Depois
de décadas de inércia, a medicina finalmente começa a oferecer respostas mais
consistentes para uma das doenças crônicas mais prevalentes do planeta: a
obesidade. Foram anos de pesquisas, ensaios clínicos e avaliação regulatória
até que uma nova geração de medicamentos chegasse ao consultório com resultados
inéditos. Hoje, fala-se em perdas de 15% até 25% do peso corporal com fármacos
aprovados.
A
expectativa agora se volta para a Retatrutida, triplo agonista ainda em estudo
que, em fases clínicas, mostrou perdas de até 30% do peso corporal, superiores
às da Tirzepatida, comercializada como Mounjaro. Mas há um detalhe essencial: a
Retatrutida ainda não foi aprovada em nenhum país.
Ainda
assim, surgiu a notícia de que a empresa Éticos, conhecida por já ter produzido
medicamentos proibidos no Brasil, anunciou o lançamento de uma suposta
Retatrutida com o nome comercial “ReduFast”. Pouco depois, a Dirección
Nacional de Vigilancia Sanitaria informou que não concedeu aprovação
oficial para o produto nem mesmo no Paraguai.
É
aqui que mora o verdadeiro perigo.
Já
conhecemos os danos do mercado paralelo das chamadas “canetas emagrecedoras”:
produtos sem rastreabilidade, sem garantia de armazenamento adequado e sem
comprovação da composição. Há relatos de efeitos adversos graves, contaminações
e substâncias diferentes das prometidas, um risco sanitário evidente.
Mas
existe um efeito colateral ainda mais perverso: a difamação do tratamento da
obesidade.
Quando
alguém usa um produto clandestino, sofre um efeito adverso e associa o problema
à “caneta para emagrecer”, não é apenas aquele produto que perde credibilidade.
É toda a classe terapêutica. É a ciência. É o tratamento desenvolvido dentro
das regras. É o paciente que passa a ouvir: “Viu? Essas injeções fazem mal”.
A
obesidade já carrega estigma suficiente e ainda é tratada como falha moral ou
falta de força de vontade. Trata-se, porém, de uma doença crônica, complexa e
multifatorial, associada a maior risco de infarto, acidente vascular cerebral e
diversos tipos de câncer. Negar tratamento adequado é perpetuar sofrimento e
custos humanos e econômicos.
Se
permitirmos que o mercado paralelo avance antes da eventual aprovação oficial
da Retatrutida, o cenário é previsível: produtos de origem duvidosa, eventos
adversos graves, manchetes alarmistas e uma população cada vez mais
desconfiada. O medo se espalha. O preconceito se reforça. E quem realmente
precisa do tratamento fica sem acesso, seja por receio, seja por restrição
futura mais rígida.
É
urgente conscientizar a população sobre a importância de respeitar os trâmites
oficiais e reforçar a vigilância sanitária e o controle de fronteiras para
evitar a entrada de produtos não aprovados que exploram a esperança de quem
luta contra a obesidade.
Quando
o atalho vira regra, a conta chega, não apenas em efeitos colaterais físicos,
mas em descrédito social. O risco maior não é a molécula em si, e sim
transformar uma das maiores conquistas recentes da medicina em mais um capítulo
de desinformação e medo.
Dr. Ramon Marcelino - referência em endocrinologia e medicina do estilo de vida. Atua no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HCFMUSP) e integra o corpo clínico do Hospital Sírio-Libanês. Em seu perfil no Instagram @dr.ramonmarcelino, compartilha conteúdos confiáveis sobre saúde, metabolismo e os avanços no tratamento da obesidade.
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