Mulheres altamente competentes suavizam a própria fala; reconhecer padrões que custam caro para autoridade e resultado é o primeiro passo
Alguns padrões funcionavam muito bem para a Luísa na faculdade. Na carreira, eles vêm custando caro.
Luísa dá contexto demais antes de chegar ao
ponto, com receio de ser mal interpretada. Ela se apresenta publicamente
listando credenciais, como se precisasse justificar o próprio lugar na mesa. E,
quando finalmente entra no assunto, amortece a frase com pedidos de desculpas,
autocorreções, “talvez”, “não sei se faz sentido”, “é só uma sugestão”… como
quem tenta reduzir o impacto para não provocar reação.
No fim, ela não tem dificuldade de pensar.
Ela tem dificuldade de ser direta em voz alta.
Porque cada frase parece um risco. E quando
comunicar vira risco, a mente tenta negociar: “se eu explicar mais, eu me
protejo”.
Só que é aí que a engrenagem começa a falhar.
Quanto mais você tenta compensar insegurança com excesso de informação, mais
você transmite, sem querer, a mensagem errada: “eu não tenho tanta certeza
assim”.
O que ainda falta no comportamento e na
comunicação da Luísa é coragem prática para lidar com desconforto.
O desconforto de segurar o frio na barriga e
dizer, olhando nos olhos de um cliente: “isso é prioridade”.
O desconforto de explicar de forma direta e
simples sem medo de parecer menos inteligente — porque, curiosamente, muita
gente usa complexidade como armadura.
O desconforto de dizer “não” quando
necessário, sem pânico de frustrar expectativas, desagradar ou ser rotulada
como difícil.
É nesse ponto que a “Síndrome da Boa Aluna”
aparece.
Na bibliografia, a “síndrome da boa menina”
foi descrita pela primeira vez em 2008 pela psicoterapeuta norte-americana
Beverly Engel, no livro The Nice Girl Syndrome. Em 2018, o
conceito foi levado ao mundo dos negócios pela investidora e mentora Fran
Hauser, em The Myth of the Nice Girl.
As tendências descritas no perfil da Luísa
aparecem nas duas abordagens, cada uma no seu contexto (clínico e organizacional).
Em ambas, fica claro um roteiro: suavizar a própria fala para reduzir atrito,
tentar “merecer espaço” com justificativa demais e, quando a insegurança
aperta, trocar direção por explicação — como se o “mais” pudesse substituir o
“claro”.
O antídoto: 3 movimentos de
comunicação (sem virar outra pessoa)
É tentador procurar uma fórmula para
abandonar esse padrão “de uma vez por todas”. Mas a vida real não funciona
assim. Cada fala pede leitura fina de público, contexto, poder e risco. Ainda
assim, existe um caminho simples — e bem concreto:
perceber (o que eu repito?), entender (por
que eu faço isso aqui?) e ajustar (qual é a menor mudança possível para esta
semana?).
Além disso, ajuda muito praticar três
movimentos.
1) Clareza de promessa: o que eu
resolvo?
A promessa não é “o que eu faço”. É o efeito
que eu gero no negócio do outro.
A boa aluna costuma se apresentar pelo
esforço (“eu estudei”, “eu tenho formação”, “eu fiz cursos”).
A líder se apresenta pelo efeito (“eu resolvo
isso”, “eu destravo aquilo”, “eu reduzo tal custo”, “eu aumento tal
resultado”).
Promessa clara não é autopromoção. É
facilitar a ação de quem te ouve.
2) Prova: micro-histórias de antes e
depois que te deixam concreta
Vai vender um serviço? Defender um projeto?
Disputar uma posição? Tenha suas provas na ponta da língua: dados, entregas,
recortes de antes e depois, resultados que alguém consegue imaginar. E use isso
com naturalidade, sem se desculpar por ter feito bem o seu trabalho.
Você não “ganha voz” porque estudou. Você
ganha espaço porque entrega.
3) Menos explicação, mais direção
Aqui está o ajuste mais delicado.
Menos explicação não é virar grossa nem “masculinizar”
a fala. É trocar o impulso de se justificar pelo hábito de orientar: dizer o
próximo passo, propor uma agenda, fazer um convite claro, escolher um foco de
serviço, carreira ou trabalho (mesmo que isso signifique renunciar ao resto).
No mercado, dizer “não” com educação,
deixando claro qual é o seu foco, vale ouro.
Até aqui, usei o pseudônimo Luísa lembrando
fortemente de uma jovem empresária que atendi recentemente. Afirmo
empiricamente com base na experiência com ela e em tantos outros líderes
competentes que atendo diariamente, que existe uma verdade dura, mas
necessária:
quando a fala não vai ao ponto, quem escuta
completa as lacunas com uma conclusão quase sempre injusta, porém comum: “talvez
ela não tenha tanta segurança assim.”
Saber é importante. Mas ser lembrada como
alguém clara, resolutiva e consistente acelera o resultado que se busca.

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