Especialista explica por que o procedimento é considerado seguro quando bem indicado, mas exige avaliação vascular, profissional habilitado e investigação da causa antes de tratar apenas o que aparece na pele
A morte de uma mulher de 34 anos durante um procedimento para tratamento de “vasinhos” em uma clínica de Americana, no interior de São Paulo, reacendeu uma discussão importante sobre segurança, informação e escolha do profissional na hora de tratar varizes e microvasos. Segundo informações divulgadas pela imprensa, o caso ocorreu no dia 6 de maio de 2026 e é investigado pela Polícia Civil como morte suspeita. Até o momento, não há conclusão pública sobre a causa da morte ou eventual responsabilidade profissional.
O episódio é trágico, mas especialistas alertam para um
cuidado necessário: a fatalidade não deve transformar a escleroterapia ou os
tratamentos para vasinhos em procedimentos vistos como perigosos por natureza.
Quando bem indicados, realizados por cirurgião
vascular ou angiologista especialista na área de atuação do tratamento de
varizes e microvasos, habilitado e dentro de uma estratégia
vascular adequada, esses tratamentos são amplamente utilizados e considerados
seguros.
O problema está em outro ponto: tratar vasinhos como se fossem apenas um detalhe estético, sem investigar a circulação como um todo.
“Os vasinhos muitas vezes não causam dor, peso ou inchaço.
Por isso, muitas pessoas acreditam que o problema é exclusivamente estético e
procuram soluções rápidas, inclusive em locais que não fazem uma avaliação
vascular completa. Esse olhar simplista pode gerar frustração, resultados ruins
e, em situações extremas, complicações mais sérias”, explica a cirurgiã
vascular Dra. Dafne Leiderman, médica formada pela USP, com doutorado pelo
Hospital Israelita Albert Einstein e diretora da SBACV regional São Paulo.
Vasinhos podem não
doer, mas isso não significa que sejam somente estética
Os chamados “vasinhos” ou microvasos são frequentemente percebidos como um incômodo visual, muitas mulheres deixam de usar shorts por vergonha das pernas e isso afeta a autoestima e até a saúde mental e emocional de algumas delas.
Em muitos casos, eles realmente não provocam sintomas importantes. Não doem, não incham, não limitam a rotina. E é justamente aí que mora o risco da banalização. Quando algo não dói, o paciente tende a acreditar que não exige cuidado médico. O tratamento passa a ser escolhido por preço, facilidade, promessa de resultado rápido ou proximidade e não por critério técnico.
Mas os microvasos podem fazer parte de uma doença venosa mais ampla. Em mais de 80% dos casos existe uma microvarize nutridora alimentando aqueles vasos visíveis. Em outros casos, há varizes maiores e em até 20% há comprometimento da veia safena, que precisa ser tratado antes de qualquer aplicação superficial.
“Se existe uma veia doente alimentando aqueles vasinhos,
tratar apenas a superfície não vai resolver. O paciente faz sessões, investe
tempo e dinheiro, mas o resultado não sustenta. A causa continua ali”, explica
a Dra. Dafne.
O risco de tratar aparência sem investigar a causa
Um erro comum é olhar para os vasinhos como algo isolado: apareceu, aplica; voltou, aplica de novo. Essa lógica pode transformar um problema vascular em uma sequência de procedimentos frustrantes.
Quando a circulação não é avaliada corretamente, o paciente
pode ter:
- Resultado
abaixo do esperado
- Retorno
rápido dos vasinhos
- Surgimento
de novos vasos
- Manchas
na pele
- Piora
do aspecto estético
- Sensação
de que “o tratamento não funciona”
- Não ser diagnosticado sobre um problema maior da circulação que não visível a olho nu.
Em alguns casos, a tentativa de tratar apenas a parte visível pode inclusive piorar o resultado estético, especialmente se houver veias nutridoras ou varizes maiores não tratadas.
“Antes de apagar o que aparece na pele, é preciso entender o
que está alimentando aquele problema. Esse é o papel da consulta vascular
completa com a realização do exame de ultrassonografia com doppelr”, reforça a
especialista.
