Levantamento da
Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO) estima que 63.268 mortes por
câncer registradas no Brasil estejam associadas ao tabagismo. O número equivale
a quase um quarto das 264.845 mortes por câncer registradas no país e foi
calculado a partir de dados relacionados aos 12 tipos de tumores mais
fortemente associados ao consumo de derivados do tabaco. O estudo utilizou
informações da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente, estimativas do
INCA para 2026 e percentuais de fração atribuível ao tabaco obtidos em estudos
epidemiológicos do INCA e do Observatório da Saúde
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Os dados
utilizados pela SBCO têm como base os registros de mortalidade da Secretaria de
Vigilância em Saúde e Ambiente e as estimativas de incidência do Instituto
Nacional de Câncer (INCA) para 2026. Já os percentuais de associação entre
tabagismo e cada tipo tumoral foram extraídos de informações epidemiológicas do
próprio INCA e do Observatório da Saúde, a partir de estudos de fração
atribuível ao tabaco, indicador que estima quantos casos ou mortes podem ser
relacionados ao consumo de cigarros.
Segundo o
levantamento, os 12 tipos de câncer avaliados somaram 132.802 mortes em 2025.
Esses tumores foram selecionados por apresentarem forte associação
epidemiológica com o consumo de tabaco. Entre eles estão os cânceres de pulmão,
cavidade oral, laringe, esôfago, bexiga, pâncreas, fígado, colo do útero, rim,
estômago, colorretal e leucemia mieloide aguda. A partir da aplicação dos
percentuais atribuíveis ao tabagismo para cada doença, a SBCO estimou que
63.268 desses óbitos tenham relação com o consumo de cigarros e outros
derivados do tabaco. Considerando o total de 264.845 mortes por câncer
registradas no país, esse contingente representa quase uma em cada quatro
mortes pela doença no Brasil.
O impacto é
particularmente expressivo nos tumores do trato respiratório e digestivo
superior. No câncer de pulmão, por exemplo, cerca de 90% dos casos são
associados ao tabagismo. Isso significa que, das 31.637 mortes registradas em
2025, aproximadamente 28.473 podem ter relação direta com o consumo de
cigarros. Os cânceres de esôfago e laringe também apresentam elevadas
proporções atribuíveis ao tabaco, de 90% e 96%, respectivamente.
Mesmo em tumores
com menor percentual de associação, o impacto permanece relevante em razão do
elevado número absoluto de casos. É o caso dos cânceres colorretal (intestino
grosso e reto), de estômago, fígado, pâncreas e colo do útero, nos quais o
tabagismo atua como importante fator de risco adicional, frequentemente
associado ao consumo de álcool, sedentarismo e alimentação rica em ultraprocessados.
O cirurgião
oncológico e presidente da SBCO, Paulo Henrique de Sousa Fernandes, destaca que
o tabagismo permanece como um dos principais fatores evitáveis associados ao
câncer e ressalta que seus efeitos se potencializam quando combinados a outros
comportamentos de risco. “Mesmo quando não é a causa principal, o cigarro
contribui de forma significativa para o desenvolvimento e agravamento da
doença, especialmente quando associado ao consumo de álcool, sedentarismo e
alimentação inadequada”, afirma.
Queda do tabagismo não elimina impacto acumulado
Estudo publicado em 2025 na Revista Brasileira de Cancerologia, periódico
científico editado pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA), intitulado
“Evolução do Tabagismo e Incidência de Câncer de Pulmão no Brasil (2000–2020)”,
mostra que o tabagismo permanece como o principal fator de risco para o câncer
de pulmão no país.
O trabalho aponta
que a prevalência de fumantes caiu de 34,8% em 1989 para cerca de 12,6% em
2019, chegando a aproximadamente 9,3% em 2023. Apesar da redução expressiva, os
pesquisadores destacam que os efeitos do tabaco permanecem sendo observados por
décadas, em razão do longo intervalo entre a exposição e o desenvolvimento de
diversos tipos de câncer.
