Data criada pela ONU reforça a urgência de incentivar meninas, desde cedo, a ocupar áreas do conhecimento e espaços historicamente masculinos
Celebrado nesta quarta-feira, 11 de fevereiro, o Dia
Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência foi instituído em 2015 pela
Organização das Nações Unidas (ONU) para reconhecer a contribuição feminina ao
avanço científico e, ao mesmo tempo, chamar atenção para as desigualdades de
gênero ainda presentes nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e
matemática (STEM).
O Brasil ainda tem um caminho longo quando o assunto é a igualdade
de direitos e acessos entre homens e mulheres nessas áreas, mas há avanços
significativos acontecendo. Levantamento feito pela Nexus - Pesquisa e
Inteligência de Dados, a partir de dados do Instituto Nacional de Estudos e
Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), mostra que o número absoluto de
mulheres que entraram nas graduações em ciências exatas e biológicas aumentou
29% entre 2013 e 2023. Contudo, em 2023, 74% dos ingressantes nos cursos de
STEM eram homens, enquanto apenas 26% eram do sexo feminino – números que mostram
que é preciso incentivar mais mulheres nessas áreas.
Ao longo da história, mulheres enfrentaram barreiras sociais,
institucionais e culturais para estudar, pesquisar e publicar. Muitas
cientistas mulheres protagonizaram descobertas fundamentais e fizeram
contribuições decisivas para a humanidade, mas tiveram seus feitos ignorados,
atribuídos a colegas homens ou simplesmente ignorados.
Na opinião da professora de Física Kharyna Rodrigues, da Escola
Bilíngue Aubrick, de
São Paulo (SP), revisitar essas trajetórias é essencial para inspirar novas
gerações. “Quando apresentamos às meninas exemplos reais de mulheres que
fizeram ciência de excelência, rompemos a ideia de que esse é um espaço
masculino. A representatividade não é simbólica: ela influencia escolhas,
autoestima e projetos de vida”, afirma.
Na avaliação da docente, esse incentivo precisa começar de forma
articulada entre escola e família, desde a primeira infância. “A escola tem o
papel de criar ambientes de aprendizagem que estimulem a curiosidade, o
pensamento científico e o protagonismo das meninas, oferecendo referências
femininas, projetos práticos e liberdade para errar e experimentar. Já a
família é fundamental para reforçar essa confiança no dia a dia, evitando
estereótipos, valorizando o interesse das meninas por matemática, tecnologia e
ciências e encorajando perguntas, desafios e descobertas. Quando escola e
família caminham juntas, ampliam-se as possibilidades para que as meninas se
reconheçam como cientistas em potencial”, acrescenta Kharyna.
A seguir, a especialista em educação da Aubrick lista 34
cientistas inspiradoras cujas histórias valem a pena conhecer e divulgar.
1. Ada Lovelace: a mãe da computação universal
Ada Lovelace (1815–1852), matemática e escritora inglesa, era
filha do poeta Lord Byron e, incentivada pela mãe, recebeu uma formação
científica incomum para mulheres de sua época. Ao estudar a Máquina Analítica
de Charles Babbage, escreveu o que é considerado o primeiro algoritmo da
história, prevendo que máquinas poderiam processar qualquer símbolo, não apenas
números. Mesmo com ideias revolucionárias, teve seu trabalho minimizado e ficou
à margem da comunidade científica por ser mulher. Seu legado só foi plenamente
reconhecido décadas depois, tornando-se símbolo da origem da programação e da
computação moderna.
2. Caroline Herschel: a primeira a descobrir um cometa
Caroline Herschel (1750–1848), astrônoma nascida em Hanover,
Alemanha, superou uma infância marcada por uma doença e limitações educacionais
para se tornar uma das primeiras cientistas profissionais mulheres da história.
Instalou-se na Inglaterra com seu irmão William, onde, além de colaborar com
suas pesquisas, fez descobertas próprias ao identificar o cometa
35P/Herschel-Rigollet, tornando-se a primeira mulher a descobrir um cometa, e
uma figura central na catalogação de nebulosas e estrelas. Apesar de seu papel
fundamental, por muito tempo foi lembrada apenas como assistente de seu irmão,
e seu trabalho científico foi frequentemente ofuscado pelo sucesso dele.