O procedimento é
seguro, mas não deve ser banalizado
A escleroterapia e os tratamentos modernos para vasinhos são
procedimentos comuns dentro da cirurgia vascular. A questão não é criar medo em
torno do tratamento, mas reforçar que segurança depende de indicação correta,
técnica adequada e acompanhamento especializado.
Assim como qualquer procedimento médico, existem riscos, ainda que eventos graves sejam raros, como a anafilaxia. Por isso, o paciente precisa saber onde está sendo atendido, por quem, com qual estrutura e dentro de qual plano terapêutico.
“Não é para as pessoas terem medo de tratar vasinhos. É para
entenderem que vasinhos também fazem parte da saúde vascular e precisam ser
avaliados com seriedade”, afirma a Dra. Dafne.
Checklist: o que
observar antes de escolher onde tratar vasinhos e varizes
Para quem deseja tratar vasinhos, varizes ou sintomas como
dor e inchaço nas pernas, alguns critérios ajudam a fazer uma escolha mais
segura e aumentar as chances de bons resultados.
1. Verifique se o
profissional é médico e especialista em cirurgia vascular
O primeiro passo é confirmar a formação do profissional. No Brasil, o CRM identifica o médico, enquanto o RQE é o registro que comprova a qualificação como especialista junto ao Conselho Regional de Medicina. O Conselho Federal de Medicina disponibiliza uma área pública de busca por médicos, e o RQE é o registro usado para anunciar formalmente uma especialidade médica.
Na prática, antes de realizar o procedimento, o paciente
pode pesquisar:
- CRM
do profissional
- RQE
da especialidade
- Formação
médica
- Atuação
em cirurgia vascular
- Tempo
de experiência na área
- Resultados
de tratamentos anteriores
- Depoimentos e avaliações sobre o trabalho e experiencia de outras pessoas com aquele médico
Isso não é excesso de zelo. É uma forma básica de segurança.
2. Avalie o tempo de
atuação e a experiência com esse tipo de tratamento
Nem todo profissional que realiza procedimentos estéticos
tem formação para investigar doença venosa. O tratamento de vasinhos e varizes
exige conhecimento da circulação, da anatomia venosa e das possíveis causas por
trás do problema visível. Os biomédicos e
enfermeiros que trabalham em clínicas de estética não sabem investigar a
circulação ou fazer exames. Inclusive a ANVISA proibiu a escleroterapia por não
médicos.
Tempo de atuação, experiência com casos semelhantes,
resultados consistentes e depoimentos de pacientes podem ajudar o paciente a
entender melhor o nível de familiaridade daquele profissional com o tratamento.
3. Desconfie de
avaliações rápidas demais
Vasinhos não devem ser avaliados apenas com uma olhada na perna. A consulta precisa investigar sintomas, histórico familiar, presença de varizes, episódios de dor, inchaço, queimação, manchas, gestações, rotina de trabalho e fatores de risco.
Um atendimento sério não se resume a perguntar “quantas
sessões você quer fazer”. Precisa ser examinado clinicamente com detalhes,
realizada o ultrassom Doppler e de preferência o exame por realidade aumentada,
além do registro fotográfico do pré e pós-tratamento
4. Pergunte se será
feito ultrassom Doppler
O ultrassom Doppler venoso é um exame fundamental para
avaliar o funcionamento das veias, identificar refluxos, investigar a veia
safena e entender se existem varizes mais profundas ou nutridoras.
Em muitos casos, o Doppler muda completamente o plano de tratamento. As diretrizes nacionais e internacionais contraindicam realizar aplicação de vasinhos sem ter feito ultrassom doppler antes .
“Se há varizes grossas ou safena doente, não adianta começar
pela aplicação superficial dos vasinhos. Primeiro é preciso tratar a causa.
Depois, os vasos finos entram como parte do refinamento do resultado”, orienta
a Dra. Dafne.
5. Entenda se o plano
trata a causa ou só a aparência
Um bom tratamento vascular não deve ser vendido como “apagar
vasinhos”. Ele deve ser construído como um plano.
