sexta-feira, 29 de maio de 2026

Doenças inflamatórias intestinais não tratadas podem elevar risco de câncer colorretal

Aumento de diagnósticos de Crohn e retocolite ulcerativa no Brasil reflete hábitos modernos. Diagnóstico precoce é decisivo para evitar complicações graves e evolução oncológica



A campanha Maio Roxo traz um alerta para as doenças inflamatórias intestinais (DII), um grupo de patologias crônicas que atinge cerca de 10 milhões de pessoas no mundo, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). No Brasil, segundo a Sociedade Brasileira de Coloproctologia, observa-se uma prevalência de aproximadamente 100 casos para cada 100 mil habitantes, um crescimento impulsionado pela urbanização e pela ocidentalização dos hábitos alimentares. Um dos dados mais críticos reforçados por especialistas é a correlação direta entre o tempo de atividade dessas doenças e o risco de desenvolvimento de câncer colorretal.

A ligação entre as DIIs de longa duração – que englobam a Doença de Crohn e a retocolite ulcerativa – e o câncer colorretal está na inflamação crônica persistente do cólon e reto. Quando o intestino permanece inflamado por muitos anos, ocorre um estímulo celular anormal para a reparação contínua dos tecidos, o que eleva a chance de mutações genéticas no DNA celular.

O coloproctologista Dr. Dannilo Silveira, do Hospital Santa Lúcia Sul, explica que o risco estatístico apresenta uma elevação clinicamente significativa após 8 a 10 anos do início dos sintomas. "A boa notícia é que esse risco declina drasticamente quando a inflamação é controlada de forma eficaz por meio do tratamento médico continuado. A inserção em programas de vigilância endoscópica permite remover lesões pré-cancerosas muito antes de evoluírem para uma neoplasia maligna", destaca o especialista.



Crohn e retocolite ulcerativa

A Doença de Crohn é uma doença inflamatória crônica do intestino que pode afetar qualquer parte do trato digestivo, da boca ao ânus, mas costuma ser mais comum no intestino delgado e no cólon. A inflamação costuma alternar trechos inflamados e saudáveis, e pode atingir camadas profundas da parede intestinal. Entre os sintomas mais frequentes estão dor abdominal, diarreia persistente, perda de peso, fadiga e, em alguns casos, fissuras ou fístulas.

A causa exata ainda não é totalmente conhecida, mas envolve uma combinação de predisposição genética, alterações imunológicas e fatores ambientais. O tratamento busca controlar a inflamação e melhorar a qualidade de vida, podendo incluir mudanças alimentares, medicamentos imunossupressores e terapias biológicas.

Já a retocolite ulcerativa, também uma doença inflamatória intestinal crônica, diferencia-se por afetar exclusivamente o intestino grosso (cólon e reto). Nesse caso, a inflamação é contínua e atinge principalmente a camada mais superficial da mucosa intestinal, formando úlceras que podem causar sangramento. Os sintomas mais comuns incluem diarreia com sangue, urgência para evacuar, cólicas e sensação de evacuação incompleta.

Assim como no Crohn, há períodos de crise e remissão. Embora ambas façam parte do mesmo grupo de doenças e compartilhem alguns sintomas, a localização, a profundidade da inflamação e as complicações possíveis se manifestam de formas diferentes entre elas. No Crohn, a inflamação tende a ser mais irregular e profunda, e na retocolite, mais contínua e superficial.



Por que os casos crescem no Brasil?

O aumento expressivo de diagnósticos no país reflete o fenômeno da transição epidemiológica. O gastroenterologista Dr. Bernardo Oliveira, do Hospital Santa Lúcia Norte (HSLN), aponta que o aprimoramento dos exames de rastreio e a especialização das equipes médicas contribuíram para esse cenário, mas fatores ambientais são determinantes.

"Temos uma relação da doença inflamatória intestinal com o ambiente mais higiênico. Como é uma doença ligada ao sistema imunológico, quando temos um sistema imaturo que não tem muito contato com germes, ficamos mais propícios a doenças autoimunes do trato gastrointestinal. Vimos isso em países desenvolvidos e agora estamos vendo no Brasil, à medida que o saneamento básico avança", explica o médico. Neste caso, como complementa o Dr. Dannilo, o excesso de higienização nos ambientes urbanos reduz a exposição precoce a microrganismos benéficos, provocando uma espécie de "deseducação" do sistema imunológico.

Outros gatilhos biológicos incluem a disbiose intestinal (causada por alimentos ultraprocessados), o estresse crônico, o sedentarismo e o uso indiscriminado de antibióticos na infância, que "deseducam" o sistema imunológico.



Quando a diarreia é um sinal de alerta

Muitos pacientes passam anos sem o diagnóstico correto por confundirem os sintomas com verminoses ou com a Síndrome do Intestino Irritável (SII). Segundo a Associação Brasileira de Colite Ulcerativa e Doença de Crohn (ABCDII), o tempo médio para o diagnóstico correto no país pode ultrapassar um ano.

