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quinta-feira, 21 de maio de 2026

Plástico sem regulação ameaça metas climáticas do Brasil e expõe lacunas na política ambiental

Incentivos fiscais para a fabricação de plásticos no país devem chegar a R$ 15 bilhões em 2027


A falta de regulação sobre a produção e o uso de plásticos no Brasil, somada a incentivos fiscais bilionários ao setor, pode ameaçar o cumprimento das metas climáticas assumidas pelo país no âmbito do Acordo de Paris. Especialistas alertam que a expansão da indústria petroquímica ocorre em descompasso com os compromissos ambientais e de saúde pública. As conclusões estão em estudos divulgados nesta quarta-feira (20) pela Associação de Saúde Ambiental Toxisphera e pela Fundação Esquel (anexados). 


Hoje, a cadeia dos plásticos é uma das principais frentes de crescimento da demanda por combustíveis fósseis no mundo. No Brasil, esse movimento ganha força em meio a um cenário de baixa transparência sobre os impactos químicos dos materiais e de estímulo econômico à sua produção.


Estudos apontam que mais de 16 mil substâncias químicas estão presentes nos plásticos, mas apenas uma fração reduzida é efetivamente regulada. A maioria dessas substâncias não tem dados suficientes sobre seus impactos na saúde humana e no meio ambiente .


“Estamos lidando com uma verdadeira caixa de Pandora química. Grande parte das substâncias presentes nos plásticos não é adequadamente conhecida, monitorada ou regulada”, afirma a diretora da Associação de Saúde Ambiental Toxisphera, Zuleica Nycz. “Isso representa um risco concreto para a saúde pública, especialmente considerando a exposição cotidiana da população.”


Além da lacuna regulatória, o setor conta com incentivos expressivos. Programas de apoio à indústria química devem alcançar cerca de R$ 15 bilhões a partir de 2027. Para especialistas, esse volume de recursos contribui para perpetuar um modelo de produção intensivo em carbono.


“A política industrial brasileira ainda opera em descompasso com a política climática”, afirma o diretor da Fundação Esquel, Rubens Harry Born. “Enquanto o país se compromete a reduzir emissões, continua estimulando a expansão de cadeias produtivas altamente dependentes de combustíveis fósseis, como é o caso dos plásticos.”


O problema se agrava no final da cadeia. Com baixos índices de reciclagem e falhas na gestão de resíduos, uma parcela significativa dos plásticos acaba em aterros, lixões ou no meio ambiente. Estima-se que cerca de 3,4 milhões de toneladas de plástico vazem anualmente para a natureza no Brasil.


Ao mesmo tempo, ganha espaço o uso de resíduos plásticos como fonte de energia, por meio de processos poluentes como incineração, reciclagem química e coprocessamento em fornos de cimento. Essas tecnologias são frequentemente apresentadas como soluções para o problema dos resíduos, mas especialistas alertam para seus impactos.


“A queima de resíduos plásticos não resolve o problema — ela o intensifica”, diz Nycz. “Além de emitir gases de efeito estufa, esses processos liberam substâncias tóxicas que afetam a saúde das populações expostas.”


O próprio planejamento climático brasileiro prevê a ampliação do uso de resíduos como fonte energética, incluindo o chamado combustível derivado de resíduos (CDR). Para críticos, essa abordagem é uma falsa solução que agrava o problema e desincentiva a redução na fonte.


Para especialistas, o Brasil precisa avançar em três frentes: ampliar o controle e o banimento das substâncias químicas tóxicas; revisar incentivos econômicos aumentando os investimentos em inovação industrial; e estabelecer metas claras de redução da produção de plásticos. Sem isso, alertam, o país corre o risco de comprometer parte de sua estratégia climática.

“A crise dos plásticos não é apenas um problema de resíduos — é um problema de modelo econômico e de política pública”, resume Nycz. “Se quisermos cumprir nossas metas climáticas e proteger a saúde da população, precisamos enfrentar essa agenda de forma estrutural.”


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