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quinta-feira, 4 de junho de 2026

O papel da saúde mental no processo de parar de fumar

Tratar apenas o pulmão não basta: especialistas explicam como a dependência da nicotina afeta a saúde mental e dificulta o abandono do cigarro

 

Quando se fala sobre parar de fumar, é importante chamar atenção não apenas para os danos físicos causados pelo cigarro, mas também para uma relação muitas vezes silenciosa: o impacto da saúde mental no tabagismo. Embora o hábito de fumar seja frequentemente associado a doenças respiratórias e cardiovasculares, especialistas alertam que transtornos como ansiedade, depressão e estresse crônico também desempenham papel importante tanto no início da dependência quanto na dificuldade de abandonar o vício. 

Dados recentes da Organização Mundial da Saúde (OMS), publicados no Relatório Técnico sobre Tabagismo e Saúde Mental, mostram que a dependência da nicotina está intimamente ligada a transtornos de humor, como depressão, transtorno de ansiedade generalizada (TAG) e transtorno bipolar. Em muitos casos, o cigarro passa a ser utilizado como uma tentativa de aliviar sintomas emocionais do dia a dia, criando um ciclo de dependência física e psicológica. 

No entanto, a saúde mental também se torna decisiva quando a pessoa decide parar de fumar. No Brasil, pesquisas divulgadas pelo Observatório do Tabaco da Fiocruz apontam que sintomas de ansiedade moderada a grave, compulsão e sofrimento emocional podem tornar o processo de cessação mais difícil e aumentar o risco de recaídas. 

"Do ponto de vista pulmonar, o cigarro provoca um processo inflamatório contínuo nas vias aéreas e reduz progressivamente a capacidade respiratória do paciente. Com o tempo, isso favorece o desenvolvimento de doenças como bronquite crônica, enfisema e DPOC. Quando o paciente tenta parar de fumar, o corpo reage fisicamente à ausência da nicotina com sintomas como sudorese, tremores, irritabilidade e sensação de ansiedade. Muitas vezes, a própria falta de ar causada pela ansiedade e pela fragilidade pulmonar acumulada se confunde com os sintomas da abstinência, gerando um desconforto intenso. Por isso, o acompanhamento médico e, em alguns casos, a terapia de reposição de nicotina são fundamentais para tornar esse processo mais seguro e sustentável", explica o Dr. Ricardo Siufi, médico pneumologista e professor da São Leopoldo Mandic.
 

Por que a mente sabota? 

Um dos maiores obstáculos para quem tenta parar de fumar é entender que a dependência da nicotina opera em duas frentes: a física e a psicológica. Quando o nível de nicotina cai no sangue, o cérebro dispara um sinal de alerta que o indivíduo interpreta como ansiedade ou irritabilidade. Ao acender o cigarro, o alívio é imediato, criando uma falsa sensação de bem-estar. 

"O grande erro de quem tenta parar de fumar é negligenciar o gatilho psicológico. Quando a pessoa passa por um pico de estresse, a mente busca automaticamente aquela recompensa rápida do cigarro. Se o paciente tem um transtorno de ansiedade de base não tratado, a chance de recaída nas primeiras semanas é grande. Não é falta de força de vontade, é um mecanismo neuroquímico de compulsão que precisa de acompanhamento", alerta o médico psiquiatra da São Leopoldo Mandic, Dr. Celso Garcia. 

O especialista explica que os principais sinais de que a saúde mental está interferindo no processo de cessação incluem:

  • Fissura por Compulsão: Uma necessidade incontrolável de fumar que surge em momentos de tédio, frustração ou pico de estresse.
  • Irritabilidade e Flutuações de Humor: Mudanças drásticas no comportamento logo nas primeiras horas sem o cigarro, muitas vezes confundidas com "gênio forte".
  • Ansiedade Antecipatória: O medo obsessivo de passar por uma situação social ou profissional sem o amparo do cigarro.
  • Substituição de Compulsões: Tendência a transferir o vício do cigarro para a comida (geralmente doces e ultraprocessados) ou álcool.


Saúde mental deve fazer parte do tratamento contra o tabagismo 

Apesar do desafio, os especialistas ponderam que a abordagem integrada aumenta drasticamente as taxas de sucesso. O tratamento ideal une o acompanhamento pneumológico, para avaliar a capacidade pulmonar e o suporte de substituição de nicotina, ao psiquiátrico, que vai tratar a raiz comportamental.

"A presença de crises de ansiedade durante a abstinência é esperada, mas ela não deve ser um motivo para o pânico ou para a desistência. Hoje temos medicamentos modernos na psiquiatria que ajudam a controlar a fissura e a regular a ansiedade sem causar dependência. O autocuidado envolve entender que recaídas podem acontecer, mas que cada tentativa nos deixa mais perto do sucesso, desde que a mente receba a devida atenção", pontua o médico.

Tratar apenas os impactos físicos do tabagismo já não é suficiente. Investigar precocemente sintomas de ansiedade, compulsão e sofrimento emocional aumenta as chances de sucesso no abandono do cigarro e reduz o risco de recaídas. Neste Dia Mundial sem Tabaco, a principal mensagem é que parar de fumar vai além da interrupção do hábito: também exige cuidado com a saúde mental.
  

São Leopoldo Mandic


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