Aumento de diagnósticos de Crohn e retocolite ulcerativa no Brasil reflete hábitos modernos. Diagnóstico precoce é decisivo para evitar complicações graves e evolução oncológica
A
campanha Maio Roxo traz um alerta para as doenças inflamatórias intestinais
(DII), um grupo de patologias crônicas que atinge cerca de 10 milhões de
pessoas no mundo, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). No
Brasil, segundo a Sociedade Brasileira de Coloproctologia, observa-se uma
prevalência de aproximadamente 100 casos para cada 100 mil habitantes, um
crescimento impulsionado pela urbanização e pela ocidentalização dos hábitos
alimentares. Um dos dados mais críticos reforçados por especialistas é a
correlação direta entre o tempo de atividade dessas doenças e o risco de
desenvolvimento de câncer colorretal.
A ligação entre as DIIs de longa duração – que englobam a Doença de Crohn e a
retocolite ulcerativa – e o câncer colorretal está na inflamação crônica
persistente do cólon e reto. Quando o intestino permanece inflamado por muitos
anos, ocorre um estímulo celular anormal para a reparação contínua dos tecidos,
o que eleva a chance de mutações genéticas no DNA celular.
O coloproctologista Dr. Dannilo Silveira, do Hospital Santa Lúcia Sul, explica
que o risco estatístico apresenta uma elevação clinicamente significativa após
8 a 10 anos do início dos sintomas. "A boa notícia é que esse risco
declina drasticamente quando a inflamação é controlada de forma eficaz por meio
do tratamento médico continuado. A inserção em programas de vigilância endoscópica
permite remover lesões pré-cancerosas muito antes de evoluírem para uma
neoplasia maligna", destaca o especialista.
Crohn e retocolite ulcerativa
A Doença de Crohn é uma doença inflamatória crônica do intestino que pode
afetar qualquer parte do trato digestivo, da boca ao ânus, mas costuma ser mais
comum no intestino delgado e no cólon. A inflamação costuma alternar trechos
inflamados e saudáveis, e pode atingir camadas profundas da parede intestinal.
Entre os sintomas mais frequentes estão dor abdominal, diarreia persistente,
perda de peso, fadiga e, em alguns casos, fissuras ou fístulas.
A causa exata ainda não é totalmente conhecida, mas envolve uma combinação de
predisposição genética, alterações imunológicas e fatores ambientais. O
tratamento busca controlar a inflamação e melhorar a qualidade de vida, podendo
incluir mudanças alimentares, medicamentos imunossupressores e terapias
biológicas.
Já a retocolite ulcerativa, também uma doença inflamatória intestinal crônica,
diferencia-se por afetar exclusivamente o intestino grosso (cólon e reto).
Nesse caso, a inflamação é contínua e atinge principalmente a camada mais
superficial da mucosa intestinal, formando úlceras que podem causar
sangramento. Os sintomas mais comuns incluem diarreia com sangue, urgência para
evacuar, cólicas e sensação de evacuação incompleta.
Assim como no Crohn, há períodos de crise e remissão. Embora ambas façam parte
do mesmo grupo de doenças e compartilhem alguns sintomas, a localização, a
profundidade da inflamação e as complicações possíveis se manifestam de formas
diferentes entre elas. No Crohn, a inflamação tende a ser mais irregular e
profunda, e na retocolite, mais contínua e superficial.
Por que os casos crescem no Brasil?
O aumento expressivo de diagnósticos no país reflete o fenômeno da transição
epidemiológica. O gastroenterologista Dr. Bernardo Oliveira, do Hospital Santa
Lúcia Norte (HSLN), aponta que o aprimoramento dos exames de rastreio e a
especialização das equipes médicas contribuíram para esse cenário, mas fatores
ambientais são determinantes.
"Temos uma relação da doença inflamatória intestinal com o ambiente mais
higiênico. Como é uma doença ligada ao sistema imunológico, quando temos um
sistema imaturo que não tem muito contato com germes, ficamos mais propícios a
doenças autoimunes do trato gastrointestinal. Vimos isso em países
desenvolvidos e agora estamos vendo no Brasil, à medida que o saneamento básico
avança", explica o médico. Neste caso, como complementa o Dr. Dannilo, o
excesso de higienização nos ambientes urbanos reduz a exposição precoce a
microrganismos benéficos, provocando uma espécie de "deseducação" do
sistema imunológico.
Outros gatilhos biológicos incluem a disbiose intestinal (causada por alimentos
ultraprocessados), o estresse crônico, o sedentarismo e o uso indiscriminado de
antibióticos na infância, que "deseducam" o sistema imunológico.
Quando a diarreia é um sinal de alerta
Muitos pacientes passam anos sem o diagnóstico correto por confundirem os
sintomas com verminoses ou com a Síndrome do Intestino Irritável (SII). Segundo
a Associação Brasileira de Colite Ulcerativa e Doença de Crohn (ABCDII), o
tempo médio para o diagnóstico correto no país pode ultrapassar um ano.