Conforme explica o Dr. Dannilo, a diferença essencial entre ambas reside na presença ou ausência de lesões estruturais ou orgânicas no tecido intestinal. "Na SII, o intestino é anatomicamente perfeito nos exames, mas funciona de forma hipersensível. Não gera feridas, úlceras ou risco aumentado de cancro. Nas DIIs, há uma resposta autoimune destrutiva, em que o próprio sistema de defesa ataca o trato digestivo, provocando úlceras abertas e sangramentos reais detectáveis por colonoscopia e biópsias."

Na primeira, o tratamento foca no manejo de sintomas, no uso de medicamentos para dor, ajustes dietéticos e controle do estresse, enquanto a segunda exige o uso de fármacos imunomoduladores que freiam o sistema imunitário e cicatriza tecidos, prevenindo obstruções perfurações. Enquanto a SII é uma doença funcional (sem lesão estrutural), as DIIs são doenças orgânicas destrutivas.

"Uma diarreia comum é autolimitada e dura entre 3 e 7 dias. Quando ela persiste por 14 ou 21 dias, já é necessário questionar a etiologia. Sintomas da DII incluem perda de peso involuntária, anemia, sangue ou muco nas fezes, dores cólicas importantes e manifestações extraintestinais, como aftas orais de repetição, dores nas articulações ou lesões oftalmológicas”, complementa o Dr. Bernardo.

Outro sinal de alerta são os sintomas noturnos: acordar de madrugada com dor ou urgência incontrolável para evacuar é característico de inflamação crônica, enquanto o intestino funcional costuma "repousar" durante o sono.



Medicamentos biológicos e robótica

O prognóstico para Crohn e retocolite ulcerativa mudou radicalmente com o foco na remissão profunda, visando a cicatrização completa da mucosa. Atualmente, o tratamento utiliza medicamentos biológicos (anticorpos monoclonais) que bloqueiam proteínas específicas da inflamação diretamente no foco, com maior biossegurança e menos efeitos colaterais que os antigos corticoides.

Nos casos em que a intervenção cirúrgica é necessária — seja por neoplasias, obstrução, fístulas ou perfurações —, a cirurgia robótica surge como um diferencial tecnológico. Desde 2019, incluindo o ano atual, o Hospital Santa Lúcia já realizou cerca de 1 mil cirurgias do aparelho digestivo nas unidades Sul e Norte.

“Com a maior experiência em cirurgia robótica do Centro-Oeste, o Grupo Santa também é referência na área em relação ao aparelho digestivo, realizando desde os procedimentos mais frequentes até cirurgias de altíssima complexidade, executadas em poucas instituições da América Latina, sempre com máxima precisão, menor agressão cirúrgica e foco absoluto na recuperação e segurança do paciente”, comenta o Dr. Victor Figueiredo, cirurgião do aparelho digestivo e coordenador do Centro de Cirurgia Robótica do Grupo Santa.

Com auxílio dos robôs Da Vinci Xi & X, em coloproctologia, é possível realizar colectomia (remoção total ou parcial do intestino grosso), retossigmoidectomia (remoção do cólon sigmoide e de parte do reto, as porções finais do intestino) e de distúrbios do assoalho pélvico (como incontinência fecal, prolapso de reto). Quanto ao aparelho digestivo como um todo, com os mesmos robôs, as possibilidades incluem hepatectomia (fígado), pancreatectomia (pâncreas), gastrectomia (estômago), bariátrica (redução do estômago), esplenectomia (baço), enterectomia (intestino), colectomia (intestino), retossigmoidectomias (intestino), cirurgia das vias biliares, cirurgia de câncer de pâncreas e cirurgia de câncer de fígado.



Centro do Aparelho Digestivo (CAD)

O tratamento das DIIs exige uma abordagem multidisciplinar integrada para garantir a funcionalidade e autonomia do paciente, especialmente considerando que a maioria dos diagnósticos ocorre entre os 15 e 40 anos.

O Hospital Santa Lúcia Sul se destaca nacionalmente por intermédio do seu Centro do Aparelho Digestivo (CAD), que concentra gastroenterologistas, cirurgiões do aparelho digestivo, coloproctologistas, nutricionistas e psicólogos em um único ecossistema coordenado. A estrutura conta com colonoscopia com cromoscopia avançada e entero-ressonância, equipe capacitada para aplicação segura de terapias biológicas com monitoramento intra-hospitalar, além de UTI especializada e pronto-socorro para intercorrências gastroenterológicas.

“Tanto no cenário local quanto no panorama nacional de saúde, o Hospital Santa Lúcia Sul posiciona-se como um centro de absoluta excelência e referência no tratamento das Doenças Inflamatórias Intestinais por intermédio do seu renomado Centro do Aparelho Digestivo”, destaca o Dr. Dannilo. “O centro dispõe de uma linha de cuidados completa e integrada, e oferece suporte de urgência 24 horas e UTI especializada em complicações gastroenterológicas.”

 

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