Falta de atividade
física e excessos na alimentação aumentam riscos de problemas como a artrose
O
Brasil tem hoje mais de 80 milhões de pessoas com sobrepeso ou obesidade,
segundo dados do Ministério da Saúde. Ao mesmo tempo, pesquisas do IBGE mostram
que mais da metade da população adulta não pratica nenhuma atividade física
regular. Individualmente, cada um desses fatores já representa um risco relevante
para a saúde. Combinados, formam um cenário preocupante para as articulações,
especialmente o quadril, que está entre as mais afetadas pelo desgaste
prematuro.
A
artrose de quadril, condição degenerativa que compromete a cartilagem
articular, não é uma consequência inevitável do envelhecimento. Em muitos
casos, este é o resultado de anos de sobrecarga desnecessária sobre uma
articulação que não foi projetada para suportar indefinidamente o impacto de um
estilo de vida sedentário e com excesso de peso.
Por
isso, o Dr. Fábio Elói, cirurgião de quadril pela Sociedade Brasileira de
Quadril (SBQ), especialista em ortopedia e traumatologia pela Sociedade
Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) e oncologista ortopedista pela
Associação Brasileira de Oncologia Ortopédica (ABOO), faz um alerta.
"A
articulação do quadril é uma das mais robustas do corpo humano, mas ela requer
atenção. Quando somamos peso extra à falta de musculatura de suporte causada
pelo sedentarismo, estamos acelerando um processo que poderia levar décadas em
apenas alguns anos. E o pior: em geral, só percebemos isso quando a dor já está
instalada."
O peso que o quadril carrega
Para
entender o impacto do excesso de peso sobre o quadril, é preciso considerar a
física da caminhada. A cada passo, a articulação do quadril suporta uma força
equivalente a até quatro vezes o peso corporal, dependendo do tipo de
movimento. Isso significa que uma pessoa com 10 quilos acima do peso ideal está
submetendo sua articulação a uma sobrecarga de até 50 quilos extras a cada
passada.
A
longo prazo, essa pressão constante acelera o desgaste da cartilagem, que é o
tecido que reveste as superfícies ósseas e funciona como amortecedor natural da
articulação. Uma vez desgastada, a cartilagem não se regenera. O resultado,
explica o Dr. Fábio, é a artrose, que traz consigo dor, rigidez, inflamação e,
nos casos mais avançados, a necessidade de substituição cirúrgica da
articulação por uma prótese.
"Cada
quilo a mais representa uma carga desproporcional sobre o quadril. Não é
exagero dizer que perder peso é uma das medidas mais eficazes para proteger a
articulação e, em muitos casos, adiar ou até evitar a cirurgia. O paciente que
perde peso antes de chegar ao estágio avançado da artrose muda completamente o
prognóstico."
O papel silencioso do sedentarismo
Se
o excesso de peso aumenta a sobrecarga mecânica sobre o quadril, o sedentarismo
compromete a estrutura que deveria protegê-lo. Os músculos ao redor da
articulação, glúteos, abdutores e flexores do quadril, funcionam como um
sistema de sustentação que distribui as forças e estabiliza o movimento. Quando
esses músculos estão fracos, a articulação trabalha sozinha para absorver
impactos que deveriam ser compartilhados com toda a cadeia muscular.
O
sedentarismo também contribui para o ganho de peso, criando um ciclo que se
retroalimenta: o peso extra aumenta a dor, a dor reduz a mobilidade, a
mobilidade reduzida leva ao sedentarismo e o sedentarismo piora a fraqueza
muscular, favorecendo o acúmulo de gordura. Quebrar esse ciclo exige
intervenção e quanto antes, melhor.
"O
músculo é o melhor amigo da articulação. Quando o paciente é sedentário, esses
músculos enfraquecem, a articulação fica desprotegida e o desgaste acelera. A
boa notícia é que a musculatura responde bem ao treinamento, mesmo em idades
mais avançadas. Nunca é tarde demais para começar a se movimentar", sugere
o Dr. Fábio Elói.