Conforme explica o Dr. Dannilo, a diferença essencial entre ambas reside na
presença ou ausência de lesões estruturais ou orgânicas no tecido intestinal.
"Na SII, o intestino é anatomicamente perfeito nos exames, mas funciona de
forma hipersensível. Não gera feridas, úlceras ou risco aumentado de cancro.
Nas DIIs, há uma resposta autoimune destrutiva, em que o próprio sistema de
defesa ataca o trato digestivo, provocando úlceras abertas e sangramentos reais
detectáveis por colonoscopia e biópsias."
Na primeira, o tratamento foca no manejo de sintomas, no uso de medicamentos
para dor, ajustes dietéticos e controle do estresse, enquanto a segunda exige o
uso de fármacos imunomoduladores que freiam o sistema imunitário e cicatriza
tecidos, prevenindo obstruções perfurações. Enquanto a SII é uma doença
funcional (sem lesão estrutural), as DIIs são doenças orgânicas destrutivas.
"Uma diarreia comum é autolimitada e dura entre 3 e 7 dias. Quando ela
persiste por 14 ou 21 dias, já é necessário questionar a etiologia. Sintomas da
DII incluem perda de peso involuntária, anemia, sangue ou muco nas fezes, dores
cólicas importantes e manifestações extraintestinais, como aftas orais de
repetição, dores nas articulações ou lesões oftalmológicas”, complementa o Dr.
Bernardo.
Outro sinal de alerta são os sintomas noturnos: acordar de madrugada com dor ou
urgência incontrolável para evacuar é característico de inflamação crônica,
enquanto o intestino funcional costuma "repousar" durante o sono.
Medicamentos biológicos e robótica
O prognóstico para Crohn e retocolite ulcerativa mudou radicalmente com o foco
na remissão profunda, visando a cicatrização completa da mucosa. Atualmente, o
tratamento utiliza medicamentos biológicos (anticorpos monoclonais) que
bloqueiam proteínas específicas da inflamação diretamente no foco, com maior
biossegurança e menos efeitos colaterais que os antigos corticoides.
Nos casos em que a intervenção cirúrgica é necessária — seja por neoplasias,
obstrução, fístulas ou perfurações —, a cirurgia robótica surge como um
diferencial tecnológico. Desde 2019, incluindo o ano atual, o Hospital Santa
Lúcia já realizou cerca de 1 mil cirurgias do aparelho digestivo nas unidades
Sul e Norte.
“Com a maior experiência em cirurgia robótica do Centro-Oeste, o Grupo Santa
também é referência na área em relação ao aparelho digestivo, realizando desde
os procedimentos mais frequentes até cirurgias de altíssima complexidade,
executadas em poucas instituições da América Latina, sempre com máxima
precisão, menor agressão cirúrgica e foco absoluto na recuperação e segurança
do paciente”, comenta o Dr. Victor Figueiredo, cirurgião do aparelho digestivo
e coordenador do Centro de Cirurgia Robótica do Grupo Santa.
Com auxílio dos robôs Da Vinci Xi & X, em coloproctologia, é possível
realizar colectomia (remoção total ou parcial do intestino grosso),
retossigmoidectomia (remoção do cólon sigmoide e de parte do reto, as porções
finais do intestino) e de distúrbios do assoalho pélvico (como incontinência
fecal, prolapso de reto). Quanto ao aparelho digestivo como um todo, com os
mesmos robôs, as possibilidades incluem hepatectomia (fígado), pancreatectomia
(pâncreas), gastrectomia (estômago), bariátrica (redução do estômago),
esplenectomia (baço), enterectomia (intestino), colectomia (intestino),
retossigmoidectomias (intestino), cirurgia das vias biliares, cirurgia de
câncer de pâncreas e cirurgia de câncer de fígado.
Centro do Aparelho Digestivo (CAD)
O tratamento das DIIs exige uma abordagem multidisciplinar integrada para
garantir a funcionalidade e autonomia do paciente, especialmente considerando
que a maioria dos diagnósticos ocorre entre os 15 e 40 anos.
O Hospital Santa Lúcia Sul se destaca nacionalmente por intermédio do seu
Centro do Aparelho Digestivo (CAD), que concentra gastroenterologistas,
cirurgiões do aparelho digestivo, coloproctologistas, nutricionistas e
psicólogos em um único ecossistema coordenado. A estrutura conta com
colonoscopia com cromoscopia avançada e entero-ressonância, equipe capacitada
para aplicação segura de terapias biológicas com monitoramento
intra-hospitalar, além de UTI especializada e pronto-socorro para
intercorrências gastroenterológicas.
“Tanto no cenário local quanto no panorama nacional de saúde, o Hospital Santa
Lúcia Sul posiciona-se como um centro de absoluta excelência e referência no
tratamento das Doenças Inflamatórias Intestinais por intermédio do seu renomado
Centro do Aparelho Digestivo”, destaca o Dr. Dannilo. “O centro dispõe de uma
linha de cuidados completa e integrada, e oferece suporte de urgência 24 horas
e UTI especializada em complicações gastroenterológicas.”

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