3. Chien-Shiung Wu: a primeira dama da física
Chien-Shiung Wu (1912–1997) foi uma física nascida perto de
Xangai, e a única chinesa a integrar o Projeto Manhattan, programa de pesquisa
e desenvolvimento de bombas nucleares durante a Segunda Guerra Mundial. Ela
provou experimentalmente que a paridade não é conservada na interação fraca, contribuindo
para o desenvolvimento de métodos de separação de isótopos essenciais na física
nuclear. Apesar de essa descoberta experimental ter possibilitado que seus
colegas (Yang e Lee) fossem laureados com o Nobel, esse episódio é
frequentemente citado como uma das maiores injustiças de gênero da Academia
Sueca.
4. Dorothy Vaughan: primeira mulher negra chefe de departamento
da NASA
Dorothy Vaughan (1910–2008) foi uma matemática e programadora
americana que começou sua carreira em um tempo de segregação racial,
tornando-se a primeira supervisora negra das computadoras humanas no Centro
Langley da NASA, onde liderou equipes que calcularam trajetórias de voo
essenciais para programas espaciais. Seu domínio de linguagens emergentes, como
FORTRAN, e sua habilidade em programação ajudaram a agência na transição da
computação manual para a eletrônica durante as décadas de 1950 e 1960. Embora
tenha enfrentado barreiras de gênero e raça, apenas recentemente sua
contribuição vem sendo amplamente reconhecida.
5. Enedina Alves Marques: a primeira engenheira negra do
Brasil
Enedina Alves Marques (1913–1981) foi uma engenheira civil
brasileira nascida em Curitiba (PR) que, superando desigualdades raciais, de
gênero e econômicas, tornou-se em 1945 a primeira mulher negra a se formar em
engenharia no Brasil, pela Universidade Federal do Paraná. Crescendo em uma
sociedade em que mulheres e pessoas negras tinham pouco acesso à educação
superior, enfrentou preconceitos e barreiras dentro e fora da universidade,
sendo frequentemente a única mulher em ambientes dominados por homens. Após a
formatura, atuou em obras significativas no estado do Paraná, incluindo a
construção da Usina Capivari-Cachoeira, e trabalhou no Departamento Estadual de
Águas e Energia.
6. Gabriela Barreto Lemos: a física por trás da imagem quântica
Gabriela Barreto Lemos (1982) é uma física brasileira que realizou
pesquisa de destaque em óptica e informação quântica na Universidade de Viena.
Em 2014, liderou um experimento publicado em uma das revistas de maior
prestígio no meio científico, a Nature, demonstrando a “imagem quântica com
fótons não detectados” – a imagem de um objeto (popularmente divulgada como a
silhueta de um “gato de Schrödinger”) reconstruída a partir de correlações
quânticas/indistinguibilidade, mesmo quando os fótons responsáveis pela
formação do padrão de imagem não interagem diretamente com o objeto. O trabalho
ganhou grande repercussão por traduzir conceitos abstratos da física quântica
em um resultado visual e por apontar aplicações potenciais em imageamento com
menor dano em certos comprimentos de onda.
7. Grace Hopper: a pioneira da programação moderna
Grace Brewster Murray Hopper (1906–1992) foi uma matemática e
almirante da Marinha dos Estados Unidos que se tornou uma das primeiras
programadoras modernas ao trabalhar no computador Harvard Mark I durante a
Segunda Guerra Mundial, escrevendo também um dos primeiros guias sobre operação
de computadores. Após o conflito, liderou o desenvolvimento de compiladores e
linguagens de programação como o FLOW-MATIC, que inspiraram a criação do COBOL,
um dos primeiros e mais amplamente usados idiomas computacionais de negócios.
Em um campo dominado por homens, enfrentou resistência — inclusive sendo
inicialmente rejeitada por idade para o serviço ativo — e muitas vezes teve sua
contribuição subestimada ou atribuída a outros. Seu legado inclui termos como
“debugging” e uma carreira que a levou a se tornar a oficial mais velha em
serviço ativo na Marinha dos EUA.
8. Graziela Maciel Barroso: a grande dama da botânica
brasileira
Graziela Maciel Barroso (1912–2003) foi uma botânica e professora
brasileira nascida em Corumbá (MS) que se tornou referência na sistemática e
classificação de plantas tropicais, apesar de ter iniciado oficialmente sua
formação acadêmica apenas aos 47 anos, após anos de dedicação prática e
orientação de estudantes no Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Ao longo de sua
carreira, identificou dezenas de gêneros e mais de 130 novas espécies de
plantas, tendo publicado obras fundamentais que se tornaram referência
internacional em botânica. Seu legado inclui o reconhecimento internacional,
com homenagens como a Millennium Botany Award e espécies nomeadas em sua
homenagem.