Sinais de alerta
A artrose de quadril raramente se instala de forma abrupta. O processo é gradual e os primeiros sinais costumam ser confundidos com cansaço ou dores passageiras. Ficar atento às manifestações pode fazer a diferença entre um tratamento conservador e uma cirurgia.
•Dor na virilha ou na lateral do quadril,
especialmente após longos períodos caminhando ou em pé
•Rigidez matinal, com a sensação de que a
articulação "enferrujou" nos primeiros minutos após acordar
•Dificuldade para realizar movimentos
rotineiros, como amarrar o tênis, entrar no carro ou subir escadas
•Dor que piora progressivamente, mesmo em
atividades que antes eram realizadas sem desconforto
•Sensação de instabilidade ou de que o quadril "trava" em certos movimentos
Esses
sintomas não devem ser ignorados, especialmente por pessoas com sobrepeso,
histórico familiar de artrose ou acima dos 50 anos.
"A
maioria dos pacientes no consultório revela que achava que era uma dor
passageira, que ia melhorar, mas isso não aconteceu. Ao contrário, a dor
piorou. Neste momento, já estão com a articulação bastante comprometida. O
diagnóstico precoce mudaria completamente as opções de tratamento
disponíveis", explica o especialista.
Prevenção e tratamento
Mudanças de comportamento têm impacto real na saúde das articulações e nunca é tarde para começar. Entre as principais recomendações preventivas e terapêuticas estão:
•Controle do peso corporal: mesmo uma
redução modesta de 5% a 10% do peso é capaz de reduzir significativamente a
sobrecarga sobre o quadril e aliviar sintomas em pacientes com artrose leve a moderada
•Atividade física de baixo impacto:
caminhada em terrenos planos, natação, hidroginástica e ciclismo são excelentes
opções para fortalecer a musculatura sem agredir a articulação
•Fortalecimento muscular: exercícios
direcionados para glúteos, abdutores e core aumentam a estabilidade articular e
reduzem o impacto sobre a cartilagem
•Fisioterapia: o acompanhamento
especializado ajuda a corrigir padrões de movimento inadequados que
sobrecarregam a articulação e a manter a amplitude de movimento
•Acompanhamento médico: nos casos em que os sintomas já estão presentes, medicação, infiltrações ou outros recursos podem controlar a dor e a inflamação enquanto as mudanças de estilo de vida são implementadas.
Quando
o desgaste já está avançado e os tratamentos conservadores não são mais
suficientes, a artroplastia total de quadril, que é a cirurgia de substituição
da articulação por uma prótese, é uma opção segura e eficaz, com altos índices
de satisfação e recuperação funcional.
"A
cirurgia, quando necessária, não deve ser vista como um fracasso. É uma solução
real para pacientes que chegaram a um estágio avançado da doença. Em muitos
casos, chegamos a esse ponto por um longo histórico de hábitos que poderiam ter
sido diferentes. A prevenção começa com escolhas do dia a dia", orienta o
Dr. Fábio.
O momento certo para buscar
Seja
para quem ainda não sente dor, mas reconhece fatores de risco, como sobrepeso,
sedentarismo, histórico familiar, ou para quem já convive com desconforto no
quadril, a orientação é a mesma: não espere.
A
artrose é uma condição progressiva e não melhora espontaneamente. Com o
diagnóstico correto e o tratamento adequado, é possível desacelerar
significativamente sua evolução e manter a qualidade de vida.
"Qualidade
de vida não é luxo, é direito. Proteger as articulações começa com decisões
simples: mover o corpo, controlar o peso e não ignorar os sinais que ele dá.
Uma consulta pode mudar o rumo da sua saúde articular por muitos anos."
Dr. Fábio Elói - cirurgião de quadril pela Sociedade Brasileira
de Quadril (SBQ), especialista em ortopedia e traumatologia pela Sociedade
Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) e oncologista ortopedista pela
Associação Brasileira de Oncologia Ortopédica (ABOO).
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