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quinta-feira, 21 de maio de 2026

Aplicação de vasinhos: morte em clínica reacende alerta sobre como escolher onde tratar a circulação

Especialista explica por que o procedimento é considerado seguro quando bem indicado, mas exige avaliação vascular, profissional habilitado e investigação da causa antes de tratar apenas o que aparece na pele

 

A morte de uma mulher de 34 anos durante um procedimento para tratamento de “vasinhos” em uma clínica de Americana, no interior de São Paulo, reacendeu uma discussão importante sobre segurança, informação e escolha do profissional na hora de tratar varizes e microvasos. Segundo informações divulgadas pela imprensa, o caso ocorreu no dia 6 de maio de 2026 e é investigado pela Polícia Civil como morte suspeita. Até o momento, não há conclusão pública sobre a causa da morte ou eventual responsabilidade profissional. 

O episódio é trágico, mas especialistas alertam para um cuidado necessário: a fatalidade não deve transformar a escleroterapia ou os tratamentos para vasinhos em procedimentos vistos como perigosos por natureza. Quando bem indicados, realizados por cirurgião vascular ou angiologista especialista na área de atuação do tratamento de varizes e microvasos, habilitado e dentro de uma estratégia vascular adequada, esses tratamentos são amplamente utilizados e considerados seguros.

O problema está em outro ponto: tratar vasinhos como se fossem apenas um detalhe estético, sem investigar a circulação como um todo. 

“Os vasinhos muitas vezes não causam dor, peso ou inchaço. Por isso, muitas pessoas acreditam que o problema é exclusivamente estético e procuram soluções rápidas, inclusive em locais que não fazem uma avaliação vascular completa. Esse olhar simplista pode gerar frustração, resultados ruins e, em situações extremas, complicações mais sérias”, explica a cirurgiã vascular Dra. Dafne Leiderman, médica formada pela USP, com doutorado pelo Hospital Israelita Albert Einstein e diretora da SBACV regional São Paulo.

 

Vasinhos podem não doer, mas isso não significa que sejam somente estética

Os chamados “vasinhos” ou microvasos são frequentemente percebidos como um incômodo visual, muitas mulheres deixam de usar shorts por vergonha das pernas e isso afeta a autoestima e até a saúde mental e emocional de algumas delas.  

 Em muitos casos, eles realmente não provocam sintomas importantes. Não doem, não incham, não limitam a rotina. E é justamente aí que mora o risco da banalização. Quando algo não dói, o paciente tende a acreditar que não exige cuidado médico. O tratamento passa a ser escolhido por preço, facilidade, promessa de resultado rápido ou proximidade e não por critério técnico. 

Mas os microvasos podem fazer parte de uma doença venosa mais ampla. Em mais de 80% dos casos existe uma microvarize nutridora alimentando aqueles vasos visíveis. Em outros casos, há varizes maiores e em até 20% há comprometimento da veia safena, que precisa ser tratado antes de qualquer aplicação superficial. 

“Se existe uma veia doente alimentando aqueles vasinhos, tratar apenas a superfície não vai resolver. O paciente faz sessões, investe tempo e dinheiro, mas o resultado não sustenta. A causa continua ali”, explica a Dra. Dafne.

 

O risco de tratar aparência sem investigar a causa

Um erro comum é olhar para os vasinhos como algo isolado: apareceu, aplica; voltou, aplica de novo. Essa lógica pode transformar um problema vascular em uma sequência de procedimentos frustrantes. 

Quando a circulação não é avaliada corretamente, o paciente pode ter:

  • Resultado abaixo do esperado
  • Retorno rápido dos vasinhos
  • Surgimento de novos vasos
  • Manchas na pele
  • Piora do aspecto estético
  • Sensação de que “o tratamento não funciona”
  • Não ser diagnosticado sobre um problema maior da circulação que não visível a olho nu.  

Em alguns casos, a tentativa de tratar apenas a parte visível pode inclusive piorar o resultado estético, especialmente se houver veias nutridoras ou varizes maiores não tratadas. 

