Pesquisar no Blog

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Mães atípicas aprendem a enxergar o desenvolvimento dos filhos nos detalhes do cotidian

Canva

Entre terapias, reorganização familiar e pequenas evoluções, quatro mães relatam como o autismo transforma a rotina e a forma de compreender o desenvolvimento infantil 

 

As histórias de Kelly, Ana, Claudia e Joyce, todas mães de crianças diagnosticadas com TEA (Transtorno do Espectro Autista), são diferentes entre si, mas se encontram em muitos pontos: na insegurança diante dos primeiros sinais, na rotina reorganizada pelas terapias e na descoberta de que pequenas conquistas podem transformar completamente a forma de enxergar o desenvolvimento infantil.

Entre consultas, adaptações e aprendizados diários, as vivências destas quatro mães ajudam a construir um retrato da maternidade atípica longe da romantização, mas marcado por vínculo, dúvidas, persistência e uma nova forma de compreender o cotidiano.

Antes mesmo do diagnóstico, muitas delas já percebiam que havia algo diferente no desenvolvimento dos filhos. Foi assim com a dona de casa Ana Cláudia de Oliveira Zanardo Gonçalves, 47 anos, mãe do Mateus, 13. Ainda bebê, ele era extremamente calmo, “sempre no mundo dele”, como ela descreve. Brincava alinhando objetos por cores e tamanhos, demonstrava interesse intenso por trens e peças de montar e chegou a falar algumas palavras antes de parar completamente de se comunicar verbalmente. “Achamos estranho e procuramos uma fonoaudióloga. Foi aí que começamos a entender que havia atrasos na fala, na atenção e questões sensoriais”, lembra.

A secretária executiva Kelly Faveri Tarlá, 48 anos, começou a perceber ainda nos primeiros anos de vida do filho Caio, 14, que algumas etapas do desenvolvimento aconteciam de forma diferente do esperado para a idade. O atraso na fala era o sinal que mais chamava atenção, mas também havia dificuldade para expressar sentimentos, relatar situações do cotidiano e interagir socialmente da mesma maneira que outras crianças da mesma idade. Sem conhecer muito sobre o TEA naquele momento, ela acreditava que se tratava apenas de um atraso no desenvolvimento infantil. O diagnóstico veio aos quatro anos. “Senti alívio por finalmente compreender o que estava acontecendo, mas também muito medo do futuro”, conta. As incertezas sobre autonomia, socialização e qualidade de vida passaram a fazer parte da rotina da família.

Em muitos casos, a maternidade atípica começa justamente nesse território de incertezas. Há o impacto emocional do diagnóstico, mas também uma mudança profunda na dinâmica familiar. Rotinas precisam ser reorganizadas em torno de terapias, escola, estímulos e estratégias para reduzir crises e tornar os ambientes mais previsíveis.

Para a autônoma Claudia Fernanda Martins Porphirio da Silva, 40 anos, a maternidade atípica também trouxe mudanças profundas na vida profissional e familiar. Depois de mais de 12 anos no mesmo emprego, ela decidiu deixar o trabalho para conseguir acompanhar a filha Valentina, 5, na rotina intensa de consultas, exames e terapias. “Os desafios começaram quando percebemos que nossa filha precisava de um cuidado diferente. Existe muito medo sobre o futuro, sobre autonomia e sobre como a sociedade vai acolhê-la”, relata.

A contadora Joyce Caroline Romero Jovenato Mendes, 40 anos, descreve a maternidade do filho João Eduardo, 8, como uma ruptura com tudo o que imaginava saber sobre criar uma criança. O parto prematuro, os dias na UTI neonatal, a necessidade de rotinas rígidas e as dificuldades de socialização transformaram completamente a dinâmica da família. Rotinas precisaram ser reorganizadas para evitar crises, lidar com frustrações e tornar os ambientes mais previsíveis para o filho. “Toda rotina ficou mais densa. Vieram dificuldades de convivência social, medo de aceitação e julgamentos”, conta.

 

Pequenas conquistas que mudam tudo

Com o tempo, as famílias passam a compreender o desenvolvimento de outra maneira. Pequenas conquistas ganham grandes proporções dentro de casa.

Ana se emociona ao lembrar quando Mateus olhou nos olhos dela para pedir água pela primeira vez. “Foi uma alegria enorme. Depois vieram outras coisas que parecem simples, mas que para eles são muito difíceis: apontar para o que queria, ir sozinho ao banheiro, conseguir falar novas palavras”, relata.

Para Claudia, situações consideradas simples para muitas famílias ganharam um peso completamente diferente depois do diagnóstico. Uma ida ao supermercado sem crise, conseguir permanecer em um espaço kids ou interagir com outras crianças passaram a representar grandes vitórias dentro de casa. “Cada avanço dela é celebrado com muita emoção, porque sabemos o quanto existe de esforço e superação por trás de cada conquista”, afirma.

“Cada habilidade aprendida torna-se base para outras a serem alcançadas”, explica a fonoaudióloga Michela Matos, do Gaiadi - Grupo de Avaliação e Intervenção dos Atrasos do Desenvolvimento Infantil. Segundo ela, o papel dos profissionais também é ajudar as famílias a perceber e valorizar essas evoluções. “As mães precisam sentir que podem, e devem, comemorar pequenas conquistas diárias. Quando os esforços da criança e da família são validados, isso mantém todos motivados a seguir tentando”, completa.

 

A rede de apoio que sustenta o processo

A maternidade atípica também exige um nível constante de adaptação emocional. As mães relatam sobrecarga, necessidade de antecipar situações e preocupação permanente em evitar crises e sofrimento para os filhos.

Joyce conta que precisou aprender a lidar com momentos intensos de desregulação emocional e também com o julgamento das pessoas ao redor. “Eu decidi que a inclusão começaria por mim e que nada faria meu filho deixar de viver tudo aquilo que sonhei para ele”, afirma. “O mundo lá fora não tem muita empatia, mas eu tenho toda calma e amor do mundo para esperar o tempo dele”, completa.

Claudia afirma que um dos maiores desafios ainda é enfrentar o preconceito e a falta de compreensão das pessoas. “Nem sempre as dificuldades da criança são visíveis. Muitas vezes as famílias são julgadas injustamente”, diz. Para ela, é importante falar sobre a realidade sem transformar o autismo em um discurso idealizado. “Não é fácil e não podemos romantizar o autismo. Existem dias difíceis, mas aprendemos a valorizar cada detalhe e cada avanço”, comenta.

Apesar do desgaste e das dificuldades, todas compartilham uma percepção semelhante: a maternidade atípica transformou profundamente a forma como enxergam os filhos, o desenvolvimento infantil e a própria vida.

No fim, talvez seja justamente isso que une essas histórias. O desenvolvimento deixa de ser medido apenas por grandes marcos e passa a ser percebido nos detalhes do cotidiano: um olhar, uma palavra, um pedido de ajuda, um passeio tranquilo ou um abraço espontâneo. Pequenos gestos que, para essas mães, carregam o tamanho de uma enorme conquista.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Posts mais acessados