pelo The New York Times sobre a indústria
da Análise do Comportamento Aplicada (ABA) reacendeu o debate internacional
sobre práticas terapêuticas direcionadas a pessoas autistas, interesses
econômicos envolvidos no setor e a disseminação de tratamentos sem comprovação
científica. A reportagem mostra como grandes grupos empresariais e fundos de
investimento passaram a atuar em clínicas especializadas nos Estados Unidos, em
um mercado que movimenta bilhões de dólares e que tem sido alvo de denúncias
envolvendo excesso de intervenções, abordagens coercitivas e conflitos entre
interesses financeiros e o bem-estar dos pacientes.
O tema ganha relevância também no Brasil. Nos últimos
meses, operações conduzidas pelo Ministério Público e pela Polícia Civil em São
Paulo investigaram clínicas suspeitas de irregularidades em atendimentos
voltados a pessoas autistas, incluindo denúncias relacionadas a protocolos
inadequados, cobranças indevidas e possível fraude na prestação de serviços.
Para a Autistas Brasil, os episódios observados no país e no
exterior apontam para um mesmo problema: a transformação do autismo em um
mercado altamente lucrativo, frequentemente alimentado por promessas sem
respaldo científico e pela vulnerabilidade de famílias em busca de apoio e
tratamento.
"O que estamos observando é a consolidação de um mercado que,
em muitos casos, passa a enxergar pessoas autistas como consumidores
permanentes de serviços, e não como cidadãos com direitos. Quando interesses
financeiros se sobrepõem às necessidades individuais, abre-se espaço para
práticas questionáveis, excesso de intervenções e abordagens que não respeitam
a autonomia, a dignidade e o bem-estar das pessoas autistas. O cuidado precisa
ser orientado por evidências científicas e pelo respeito aos direitos humanos,
não por metas de faturamento", afirma Arthur Ataide, vice-presidente da
Autistas Brasil.
Além das denúncias envolvendo clínicas, especialistas têm
demonstrado preocupação com o crescimento da circulação de informações falsas
relacionadas ao autismo e à promoção de tratamentos sem evidências científicas.
Um dos casos mais recentes ocorreu nos Estados Unidos, onde autoridades
públicas passaram a divulgar a leucovorina (ácido folínico) como uma
alternativa terapêutica para o autismo, apesar da ausência de consenso
científico sobre sua eficácia para essa finalidade.
A divulgação dessas informações provocou aumento expressivo na
procura pelo medicamento e reacendeu críticas de pesquisadores, neurologistas e
entidades médicas sobre os riscos de transformar hipóteses preliminares em
recomendações públicas. Estudos que apontavam possíveis benefícios do
medicamento foram posteriormente questionados e sofreram retratações
relacionadas a falhas metodológicas.
Para a Autistas Brasil, a promoção de supostas "curas"
para o autismo representa uma das faces mais preocupantes da desinformação em
saúde.
"A desinformação encontra terreno fértil quando famílias
estão em busca de respostas, apoio e perspectivas para seus filhos. Promessas
de cura, tratamentos milagrosos ou medicamentos apresentados como soluções
definitivas para o autismo podem gerar falsas expectativas, prejuízos
financeiros e até riscos à saúde. É fundamental que decisões terapêuticas sejam
tomadas com base em evidências científicas sólidas e acompanhamento
profissional qualificado", diz Arthur Ataide, vice-presidente da Autistas
Brasil.
O alerta encontra respaldo em levantamento realizado pela Autistas
Brasil em parceria com pesquisadores da Fundação Getulio Vargas (FGV), que
analisou mais de 58 milhões de mensagens compartilhadas em grupos públicos do
Telegram. O estudo identificou crescimento superior a 15 mil% na circulação de
conteúdos falsos relacionados ao autismo desde o período da pandemia, incluindo
teorias conspiratórias sobre vacinas, medicamentos e supostas curas.
Segundo a organização, o cenário reforça a necessidade de ampliar
a fiscalização de clínicas, fortalecer a regulação dos serviços destinados à
população autista e garantir que políticas públicas sejam orientadas por evidências
científicas e pelos direitos humanos.
"Autismo não é uma doença e, portanto, não existe cura a ser
perseguida. O que as pessoas autistas precisam é de acesso a direitos,
inclusão, educação de qualidade, atendimento adequado e respeito às suas características
individuais. Quando a pseudociência, a desinformação e a falta de fiscalização
se combinam, cria-se um ambiente propício para abusos que afetam diretamente a
qualidade de vida das pessoas autistas e de suas famílias. O enfrentamento
desse cenário exige compromisso com a ciência, transparência e proteção dos
direitos da comunidade autista", conclui Arthur Ataide, vice-presidente da
Autistas Brasil.
Sobre a Autistas Brasil
Organização nacional fundada e liderada por pessoas autistas, a
Autistas Brasil atua na formulação de políticas públicas, na incidência
jurídica e no desenvolvimento de programas educacionais em larga escala. Nos
últimos três anos, suas ações alcançaram mais de 21 mil educadores em todo o
país, consolidando a instituição como referência em inclusão, neurodiversidade
e direitos humanos.
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