Resultados de
pesquisas feitas na Unesp abrem caminho para o tratamento de doenças como
osteoporose e diabetes, além de terapias baseadas em biomateriais
Resultados ajudam a entender por que alterações vasculares, comuns no envelhecimento,
no diabetes e na hipertensão, frequentemente coexistem com fragilidade óssea
(imagem: Monoar Rahman Rony/Pixabay)
Uma sequência de
pesquisas conduzidas na Universidade Estadual Paulista (Unesp) demonstrou como
as células dos vasos sanguíneos influenciam diretamente a formação e a
maturação dos ossos, redefinindo o papel de veias e artérias na biologia do
tecido ósseo.
Os achados indicam
que essa “interação” é mais ativa e específica do que se sabia até agora. Com
isso, abrem caminho para novas estratégias clínicas de regeneração óssea e para
o aprimoramento de terapias baseadas em biomateriais, com possíveis implicações
para doenças como osteoporose e fragilidade esquelética, especialmente entre
idosos.
Os trabalhos são
liderados por cientistas do Laboratório de Bioensaios e Dinâmica Celular (LaBio) do Instituto de Biociências de Botucatu
(IBB-Unesp).
Em um deles, publicado na revista Cell Biochemistry and
Function, os pesquisadores descobriram que as células endoteliais (que
revestem internamente os vasos sanguíneos) das veias liberam sinais que criam
um ambiente favorável para que células imaturas do osso se transformem em
osteoblastos ativos, mais “maduros” e responsáveis por mineralizar o tecido
ósseo. Vale explicar que os osteoblastos são as células responsáveis por formar
novos ossos e promover o crescimento do tecido já existente, enquanto os
osteoclastos dissolvem o tecido “velho e danificado” para que possa ser substituído.
Os sinais liberados
pelo endotélio venoso estimulam genes e processos ligados ao crescimento do
osso, à organização da matriz e à integração entre vasos e tecido ósseo.
Exercem, portanto, papel instrutivo no processo de formação e regeneração. Por
outro lado, as células endoteliais das artérias geram um efeito mais fraco,
sinalizando que a origem do vaso sanguíneo importa.
Sinal
que vem do músculo
Em outro
estudo, divulgado no periódico Biochimica et Biophysica
Acta (BBA) - Molecular Cell Research, o grupo revelou que células
musculares lisas dos vasos atuam como “instrutoras” do destino final das células
ósseas.
Por meio de
vesículas microscópicas, elas orientam osteoblastos e células-tronco
mesenquimais (capazes de se diferenciar em qualquer tipo celular) a avançarem
para um estágio mais “maduro”, o de osteócitos (responsáveis por manter e
regular o osso ao longo da vida). Esse efeito foi mais forte quando as células
vasculares não estavam sob estresse mecânico, sugerindo que o estado do vaso
influencia diretamente a saúde óssea.
A investigação do
comportamento das células sob estresse é resultado do aprofundamento de outra
pesquisa, publicada em 2024 pelo mesmo grupo na revista Experimental
Cell Research. À época, ficou demonstrado que as células musculares lisas
dos vasos sanguíneos são suficientes para induzir a transição de osteoblastos
para osteócitos.
“Embora a interação
entre endotélio e osso já estivesse descrita na literatura, especialmente a
partir de 2014, os novos estudos detalham diferenças funcionais entre endotélio
venoso e arterial e identificam o papel instrutivo de células musculares lisas
vasculares na maturação dos osteócitos a partir dos osteoblastos. Com o apoio
da FAPESP, o grupo propõe uma visão integrada da formação óssea, na qual vasos
sanguíneos deixam de ser apenas suporte estrutural e passam a atuar como
elementos-guia do tecido”, explica o professor Willian Fernando Zambuzzi, coordenador do LaBio e dos estudos.
E complementa: “Esses
resultados ajudam a desvendar por que alterações vasculares, comuns no
envelhecimento, no diabetes e na hipertensão, frequentemente coexistem com
fragilidade óssea. Se o vaso participa ativamente da instrução do tecido ósseo,
disfunções vasculares podem repercutir diretamente na qualidade do esqueleto e
na etiologia e progressão de doenças crônicas”.
Zambuzzi explica
que essa ligação com doenças endócrinas como o diabetes pode ocorrer porque,
durante a remodelação óssea, proteínas (como a osteocalcina) são liberadas na
circulação e exercem efeitos sistêmicos, inclusive sobre o metabolismo da
glicose no pâncreas.
