![]() |
| Canva |
Entre terapias,
reorganização familiar e pequenas evoluções, quatro mães relatam como o autismo
transforma a rotina e a forma de compreender o desenvolvimento infantil
As histórias de Kelly, Ana, Claudia e Joyce, todas
mães de crianças diagnosticadas com TEA (Transtorno do Espectro Autista), são
diferentes entre si, mas se encontram em muitos pontos: na insegurança diante
dos primeiros sinais, na rotina reorganizada pelas terapias e na descoberta de
que pequenas conquistas podem transformar completamente a forma de enxergar o
desenvolvimento infantil.
Entre consultas, adaptações e aprendizados diários,
as vivências destas quatro mães ajudam a construir um retrato da maternidade
atípica longe da romantização, mas marcado por vínculo, dúvidas, persistência e
uma nova forma de compreender o cotidiano.
Antes mesmo do diagnóstico, muitas delas já
percebiam que havia algo diferente no desenvolvimento dos filhos. Foi assim com
a dona de casa Ana Cláudia de Oliveira Zanardo Gonçalves, 47 anos, mãe do
Mateus, 13. Ainda bebê, ele era extremamente calmo, “sempre no mundo dele”,
como ela descreve. Brincava alinhando objetos por cores e tamanhos, demonstrava
interesse intenso por trens e peças de montar e chegou a falar algumas palavras
antes de parar completamente de se comunicar verbalmente. “Achamos estranho e
procuramos uma fonoaudióloga. Foi aí que começamos a entender que havia atrasos
na fala, na atenção e questões sensoriais”, lembra.
A secretária executiva Kelly Faveri Tarlá, 48 anos,
começou a perceber ainda nos primeiros anos de vida do filho Caio, 14, que
algumas etapas do desenvolvimento aconteciam de forma diferente do esperado
para a idade. O atraso na fala era o sinal que mais chamava atenção, mas também
havia dificuldade para expressar sentimentos, relatar situações do cotidiano e
interagir socialmente da mesma maneira que outras crianças da mesma idade. Sem
conhecer muito sobre o TEA naquele momento, ela acreditava que se tratava
apenas de um atraso no desenvolvimento infantil. O diagnóstico veio aos quatro
anos. “Senti alívio por finalmente compreender o que estava acontecendo, mas
também muito medo do futuro”, conta. As incertezas sobre autonomia,
socialização e qualidade de vida passaram a fazer parte da rotina da família.
Em muitos casos, a maternidade atípica começa
justamente nesse território de incertezas. Há o impacto emocional do
diagnóstico, mas também uma mudança profunda na dinâmica familiar. Rotinas
precisam ser reorganizadas em torno de terapias, escola, estímulos e
estratégias para reduzir crises e tornar os ambientes mais previsíveis.
Para a autônoma Claudia Fernanda Martins Porphirio
da Silva, 40 anos, a maternidade atípica também trouxe mudanças profundas na
vida profissional e familiar. Depois de mais de 12 anos no mesmo emprego, ela
decidiu deixar o trabalho para conseguir acompanhar a filha Valentina, 5, na
rotina intensa de consultas, exames e terapias. “Os desafios começaram quando
percebemos que nossa filha precisava de um cuidado diferente. Existe muito medo
sobre o futuro, sobre autonomia e sobre como a sociedade vai acolhê-la”,
relata.
A contadora Joyce Caroline Romero Jovenato Mendes,
40 anos, descreve a maternidade do filho João Eduardo, 8, como uma ruptura com
tudo o que imaginava saber sobre criar uma criança. O parto prematuro, os dias
na UTI neonatal, a necessidade de rotinas rígidas e as dificuldades de
socialização transformaram completamente a dinâmica da família. Rotinas
precisaram ser reorganizadas para evitar crises, lidar com frustrações e tornar
os ambientes mais previsíveis para o filho. “Toda rotina ficou mais densa.
Vieram dificuldades de convivência social, medo de aceitação e julgamentos”,
conta.
Pequenas conquistas que mudam
tudo
Com o tempo, as famílias passam a compreender o
desenvolvimento de outra maneira. Pequenas conquistas ganham grandes proporções
dentro de casa.
Ana se emociona ao lembrar quando Mateus olhou nos
olhos dela para pedir água pela primeira vez. “Foi uma alegria enorme. Depois
vieram outras coisas que parecem simples, mas que para eles são muito difíceis:
apontar para o que queria, ir sozinho ao banheiro, conseguir falar novas
palavras”, relata.
Para Claudia, situações consideradas simples para
muitas famílias ganharam um peso completamente diferente depois do diagnóstico.
Uma ida ao supermercado sem crise, conseguir permanecer em um espaço kids ou
interagir com outras crianças passaram a representar grandes vitórias dentro de
casa. “Cada avanço dela é celebrado com muita emoção, porque sabemos o quanto
existe de esforço e superação por trás de cada conquista”, afirma.
“Cada habilidade aprendida torna-se base para
outras a serem alcançadas”, explica a fonoaudióloga Michela Matos, do Gaiadi -
Grupo de Avaliação e Intervenção dos Atrasos do Desenvolvimento Infantil.
Segundo ela, o papel dos profissionais também é ajudar as famílias a perceber e
valorizar essas evoluções. “As mães precisam sentir que podem, e devem,
comemorar pequenas conquistas diárias. Quando os esforços da criança e da
família são validados, isso mantém todos motivados a seguir tentando”,
completa.
A rede de apoio que sustenta o
processo
A maternidade atípica também exige um nível
constante de adaptação emocional. As mães relatam sobrecarga, necessidade de
antecipar situações e preocupação permanente em evitar crises e sofrimento para
os filhos.
Joyce conta que precisou aprender a lidar com
momentos intensos de desregulação emocional e também com o julgamento das
pessoas ao redor. “Eu decidi que a inclusão começaria por mim e que nada faria
meu filho deixar de viver tudo aquilo que sonhei para ele”, afirma. “O mundo lá
fora não tem muita empatia, mas eu tenho toda calma e amor do mundo para
esperar o tempo dele”, completa.
Claudia afirma que um dos maiores desafios ainda é
enfrentar o preconceito e a falta de compreensão das pessoas. “Nem sempre as
dificuldades da criança são visíveis. Muitas vezes as famílias são julgadas
injustamente”, diz. Para ela, é importante falar sobre a realidade sem
transformar o autismo em um discurso idealizado. “Não é fácil e não podemos
romantizar o autismo. Existem dias difíceis, mas aprendemos a valorizar cada
detalhe e cada avanço”, comenta.
Apesar do desgaste e das dificuldades, todas
compartilham uma percepção semelhante: a maternidade atípica transformou
profundamente a forma como enxergam os filhos, o desenvolvimento infantil e a
própria vida.
No fim, talvez seja justamente isso que une essas
histórias. O desenvolvimento deixa de ser medido apenas por grandes marcos e passa
a ser percebido nos detalhes do cotidiano: um olhar, uma palavra, um pedido de
ajuda, um passeio tranquilo ou um abraço espontâneo. Pequenos gestos que, para
essas mães, carregam o tamanho de uma enorme conquista.

Nenhum comentário:
Postar um comentário