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sexta-feira, 29 de maio de 2026

Mães multitarefa: um talento caro demais para perder

Como gestora, observo de perto a tensão gerada pela expectativa dos múltiplos turnos de trabalho, que ainda recaem desproporcionalmente sobre as mulheres. Brinco que a mulher consegue dirigir, olhar a criança pelo retrovisor e ouvir música ao mesmo tempo, enquanto muitos homens precisam abaixar o som do rádio para procurar o número de uma casa. Mas essa capacidade de ser multitarefa tem um custo alto para a saúde mental da mulher: a sobrecarga.

De acordo com um levantamento recente lançado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), em parceira com o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS) as brasileiras dedicam em média 9,8 horas a mais por semana ao trabalho de cuidado não remunerado do que os homens. Essa carga é ainda maior entre mulheres negras, que chegam a dedicar 22,4 horas semanais. Globalmente, as mulheres realizam 76,2% de todo o trabalho de cuidado não remunerado no mundo, dedicando 3,2 vezes mais tempo do que os homens.

O dado aponta que 606 milhões de mulheres realizam trabalhos de cuidado não remunerados em tempo integral, em contrapartida a 41 milhões de homens. Os números escancaram a urgência de políticas públicas de apoio e a necessidade de reestruturação na forma de pensar do mundo corporativo, pois ignorar essa sobrecarga sistêmica é aceitar a perda de talentos femininos vitais para a inovação.

Essa sobrecarga se traduz em um dilema profissional que custa caro às empresas. O relatório ‘Women in the Workplace 2025’, divulgado pela McKinsey em dezembro do ano passado, por exemplo, aponta que até mesmo mulheres altamente motivadas podem se sentir desencorajadas a buscar uma promoção quando enfrentam pouco suporte ou demandas concorrentes sobre seu tempo, questionando se se o avanço é possível ou se vale o custo, especialmente sem o apoio e equilíbrio adequados. É natural associarmos as “demandas concorrentes” citadas à essa jornada tripla.

É por isso que oferecer modelos de trabalho híbridos ou horários flexíveis deixou de ser um diferencial para se tornar uma resposta pragmática. Hoje, a vida pessoal e a profissional estão muito mescladas. Uma empresa que busca extrair o melhor de seus talentos precisa entender que apoiar o bem-estar e a vida familiar é parte da equação para uma performance sustentável. A prova de que o caminho inverso funciona está em casa: recentemente, promovemos uma de nossas gerentes de vendas para seu primeiro cargo de liderança. Sendo mãe e residente fora do eixo Rio-São Paulo, vive em Fortaleza, no Nordeste, sua promoção para um cargo que normalmente exigiria mudança de cidade mostra que o verdadeiro potencial floresce quando a empresa busca meios para conciliar diferentes rotinas.

O impacto foi além do individual. Ao trazer uma líder com uma nova perspectiva, uma mulher nordestina em uma posição historicamente ocupada por perfis do Sudeste, enriquecemos o time e a estratégia. A própria colaboradora nos relatou como a diversidade de experiências engajou o crescimento de todos, somando sua visão de negócio à bagagem dos colegas. Isso valida, na prática, que a diversidade não é apenas uma pauta social, mas um ativo que gera inovação.

Para apoiar essa visão, na Biogen, implementamos iniciativas que buscam ativamente reduzir a carga mental de nossas colaboradoras. Além da já conhecida Short Friday, temos programas e ações focadas no bem-estar e no equilíbrio.

Para materializar essa visão na Biogen, e para além da já conhecida Short Friday, criamos um ecossistema de apoio. Oferecemos suporte direto à saúde mental com o programa Spring Health, que disponibiliza terapia e coaching, e amparamos as famílias com licença maternidade e paternidade estendidas e auxílio-creche. Além disso, fomentamos o diálogo através de iniciativas como os Win Talks, encontros sobre os desafios da mulher no mercado de trabalho, e de nossos comitês de diversidade, como o Women’s Innovation Network (WIN), criando uma rede de suporte que fortalece o sentimento de pertencimento e segurança psicológica.

No entanto, o caminho é complexo e exige vigilância. O mesmo estudo da McKinsey aponta uma tendência preocupante: a descontinuidade de programas de desenvolvimento para mulheres e a queda nas opções de trabalho remoto. O alerta se torna ainda maior ao evidenciar que mulheres em home office têm menos probabilidade de serem promovidas do que homens no mesmo modelo. Isso nos mostra que precisamos ir além da flexibilidade e construir uma cultura de avaliação baseada em impacto e confiança.

O apoio à maternidade nas empresas transcende a criação de políticas. Trata-se de redesenhar o próprio conceito de sucesso e presença, garantindo que as mulheres não tenham que escolher entre a carreira e o bem-estar. O futuro do trabalho será feminino e flexível, ou não será sustentável.

 

Priscila Damiani - diretora de RH da Biogen Brasil


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