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quinta-feira, 4 de junho de 2026

IA já chegou às salas de aula, mas uso sem estratégia pode limitar o aprendizado, alerta especialista

Em meio ao avanço das discussões sobre diretrizes nacionais, adoção da tecnologia nas escolas brasileiras ocorre de forma desigual e ainda sem planejamento pedagógico estruturado

 

O uso de inteligência artificial nas escolas brasileiras já é uma realidade, mas ainda avança mais rápido do que a definição de diretrizes claras para sua aplicação. O tema ganha ainda mais relevância no momento em que o Conselho Nacional de Educação avança na discussão de diretrizes nacionais para o uso da inteligência artificial no ensino, com propostas que reforçam o papel da tecnologia como ferramenta de apoio e não de substituição do professor. 

Esse debate também tem ganhado espaço em fóruns internacionais. Recentemente, a especialista Ana Karine Czelusniak Chiquim, coordenadora pedagógica da Brink Mobil, participou de eventos acadêmicos na Europa, como o ISKO 7, em Porto (Portugal), e a iConference 2026, na Edinburgh Napier University, em Edimburgo (Escócia), onde foram discutidos os impactos da inteligência artificial na educação, na organização do conhecimento e nas práticas pedagógicas. 

Nos últimos anos, a popularização de ferramentas de IA generativa acelerou a presença da tecnologia no ambiente escolar, muitas vezes antes da consolidação de políticas claras de uso. 

Para Ana Karine Czelusniak Chiquim, especialista com mais de duas décadas de experiência na área educacional, o principal desafio já não está mais no acesso à tecnologia, mas na forma como ela vem sendo incorporada no dia a dia das instituições de ensino. 

“A inteligência artificial já está dentro das escolas. O ponto de atenção é que, em muitos casos, essa adoção acontece de forma dispersa, sem integração e sem um direcionamento pedagógico claro. Isso pode gerar ganhos pontuais, mas dificilmente constrói um modelo consistente de aprendizagem”, afirma. 

Na prática, essa adoção ainda ocorre de forma desigual entre redes de ensino, com iniciativas isoladas e sem padronização, o que dificulta a construção de um modelo estruturado e escalável. 

“Existe um movimento de adoção que ainda não veio acompanhado de reflexão pedagógica. A escola corre o risco de utilizar a tecnologia sem clareza sobre qual problema ela resolve ou qual objetivo educacional pretende atingir”, explica. 

Outro ponto de atenção está na forma como essas ferramentas são utilizadas no cotidiano escolar. Segundo a especialista, o uso pouco criterioso, incluindo a definição de comandos e seleção de dados, pode comprometer os resultados e gerar interpretações equivocadas no processo de aprendizagem. 

Apesar dos desafios, Karine reforça que a inteligência artificial tem potencial para contribuir de forma relevante com o ensino, desde que aplicada com intencionalidade. 

“A IA permite personalizar o aprendizado, respeitando o ritmo de cada aluno, além de ampliar a acessibilidade e estimular novas formas de construção do conhecimento. Mas isso só acontece quando há planejamento e integração com a proposta pedagógica”, diz. 

Outro ponto de atenção, segundo a especialista, é a necessidade de tornar o uso da tecnologia viável para o professor, sem aumentar a complexidade da rotina escolar. 

“A IA precisa ser simples e acessível. O professor deve permanecer no centro do processo de ensino, enquanto a tecnologia atua como suporte. Quando bem aplicada, ela organiza caminhos e amplia possibilidades, não substitui o papel do educador”, completa. 

Para ela, o avanço das discussões sobre diretrizes nacionais representa um passo importante para equilibrar inovação e qualidade no ensino, garantindo que o uso da tecnologia esteja alinhado aos objetivos educacionais e às necessidades reais das escolas.
 

Ana Karine Czelusniak Chiquim - especialista em educação, pedagoga e psicopedagoga clínica, institucional e hospitalar. Pós-graduada em Administração Escolar, Supervisão e Orientação, é pesquisadora associada à Escola do Futuro (NACE) da Universidade de São Paulo (USP). Atua há mais de 23 anos na área educacional, com experiência em docência, gestão, inclusão e consultoria pedagógica no setor público e privado. É coordenadora pedagógica da Brink Mobil, além de palestrante, formadora e colaboradora de artigos sobre inovação educacional.
 

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