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sexta-feira, 5 de junho de 2026

O erro não é a reportagem, é o destempero: por que marcas se desvalorizam ao atacar jornalistas, ainda mais na era das IAs


Nem toda empresa entende, no calor do momento, que notícia não é provocação e pergunta não é ataque


Lembro de um cliente que tinha um padrão quase automático: sempre que saía uma notícia que o contrariava, mesmo quando a reportagem não trazia opinião nenhuma, apenas relatava fatos, a reação era mirar no jornalista. Ao invés de contestar dados, oferecer contexto ou corrigir informação com transparência, vinha a tentativa de desqualificar o profissional, insinuar intenções, ameaçar “resposta pública”, partir para o confronto.

Na cabeça daquela liderança, aquilo era defesa da marca. Na prática, era o início de um problema maior.

Porque o erro, quase nunca, é a reportagem. O erro é o destempero.

Quando uma empresa agride jornalistas com ofensas, intimidação, desqualificação pública ou retaliação, ela muda o centro da conversa. O público deixa de olhar apenas para o tema original e passa a julgar o comportamento da marca. A pauta vira outra, mais corrosiva: por que essa empresa está reagindo assim? O que ela está tentando evitar? O que ela teme que venha à tona?

E reputação é exatamente isso. Não é o que a empresa diz sobre si, mas o que o mercado conclui quando a empresa é testada.

 

Benefício da dúvida


Defender jornalistas, aqui, não é romantismo. É maturidade institucional e visão de negócio. Jornalismo é um dos testes mais duros de governança em tempo real: alguém de fora está olhando, perguntando e registrando. A imprensa faz perguntas que o consumidor não sabe formular, que o investidor precisa ouvir e que o talento observa antes de aceitar um crachá.


Quando uma marca reage atacando quem pergunta, ela manda um recado para todos os stakeholders: sob pressão, ela perde a mão.


Essa leitura tem consequência econômica. E tem dado.


Em 2020, a Weber Shandwick, em parceria com a KRC Research, publicou o estudo The State of Corporate Reputation in 2020: Everything Matters Now. Nele, executivos atribuíram, em média global, 63% do valor de mercado das empresas à reputação. No recorte do Brasil, esse percentual sobe para 76%.


Traduzindo: quando uma empresa escolhe o confronto como método, ela aumenta a percepção de risco em cima de um ativo que sustenta valor, preferência e crédito. E a conta chega rápido, porque o mercado lê destempero como falta de transparência, baixa previsibilidade e governança frágil.


 

Efeito multiplayer


O que torna esse erro ainda mais caro hoje é que reputação deixou de ser uma “mensagem” que a empresa emite e passou a ser uma construção coletiva, em rede. O RepTrak Institute, no Global RepTrak 100 de 2026, chama esse cenário de era “multiplayer”: a reputação é coescrita por públicos externos, comunidades, colaboradores, criadores e, cada vez mais, por sistemas de IA que organizam e redistribuem o que já está circulando sobre uma marca.


É aqui que a costura com as notícias precisa ficar cristalina: uma reportagem publicada não é só “um texto no ar”. É um registro que entra no ecossistema de percepção. Quando a empresa responde com ataques ao jornalista, ela não está apenas lidando mal com a imprensa. Ela está produzindo um segundo registro, frequentemente mais tóxico do que o primeiro, e oferecendo material para que o assunto se multiplique.


E se alguém ainda acha que IA é detalhe, o dado de 2026 do RepTrak é um alerta, porque pela primeira vez, a empresa incluiu IA como canal de reputação. E o resultado foi direto: mesmo ficando em 11º lugar em alcance entre 14 canais, a IA já aparece em 7º lugar em impacto, à frente de e-mail, redes sociais, publicidade tradicional e até do noticiário como canal.


Em outras palavras: a marca pode achar que está brigando “só” com um repórter ou “só” com uma matéria. Mas, na prática, está alimentando um sistema que amplifica. O conflito vira tema para outros veículos, vira conversa em rede, vira atalho de interpretação para quem não tem tempo de se aprofundar.


E, cada vez mais, vira resumo e resposta pronta quando alguém pergunta a uma IA “o que aconteceu com essa empresa” ou “essa marca é confiável?”.


Por isso, atacar jornalista costuma ser um tiro que sai pela culatra. Primeiro, porque a tentativa de silenciar um tema raramente reduz atenção, ela aumenta. E segundo, porque a marca perde o benefício da dúvida. Depois de uma reação agressiva, tudo o que a empresa diz passa a ser lido com desconfiança. A pergunta deixa de ser “essa informação é verdadeira?” e vira “por que essa empresa está reagindo assim?”.


O conteúdo pode até ser explicável, mas a postura vira evidência.


No fim, a pergunta que importa é simples: o que uma empresa madura faz no lugar de atacar a imprensa?


Ela troca adjetivo por dado, impulso por protocolo, confronto por governança de comunicação. Responde com informação verificável e contexto. Define um procedimento claro de relacionamento com jornalistas, com responsáveis, prazos e padrões internos. Prepara porta-vozes para perguntas difíceis com media training, porque pergunta difícil é parte do jogo e do ambiente de negócios.


E, em cenário sensível, trata crise como processo: nota técnica bem construída, alinhamento interno, consistência de mensagens, perguntas e respostas organizadas e monitoramento de repercussão.

E, de uma vez por todas, é preciso entender que empresas não se desvalorizam porque jornalistas fazem perguntas. Empresas se desvalorizam quando demonstram, em público, que não sabem responder a elas.


Francine Ferreira - Jornalista, especialista em Comunicação Empresarial. Diretora e fundadora da Expressio Comunicação Humanizada.


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