“A partir desse
eixo principal morfogenético [que orienta o crescimento e o desenho
tridimensional do tecido], onde o vaso sanguíneo tem uma função protagonista
nos aspectos de diferenciação do osso, é possível compreender melhor a causa de
diversas patologias e trazer pistas para o desenvolvimento de novos biofármacos
e estratégias terapêuticas voltadas a doenças como diabetes”, diz Zambuzzi
à Agência FAPESP.
Como
se “constrói” o esqueleto
O equilíbrio entre
osteoblastos e osteoclastos tem papel central na manutenção e remodelação
óssea. Esse balanço permite crescimento, reparo de fraturas e adaptação a
esforços físicos.
A formação óssea,
também chamada osteogênese, começa ainda na fase embrionária – entre a sexta e
a sétima semana de desenvolvimento – e vai até cerca de 25 anos de idade.
Existem dois tipos de ossificação: 1) a intramembranosa, quando células-tronco
do tecido conjuntivo se transformam diretamente em osteoblastos, tornando a
estrutura rígida (ocorre principalmente no crânio); e 2) endocondral – quando
há primeiro a formação de um “molde” de cartilagem (tecido mais flexível) que,
aos poucos, é substituído por tecido ósseo (processo encontrado na maioria dos
ossos do corpo, como fêmur e braços).
Depois, ao longo da
vida do indivíduo, o osso se remodela continuamente para manter a homeostase
mineral e a integridade estrutural. Em todos esses processos, os vasos sanguíneos
funcionam como infraestrutura e via de transporte, levando oxigênio e
nutrientes e liberando substâncias que estimulam a diferenciação das células
ósseas, entre outros.
E foi trabalhando
com baixa concentração de oxigênio (hipóxia) que cientistas liderados por
Zambuzzi reuniram evidências de que é possível ter um material biomimético com
perspectivas de regenerar o tecido ósseo. Em artigo publicado no Journal
of Biomedical Materials Research, o grupo mostrou que o desenvolvimento de
fosfato de cálcio, uma molécula com estrutura semelhante ao mineral ósseo,
carregado com cobalto é capaz de estimular a diferenciação dos osteoblastos (leia
mais em: agencia.fapesp.br/50084).
O professor lembra
que essa linha de estudos começou a ser desenvolvida no LaBio com o apoio da
FAPESP por meio de um Auxílio à Pesquisa - Jovem
Pesquisador, tendo sido parte
dos resultados reunida e sistematizada na tese de doutorado de Célio Junior da Costa Fernandes, no IBB-Unesp, contribuindo de forma central para
a consolidação do eixo de investigação.
Além disso, estudo do
professor Ralf Adams, do Instituto Max Planck (Alemanha), publicado na Nature,
foi peça importante nesse processo. O trabalho mostrou que células endoteliais
têm capacidade de estimular a diferenciação de osteoblastos.
“Esses resultados
contribuem para ampliar a inserção internacional da ciência produzida em instituições
do interior paulista. É importante promover essa descentralização do
conhecimento e colocar alunos dessas regiões em contato com a excelência
científica”, diz Zambuzzi, destacando que a partir deste ano Botucatu será sede
do Instituto Nacional de Ciência e
Tecnologia em Biologia Óssea e Controle de Doenças Crônicas (INCT-BIOCRON). Com base na Unesp, o INCT terá foco na pesquisa
do papel funcional e endócrino do osso.
Além do Jovem
Pesquisador concedido a Zambuzzi, a FAPESP apoiou os trabalhos por meio de
outros cinco projetos (16/08888-9, 19/21807-6, 18/10856-3, 16/01139-0 e 17/18349-0).
Os artigos Venous
endothelial cells promote osteoblast differentiation more effectively than
arterial cells via TGF-β/BMP9 and notch pathway-related gene expression e Osteocyte
transition induced by quiescent vascular smooth muscle cells through paracrine
signaling is independent of shear stress podem ser lidos, respectivamente,
em https://analyticalsciencejournals.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/cbf.70160?utm_medium=article&utm_source=researchgate.net e www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0167488925001971.
Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/vasos-sanguineos-guiam-ativamente-a-formacao-e-a-maturacao-dos-ossos/58149
Nenhum comentário:
Postar um comentário