“O avanço é
importante, mas vemos uma movimentação intensa da indústria do tabaco na
tentativa de apresentar novos produtos como alternativas supostamente menos
nocivas, especialmente os cigarros eletrônicos e dispositivos saborizados. Isso
não é verdade. É fundamental reforçar, sobretudo entre os jovens, que nenhuma
dessas opções é isenta de riscos. Além disso, as evidências apontam, conforme
destacadas pela OMS, que não há consumo seguro de cigarro e de nenhum de seus
derivados”, alerta Fernandes.
“O Dia Mundial sem Tabaco, celebrado em 31 de maio,
é uma oportunidade importante para conscientizar a população sobre os riscos do
consumo de cigarros e reforçar a necessidade de prevenção. Apesar da redução
observada nas taxas de tabagismo nas últimas décadas, o cigarro continua
associado a uma parcela expressiva das mortes por câncer no país”, acrescenta o
especialista.
|
Tipo
de Câncer |
Número
de óbitos |
Estimativa
INCA 2026 |
Porcentagem
Tabagismo* |
Estimativa
de óbito - SBCO |
|
Pulmão |
31.637 |
35.380 |
90% |
28.473 |
|
Cavidade Oral |
1.195 |
17.190 |
80% |
956 |
|
Laringe |
4.381 |
8.510 |
96% |
4.205 |
|
Esôfago |
8.245 |
11.390 |
90% |
7.420 |
|
Bexiga |
5.452 |
13.110 |
70% |
3.816 |
|
Pâncreas |
14.571 |
13.240 |
30% |
4.371 |
|
Fígado |
11.305 |
12.350 |
25% |
2.826 |
|
Colo do Útero |
7.270 |
19.301 |
20% |
1.454 |
|
Rim |
4.576 |
Não tem |
20% |
915 |
|
Leucemia Mieloide
Aguda |
4.108 |
12.220 |
20% |
821 |
|
Estômago |
14.363 |
22.350 |
20% |
2.872 |
|
Colorretal |
25.699 |
53.810 |
20% |
5.139 |
*
Percentuais de associação entre tabagismo e câncer
baseados em dados epidemiológicos do INCA e do Observatório da Saúde.
Cigarro eletrônico preocupa
especialistas
Os cigarros eletrônicos surgiram no mercado com o
discurso de serem menos nocivos do que os cigarros convencionais. No entanto,
estudos já demonstram que alguns dispositivos podem conter concentrações de
nicotina significativamente superiores às do cigarro tradicional, favorecendo
rápida dependência química. Em abril de 2025, a Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (Anvisa) decidiu manter a proibição da comercialização dos cigarros
eletrônicos no Brasil, medida em vigor desde 2009.
O presidente da SBCO reforça que, além do risco direto à saúde, esses dispositivos podem funcionar como porta de entrada para o tabagismo convencional, especialmente entre adolescentes e adultos jovens. “Esses dispositivos liberam substâncias tóxicas que podem causar danos ao sistema respiratório e cardiovascular. Há uma falsa percepção de segurança em relação aos cigarros eletrônicos. Eles não são inofensivos e podem expor o usuário a níveis elevados de nicotina. A única forma de reduzir de fato os riscos é não consumir nenhum produto derivado do tabaco”, afirma.
OMS aponta para os benefícios
de parar de fumar
A Organização Mundial da Saúde (OMS) destaca que
nunca é tarde para parar de fumar. Em cerca de 20 minutos após interromper o
consumo, a frequência cardíaca e a pressão arterial diminuem. Após 12 horas, os
níveis de monóxido de carbono no sangue retornam ao normal. Entre duas e 12
semanas, há melhora da circulação e da função pulmonar. Dez anos após parar de
fumar, o risco de morte por câncer de pulmão cai para aproximadamente metade do
observado em fumantes ativos, enquanto também diminui o risco de tumores de boca,
garganta, esôfago, bexiga, rim e pâncreas. Quinze anos após abandonar o
cigarro, o risco de doença coronariana se aproxima daquele observado em pessoas
que nunca fumaram.
Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica – SBCO
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