Para
a psiquiatra Dra. Thaíssa Pandolfi, especialista em neurodivergência e
superdotação feminina, reconhecer o próprio funcionamento mental pode
transformar dor antiga em identidade e potência
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No próximo domingo, 8 de março, o Dia Internacional da Mulher chega acompanhado de uma mudança silenciosa, mas profunda, na forma como muitas brasileiras têm passado a se enxergar. Cada vez mais mulheres adultas estão buscando avaliação para TDAH, Autismo, altas habilidades e alta sensibilidade depois de anos acreditando que eram apenas “intensas demais”, “distraídas demais” ou “sensíveis demais”.
Quando personalidades conhecidas compartilham seus diagnósticos com naturalidade, algo se desloca fora das telas. Ao assumirem publicamente que convivem com TDAH ou Transtorno do Espectro Autista, elas deixam de falar apenas de si e ajudam outras mulheres a se reconhecerem em histórias parecidas. Aquilo que antes parecia falha de caráter ou desorganização passa a ganhar contorno clínico e, principalmente, sentido.
Para a Dra. Thaíssa Pandolfi, psiquiatra e especialista em neurodivergência, superdotação feminina e altas habilidades associadas à alta sensibilidade, esse movimento tem impacto direto no consultório. “Muitas cresceram ouvindo que eram exageradas, distraídas ou desorganizadas. Quando entendem que existe uma base neurobiológica para o que vivem, há um alívio imediato. É como se finalmente conseguissem alinhar a própria identidade”, afirma.
Segundo ela, meninas aprendem desde cedo a se ajustar para corresponder ao que se espera delas. Controlam impulsos, escondem dificuldades, silenciam intensidades. Esse esforço contínuo cobra um preço. “A camuflagem exige energia o tempo todo. Isso gera exaustão, ansiedade e uma sensação constante de inadequação. O diagnóstico não é uma sentença. É uma ferramenta de organização e autoconhecimento”, explica.
No atendimento clínico, a médica observa com frequência a associação entre TDAH, Autismo, altas habilidades e alta sensibilidade. Pensamento acelerado, hiperfoco criativo, profundidade emocional e percepção ampliada do ambiente costumam caminhar juntos. “É comum encontrarmos mulheres com grande capacidade de conexão de ideias, criatividade intensa e sensibilidade apurada. Quando isso é compreendido, deixa de ser visto como caos interno e passa a ser reconhecido como diferencial”, diz.
A conversa também se amplia quando o assunto é superdotação feminina. Durante décadas, o tema foi reduzido a números de QI ou desempenho acadêmico excepcional. A realidade, segundo a especialista, é mais complexa. “Superdotação não é apenas pensar rápido ou saber mais. É experimentar o mundo com profundidade e intensidade. Muitas refletem desde cedo sobre questões existenciais, têm senso de justiça muito aguçado, criatividade fora do padrão e uma sensibilidade que capta o que não é dito, apenas sentido”, explica.
Essa intensidade, quando não identificada, pode ser confundida com transtornos de humor ou personalidade. “Elas sentem demais. Absorvem o sofrimento alheio, a energia dos ambientes e as incoerências ao redor. Quando isso não é compreendido, surgem quadros de ansiedade, exaustão emocional e uma solidão difícil de nomear”, afirma.
Para a psiquiatra, viver sem essa compreensão tem um custo alto. “Superdotação não é privilégio automático. É uma forma intensa de existir. Quando não acolhida, se transforma em sofrimento silencioso. Quando reconhecida, vira potência criativa, ética e transformadora".
Neste 8 de março, falar de
força feminina também passa por reconhecer que há diferentes formas de pensar,
sentir e construir trajetória. Para muitas mulheres, dar nome ao que antes
parecia inadequação é o primeiro passo para interromper anos de autocobrança.
Mais do que flores e homenagens, o Dia da Mulher pode ser um convite à
autoaceitação, inclusive daquilo que sempre foi visto como excesso, mas pode
ser, na verdade, identidade.
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