Esse plano pode envolver, dependendo do caso:
- Tratamento
da safena doente
- Tratamento
de varizes mais grossas
- Tratamento
de microvarizes nutridoras
- Aplicação
em vasinhos
- Laser
vascular
- Orientações de rotina e acompanhamento
Quando a causa é ignorada, o resultado tende a ser menos
duradouro.
6. Observe a
estrutura da clínica
A clínica deve oferecer segurança, higiene, estrutura adequada e acesso ao médico em caso de dúvidas ou intercorrências. O paciente também deve entender claramente como agir se tiver dor intensa, reação inesperada, sangramento, manchas importantes ou qualquer sintoma fora do padrão após o procedimento.
“Ter liberdade para contactar a equipe em caso de emergência
é parte da segurança. O paciente precisa saber que não está sozinho depois que
sai da clínica”, destaca a especialista.
7. Pergunte sobre
tecnologia e associação de técnicas
O tratamento moderno de vasinhos evoluiu. Em muitos casos, a associação de técnicas, como laser vascular e escleroterapia, pode melhorar o resultado, reduzir frustrações e permitir uma abordagem mais completa.
Isso não significa que todo paciente precisa de todos os
recursos. Significa que a escolha da técnica deve ser individualizada.
A tecnologia ajuda, mas não substitui diagnóstico correto.
8. Cuidado com
promessas milagrosas
Promessas como “resultado definitivo”, “sem risco”, “pernas
perfeitas em uma sessão” ou “tratamento igual para todo mundo” devem acender
alerta.
A resposta ao tratamento varia conforme genética, tipo de
pele, extensão dos vasos, presença de veias nutridoras, alterações venosas mais
profundas e adesão ao plano proposto.
Um bom profissional explica limites, riscos, etapas e
expectativas reais.
9. Prefira planos que
favoreçam adesão
Tratamentos longos demais, com muitas visitas, podem reduzir
adesão. Quando possível, planos bem estruturados, com menos idas à clínica e
estratégia clara, costumam ser mais viáveis para o paciente.
Mas poucas visitas não devem significar superficialidade. O
ideal é unir praticidade com diagnóstico completo.
10. Confiança também
importa
Além da formação técnica, o paciente precisa sentir
confiança no comprometimento do profissional. Isso inclui clareza nas
explicações, escuta durante a consulta, transparência sobre riscos e
honestidade sobre o que o tratamento pode ou não entregar.
Resultado bom não vem de promessa. Vem de diagnóstico
correto, planejamento e acompanhamento.
Segurança e resultado
caminham juntos
O caso ocorrido em Americana ainda precisa ser investigado
pelas autoridades competentes. Por isso, não cabe apontar causa ou culpados
antes da conclusão oficial. Mas a repercussão do episódio abre espaço para uma
orientação importante: o tratamento de vasinhos não deve ser tratado como
procedimento banal, feito sem avaliação vascular ou escolhido apenas pelo
preço.
A mesma consulta que protege a segurança do paciente também
melhora o resultado estético. Afinal, quando o especialista investiga a causa,
identifica veias nutridoras, avalia safena, escolhe a técnica adequada e acompanha
o pós-procedimento, o tratamento deixa de ser apenas uma tentativa de “limpar a
pele” e passa a ser cuidado vascular de verdade.
“O paciente não precisa ter medo de tratar. Precisa escolher
bem. Vasinhos podem parecer simples, mas a circulação precisa ser avaliada por
quem entende da doença venosa como um todo”, conclui a Dra. Dafne Leiderman.
Dra. Dafne
Leiderman - médica e cirurgiã vascular formada pela USP, com doutorado pelo
Hospital Israelita Albert Einstein. Diretora da SBACV regional São Paulo, é
referência em São Paulo no tratamento moderno de varizes sem necessidade de
internação hospitalar, tratamento a laser de microvasos e manejo clínico do
lipedema sem cirurgia.



Nenhum comentário:
Postar um comentário