Em meio ao avanço das discussões sobre diretrizes nacionais, adoção da tecnologia nas escolas brasileiras ocorre de forma desigual e ainda sem planejamento pedagógico estruturado
O uso de inteligência artificial nas escolas brasileiras já é uma
realidade, mas ainda avança mais rápido do que a definição de diretrizes claras
para sua aplicação. O tema ganha ainda mais relevância no momento em que o
Conselho Nacional de Educação avança na discussão de diretrizes nacionais para
o uso da inteligência artificial no ensino, com propostas que reforçam o papel
da tecnologia como ferramenta de apoio e não de substituição do professor.
Esse debate também tem ganhado espaço em fóruns internacionais.
Recentemente, a especialista Ana Karine Czelusniak Chiquim, coordenadora
pedagógica da Brink Mobil, participou de eventos acadêmicos na Europa, como o ISKO 7, em
Porto (Portugal), e a iConference 2026, na Edinburgh Napier University, em
Edimburgo (Escócia), onde foram discutidos os impactos da inteligência
artificial na educação, na organização do conhecimento e nas práticas
pedagógicas.
Nos últimos anos, a popularização de ferramentas de IA generativa
acelerou a presença da tecnologia no ambiente escolar, muitas vezes antes da
consolidação de políticas claras de uso.
Para Ana Karine Czelusniak Chiquim,
especialista com mais de duas décadas de experiência na área educacional, o
principal desafio já não está mais no acesso à tecnologia, mas na forma como
ela vem sendo incorporada no dia a dia das instituições de ensino.
“A inteligência artificial já está dentro das escolas. O ponto de
atenção é que, em muitos casos, essa adoção acontece de forma dispersa, sem
integração e sem um direcionamento pedagógico claro. Isso pode gerar ganhos
pontuais, mas dificilmente constrói um modelo consistente de aprendizagem”,
afirma.
Na prática, essa adoção ainda ocorre de forma desigual entre redes
de ensino, com iniciativas isoladas e sem padronização, o que dificulta a
construção de um modelo estruturado e escalável.
“Existe um movimento de adoção que ainda não veio acompanhado de
reflexão pedagógica. A escola corre o risco de utilizar a tecnologia sem
clareza sobre qual problema ela resolve ou qual objetivo educacional pretende
atingir”, explica.
Outro ponto de atenção está na forma como essas ferramentas são
utilizadas no cotidiano escolar. Segundo a especialista, o uso pouco
criterioso, incluindo a definição de comandos e seleção de dados, pode
comprometer os resultados e gerar interpretações equivocadas no processo de
aprendizagem.
Apesar dos desafios, Karine reforça que a inteligência artificial
tem potencial para contribuir de forma relevante com o ensino, desde que
aplicada com intencionalidade.
“A IA permite personalizar o aprendizado, respeitando o ritmo de
cada aluno, além de ampliar a acessibilidade e estimular novas formas de
construção do conhecimento. Mas isso só acontece quando há planejamento e
integração com a proposta pedagógica”, diz.
Outro ponto de atenção, segundo a especialista, é a necessidade de
tornar o uso da tecnologia viável para o professor, sem aumentar a complexidade
da rotina escolar.
“A IA precisa ser simples e acessível. O professor deve permanecer
no centro do processo de ensino, enquanto a tecnologia atua como suporte.
Quando bem aplicada, ela organiza caminhos e amplia possibilidades, não
substitui o papel do educador”, completa.
Para ela, o avanço das discussões sobre diretrizes nacionais
representa um passo importante para equilibrar inovação e qualidade no ensino,
garantindo que o uso da tecnologia esteja alinhado aos objetivos educacionais e
às necessidades reais das escolas.
Ana Karine Czelusniak Chiquim - especialista em educação,
pedagoga e psicopedagoga clínica, institucional e hospitalar. Pós-graduada em
Administração Escolar, Supervisão e Orientação, é pesquisadora associada à
Escola do Futuro (NACE) da Universidade de São Paulo (USP). Atua há mais de 23
anos na área educacional, com experiência em docência, gestão, inclusão e consultoria
pedagógica no setor público e privado. É coordenadora pedagógica da Brink Mobil,
além de palestrante, formadora e colaboradora de artigos sobre inovação
educacional.
Nenhum comentário:
Postar um comentário