Tratar apenas o pulmão não basta: especialistas explicam como a dependência da nicotina afeta a saúde mental e dificulta o abandono do cigarro
Quando se fala sobre parar de fumar, é importante chamar atenção
não apenas para os danos físicos causados pelo cigarro, mas também para uma
relação muitas vezes silenciosa: o impacto da saúde mental no tabagismo. Embora
o hábito de fumar seja frequentemente associado a doenças respiratórias e
cardiovasculares, especialistas alertam que transtornos como ansiedade,
depressão e estresse crônico também desempenham papel importante tanto no
início da dependência quanto na dificuldade de abandonar o vício.
Dados recentes da Organização Mundial da Saúde (OMS), publicados
no Relatório Técnico sobre Tabagismo e Saúde Mental, mostram que a dependência
da nicotina está intimamente ligada a transtornos de humor, como depressão,
transtorno de ansiedade generalizada (TAG) e transtorno bipolar. Em muitos
casos, o cigarro passa a ser utilizado como uma tentativa de aliviar sintomas
emocionais do dia a dia, criando um ciclo de dependência física e psicológica.
No entanto, a saúde mental também se torna decisiva quando a
pessoa decide parar de fumar. No Brasil, pesquisas divulgadas pelo Observatório
do Tabaco da Fiocruz apontam que sintomas de ansiedade moderada a grave,
compulsão e sofrimento emocional podem tornar o processo de cessação mais
difícil e aumentar o risco de recaídas.
"Do ponto de vista pulmonar, o cigarro provoca um processo
inflamatório contínuo nas vias aéreas e reduz progressivamente a capacidade
respiratória do paciente. Com o tempo, isso favorece o desenvolvimento de
doenças como bronquite crônica, enfisema e DPOC. Quando o paciente tenta parar
de fumar, o corpo reage fisicamente à ausência da nicotina com sintomas como
sudorese, tremores, irritabilidade e sensação de ansiedade. Muitas vezes, a
própria falta de ar causada pela ansiedade e pela fragilidade pulmonar acumulada
se confunde com os sintomas da abstinência, gerando um desconforto intenso. Por
isso, o acompanhamento médico e, em alguns casos, a terapia de reposição de
nicotina são fundamentais para tornar esse processo mais seguro e
sustentável", explica o Dr. Ricardo Siufi, médico pneumologista e professor
da São Leopoldo Mandic.
Por que a mente sabota?
Um dos maiores obstáculos para quem tenta parar de fumar é
entender que a dependência da nicotina opera em duas frentes: a física e a
psicológica. Quando o nível de nicotina cai no sangue, o cérebro dispara um
sinal de alerta que o indivíduo interpreta como ansiedade ou irritabilidade. Ao
acender o cigarro, o alívio é imediato, criando uma falsa sensação de
bem-estar.
"O grande erro de quem tenta parar de fumar é negligenciar o
gatilho psicológico. Quando a pessoa passa por um pico de estresse, a mente
busca automaticamente aquela recompensa rápida do cigarro. Se o paciente tem um
transtorno de ansiedade de base não tratado, a chance de recaída nas primeiras
semanas é grande. Não é falta de força de vontade, é um mecanismo neuroquímico
de compulsão que precisa de acompanhamento", alerta o médico
psiquiatra da São Leopoldo Mandic, Dr. Celso Garcia.
O especialista explica que os principais sinais de que a saúde mental
está interferindo no processo de cessação incluem:
- Fissura por Compulsão: Uma necessidade
incontrolável de fumar que surge em momentos de tédio, frustração ou pico
de estresse.
- Irritabilidade e Flutuações de Humor: Mudanças drásticas no comportamento logo nas primeiras horas
sem o cigarro, muitas vezes confundidas com "gênio forte".
- Ansiedade Antecipatória: O medo obsessivo de passar por uma situação social ou
profissional sem o amparo do cigarro.
- Substituição de Compulsões: Tendência a transferir o vício do cigarro para a comida
(geralmente doces e ultraprocessados) ou álcool.
Saúde
mental deve fazer parte do tratamento contra o tabagismo
Apesar do desafio, os especialistas ponderam que a abordagem
integrada aumenta drasticamente as taxas de sucesso. O
tratamento ideal une o acompanhamento pneumológico, para avaliar a capacidade
pulmonar e o suporte de substituição de nicotina, ao psiquiátrico, que vai
tratar a raiz comportamental.
"A presença de crises de ansiedade durante a abstinência é
esperada, mas ela não deve ser um motivo para o pânico ou para a desistência.
Hoje temos medicamentos modernos na psiquiatria que ajudam a controlar a
fissura e a regular a ansiedade sem causar dependência. O autocuidado envolve
entender que recaídas podem acontecer, mas que cada tentativa nos deixa mais
perto do sucesso, desde que a mente receba a devida atenção", pontua o
médico.
Tratar apenas os impactos físicos do tabagismo já não é
suficiente. Investigar precocemente sintomas de ansiedade, compulsão e
sofrimento emocional aumenta as chances de sucesso no abandono do cigarro e
reduz o risco de recaídas. Neste Dia Mundial sem Tabaco, a principal mensagem é
que parar de fumar vai além da interrupção do hábito: também exige cuidado com
a saúde mental.
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