“Antes de apagar o que aparece na pele, é preciso entender o que está alimentando aquele problema. Esse é o papel da consulta vascular completa com a realização do exame de ultrassonografia com doppelr”, reforça a especialista.

 

O procedimento é seguro, mas não deve ser banalizado

A escleroterapia e os tratamentos modernos para vasinhos são procedimentos comuns dentro da cirurgia vascular. A questão não é criar medo em torno do tratamento, mas reforçar que segurança depende de indicação correta, técnica adequada e acompanhamento especializado.

Assim como qualquer procedimento médico, existem riscos, ainda que eventos graves sejam raros, como a anafilaxia. Por isso, o paciente precisa saber onde está sendo atendido, por quem, com qual estrutura e dentro de qual plano terapêutico. 

“Não é para as pessoas terem medo de tratar vasinhos. É para entenderem que vasinhos também fazem parte da saúde vascular e precisam ser avaliados com seriedade”, afirma a Dra. Dafne.

 

Checklist: o que observar antes de escolher onde tratar vasinhos e varizes

Para quem deseja tratar vasinhos, varizes ou sintomas como dor e inchaço nas pernas, alguns critérios ajudam a fazer uma escolha mais segura e aumentar as chances de bons resultados.

 

1. Verifique se o profissional é médico e especialista em cirurgia vascular

O primeiro passo é confirmar a formação do profissional. No Brasil, o CRM identifica o médico, enquanto o RQE é o registro que comprova a qualificação como especialista junto ao Conselho Regional de Medicina. O Conselho Federal de Medicina disponibiliza uma área pública de busca por médicos, e o RQE é o registro usado para anunciar formalmente uma especialidade médica. 

Na prática, antes de realizar o procedimento, o paciente pode pesquisar:

  • CRM do profissional
  • RQE da especialidade
  • Formação médica
  • Atuação em cirurgia vascular
  • Tempo de experiência na área
  • Resultados de tratamentos anteriores
  • Depoimentos e avaliações sobre o trabalho e experiencia de outras pessoas com aquele médico 

Isso não é excesso de zelo. É uma forma básica de segurança.

 

2. Avalie o tempo de atuação e a experiência com esse tipo de tratamento

Nem todo profissional que realiza procedimentos estéticos tem formação para investigar doença venosa. O tratamento de vasinhos e varizes exige conhecimento da circulação, da anatomia venosa e das possíveis causas por trás do problema visível. Os biomédicos e enfermeiros que trabalham em clínicas de estética não sabem investigar a circulação ou fazer exames. Inclusive a ANVISA proibiu a escleroterapia por não médicos. 

Tempo de atuação, experiência com casos semelhantes, resultados consistentes e depoimentos de pacientes podem ajudar o paciente a entender melhor o nível de familiaridade daquele profissional com o tratamento.

 

3. Desconfie de avaliações rápidas demais

Vasinhos não devem ser avaliados apenas com uma olhada na perna. A consulta precisa investigar sintomas, histórico familiar, presença de varizes, episódios de dor, inchaço, queimação, manchas, gestações, rotina de trabalho e fatores de risco. 

Um atendimento sério não se resume a perguntar “quantas sessões você quer fazer”. Precisa ser examinado clinicamente com detalhes, realizada o ultrassom Doppler e de preferência o exame por realidade aumentada, além do registro fotográfico do pré e pós-tratamento 

 

4. Pergunte se será feito ultrassom Doppler

O ultrassom Doppler venoso é um exame fundamental para avaliar o funcionamento das veias, identificar refluxos, investigar a veia safena e entender se existem varizes mais profundas ou nutridoras.

Em muitos casos, o Doppler muda completamente o plano de tratamento. As diretrizes nacionais e internacionais contraindicam realizar  aplicação de vasinhos sem ter feito ultrassom doppler antes . 

“Se há varizes grossas ou safena doente, não adianta começar pela aplicação superficial dos vasinhos. Primeiro é preciso tratar a causa. Depois, os vasos finos entram como parte do refinamento do resultado”, orienta a Dra. Dafne.

