Saiba como o cansaço crônico afeta a saúde feminina
Em 2026, a conversa sobre maternidade mudou. O foco migrou da “onipotência
materna” para a atenção com a saúde mental e física. Dados de janeiro deste ano
do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP)¹ revelam um
aumento alarmante de 493% nos afastamentos por burnout, com um impacto
desproporcional sobre as mulheres, que representam 64% dos afastados e
sustentam a jornada dupla e o ônus do cuidado invisível. O Relatório Global de
Bem-Estar² (2025) ratifica que o Brasil apresenta um dos índices mais críticos
de carga mental materna, com repercussões sintomáticas severas.
Muitas vezes, a exaustão é reduzida a uma fadiga emocional. Contudo, a medicina
baseada em evidências demonstra que o estresse crônico, que significa estar em
estado de alerta persistente, pode promover uma desregulação do eixo
Hipotálamo-Hipófise-Adrenal (HPA), alterando o equilíbrio do organismo.Segundo
a dra. Maria Helane Gurgel, endocrinologista e diretora médica dos laboratórios
Sérgio Franco e Bronstein, da Dasa, o excesso de cortisol no organismo –
hormônio liberado no estresse – atua de forma multissistêmica.
"A sobrecarga de adrenalina pode elevar a glicemia e a pressão arterial.
Quando o organismo opera no limite da sua capacidade adaptativa, entramos em um
estado de inflamação”, explica.
“Sintomas como exaustão crônica e irritabilidade estão ligados às oscilações do
cortisol. Pode haver um comprometimento cognitivo, a chamada ‘névoa mental’, e
um cenário de fragilização do sistema imune. O corpo pode liberar citocinas
pró-inflamatórias, o que pode explicar parte do aumento de dores articulares
sem causa mecânica aparente”, detalha Maria Helane.
Diferenciar a fadiga fisiológica do cotidiano de um desequilíbrio metabólico é
fundamental, segundo a médica. O diagnóstico de esgotamento psicológico não
deve ser excludente, mas, sim, acompanhado de uma avaliação da saúde integral.“
Alguns exames, elencados a seguir, podem ser úteis na avaliação metabólica dos
pacientes, mas é importante ressaltar a importância do acesso a um atendimento
médico de confiança para a avaliação personalizada de cada paciente”,
complementa.
Para ajudar as mães a entenderem se precisam de descanso ou tratamento, a
especialista sugere cinco exames:
- Ferritina
e hemograma – a deficiência de ferro, mesmo sem anemia
instalada, pode comprometer o transporte de oxigênio e a função
mitocondrial. É uma causa primária de apatia e fadiga crônica em mulheres
em idade fértil frequentemente confundida com quadros depressivos.
- Função
tireoidiana (TSH e T4 Livre) – o hipotireoidismo
(inclusive o subclínico) apresenta alta prevalência no puerpério e em
períodos de estresse. A desregulação tireoidiana é um fator que pode
contribuir para o ganho de peso e para a bradicinesia mental.
- Status
da vitamina D (25-hidroxivitamina D) –
atuando como um pré-hormônio, sua deficiência pode estar correlacionada
com a fragilidade imunológica e óssea e pode contribuir para a percepção
de exaustão extrema.
- Complexo
B (especialmente B12) – importante para a síntese
de neurotransmissores e integridade do sistema nervoso. Baixos níveis de
B12 podem manifestar-se por meio de déficits de memória e alterações
neurológicas com diversas apresentações.
- Perfil
metabólico (glicose, hemoglobina glicada, colesterol total, HDL-c, LDL-c e
triglicerídeos) – essencial para que sejam realizados o
diagnóstico e o manejo precoce de pré-diabetes, diabetes e dislipidemias.
Importante lembrar que a principal causa de morte ainda é a doença
cardiovascular.
“A exaustão
materna não denota ‘ossos do ofício’. É um marcador biológico de que o corpo
está em estado desafiador. Negligenciar isso é expor a mulher ao risco de
doenças crônicas evitáveis”, conclui a endocrinologista.
Referências:
¹https://www.diap.org.br/index.php/noticias/noticias/92680-saude-mental-e-trabalho-12-mudancas-urgentes
²https://portal.wemeds.com.br/relatorio-mundial-de-estado-mental/
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