 

5. Entenda se o plano trata a causa ou só a aparência

Um bom tratamento vascular não deve ser vendido como “apagar vasinhos”. Ele deve ser construído como um plano.

Esse plano pode envolver, dependendo do caso:

  • Tratamento da safena doente
  • Tratamento de varizes mais grossas
  • Tratamento de microvarizes nutridoras
  • Aplicação em vasinhos
  • Laser vascular
  • Orientações de rotina e acompanhamento 

Quando a causa é ignorada, o resultado tende a ser menos duradouro.

 

6. Observe a estrutura da clínica

A clínica deve oferecer segurança, higiene, estrutura adequada e acesso ao médico em caso de dúvidas ou intercorrências. O paciente também deve entender claramente como agir se tiver dor intensa, reação inesperada, sangramento, manchas importantes ou qualquer sintoma fora do padrão após o procedimento. 

“Ter liberdade para contactar a equipe em caso de emergência é parte da segurança. O paciente precisa saber que não está sozinho depois que sai da clínica”, destaca a especialista.

 

7. Pergunte sobre tecnologia e associação de técnicas

O tratamento moderno de vasinhos evoluiu. Em muitos casos, a associação de técnicas, como laser vascular e escleroterapia, pode melhorar o resultado, reduzir frustrações e permitir uma abordagem mais completa. 

Isso não significa que todo paciente precisa de todos os recursos. Significa que a escolha da técnica deve ser individualizada.

A tecnologia ajuda, mas não substitui diagnóstico correto.

 

8. Cuidado com promessas milagrosas

Promessas como “resultado definitivo”, “sem risco”, “pernas perfeitas em uma sessão” ou “tratamento igual para todo mundo” devem acender alerta.

A resposta ao tratamento varia conforme genética, tipo de pele, extensão dos vasos, presença de veias nutridoras, alterações venosas mais profundas e adesão ao plano proposto.

Um bom profissional explica limites, riscos, etapas e expectativas reais.

 

9. Prefira planos que favoreçam adesão

Tratamentos longos demais, com muitas visitas, podem reduzir adesão. Quando possível, planos bem estruturados, com menos idas à clínica e estratégia clara, costumam ser mais viáveis para o paciente.

Mas poucas visitas não devem significar superficialidade. O ideal é unir praticidade com diagnóstico completo.

 

10. Confiança também importa

Além da formação técnica, o paciente precisa sentir confiança no comprometimento do profissional. Isso inclui clareza nas explicações, escuta durante a consulta, transparência sobre riscos e honestidade sobre o que o tratamento pode ou não entregar.

Resultado bom não vem de promessa. Vem de diagnóstico correto, planejamento e acompanhamento.

 

Segurança e resultado caminham juntos

O caso ocorrido em Americana ainda precisa ser investigado pelas autoridades competentes. Por isso, não cabe apontar causa ou culpados antes da conclusão oficial. Mas a repercussão do episódio abre espaço para uma orientação importante: o tratamento de vasinhos não deve ser tratado como procedimento banal, feito sem avaliação vascular ou escolhido apenas pelo preço. 

A mesma consulta que protege a segurança do paciente também melhora o resultado estético. Afinal, quando o especialista investiga a causa, identifica veias nutridoras, avalia safena, escolhe a técnica adequada e acompanha o pós-procedimento, o tratamento deixa de ser apenas uma tentativa de “limpar a pele” e passa a ser cuidado vascular de verdade. 

“O paciente não precisa ter medo de tratar. Precisa escolher bem. Vasinhos podem parecer simples, mas a circulação precisa ser avaliada por quem entende da doença venosa como um todo”, conclui a Dra. Dafne Leiderman.

 

Dra. Dafne Leiderman - médica e cirurgiã vascular formada pela USP, com doutorado pelo Hospital Israelita Albert Einstein. Diretora da SBACV regional São Paulo, é referência em São Paulo no tratamento moderno de varizes sem necessidade de internação hospitalar, tratamento a laser de microvasos e manejo clínico do lipedema sem cirurgia.


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