9. Hedy Lamarr: a precursora da comunicação sem fio
Hedy Lamarr (1914–2000) foi uma atriz nascida em Viena, Áustria,
que alcançou grande sucesso em Hollywood nas décadas de 1930 e 1940, mas também
tinha um talento pouco conhecido para invenções técnicas. Durante a Segunda
Guerra Mundial, junto com o compositor George Antheil, ela desenvolveu e
patenteou um sistema de “salto de frequência” (frequency-hopping) para orientar
sinais de rádio de forma a evitar interferências e bloqueios, ideia que só
décadas depois se revelaria fundamental para tecnologias sem fio modernas, como
Bluetooth, GPS e redes sem fio. Embora essa contribuição tenha ficado
praticamente ignorada — e muitas vezes reduzida em sua época à sua imagem de
estrela de cinema — a invenção acabou sendo reconhecida postumamente, com sua
inclusão no National Inventors Hall of Fame e prêmios póstumos.
10. Hipátia: a primeira matemática grega
Hipátia (c. 350–415 d.C.) foi uma filósofa, astrônoma e matemática
grega, filha do matemático e astrônomo Teón de Alexandria, que a educou nas
ciências e na filosofia em um período em que mulheres raramente tinham acesso
ao conhecimento formal. Atuou como professora e intelectual em Alexandria,
centro do saber do mundo antigo. Reconhecida por seus estudos em geometria,
álgebra e astronomia, tornou-se uma das mais respeitadas pensadoras de sua
época. Em um contexto de intolerância religiosa e política, ela foi assassinada
de forma brutal por radicais da época, que a espancaram e mutilaram até a
morte. Seu legado permanece como símbolo da liberdade de pensamento e da
presença feminina na ciência desde a Antiguidade.
11. Ida Noddack: primeira a mencionar a ideia de fissão
nuclear
Ida Noddack (1896–1978) foi uma química e física alemã que se
destacou por sua perspicácia teórica e experimental. Em 1934, ao analisar dados
sobre absorção de nêutrons, ela sugeriu que certos núcleos poderiam se
fissionar — isto é, dividir-se em partes menores — uma ideia que antecipou a
descoberta da fissão nuclear, embora tenha sido inicialmente recebida com
ceticismo e até ridicularizada pela comunidade científica dominante. Anos
depois, quando a fissão foi confirmada experimentalmente por outros
pesquisadores e tornou-se central para a física nuclear, a contribuição de
Noddack continuou largamente desconhecida ou subestimada.
12. Jaqueline Goes de Jesus: a Barbie cientista
Jaqueline Goes de Jesus (1989) é uma biomédica e pesquisadora
brasileira reconhecida internacionalmente por sua atuação decisiva no
enfrentamento da pandemia da Covid-19. Em 2020, ela integrou a equipe
responsável pelo sequenciamento do genoma do SARS-CoV-2 no Brasil apenas 48
horas após a confirmação do primeiro caso, um feito que colocou o país na
liderança global em resposta científica à emergência sanitária. Seu trabalho
destacou a importância da ciência aberta, da cooperação internacional e da
rápida disseminação de dados genômicos para o controle de epidemias, além de
evidenciar o protagonismo de mulheres negras na ciência de ponta. Em
reconhecimento ao seu trabalho, a empresa Mattel produziu uma boneca Barbie em
sua homenagem.
13. Jennifer Doudna e Emmanuelle Charpentier: a revolução da edição genética
Jennifer Doudna (1964) e Emmanuelle Charpentier (1968) são
cientistas responsáveis pelo desenvolvimento da técnica de edição genética
CRISPR-Cas9, uma das maiores revoluções científicas do século XXI. A ferramenta
permite modificar o DNA com precisão inédita, abrindo novas possibilidades para
o tratamento de doenças, a pesquisa biomédica e a agricultura, ao mesmo tempo
em que suscita debates éticos globais. Em 2020, tornaram-se as primeiras
mulheres a dividir sozinhas um Prêmio Nobel de Química.
14. Jocelyn Bell Burnell: a descobridora dos pulsares
Jocelyn Bell Burnell nasceu em 1943 em Belfast, Irlanda do Norte.
É uma astrofísica britânica que identificou pela primeira vez os sinais
regulares de pulsações de rádio de um objeto celeste até então desconhecido: os
pulsares, estrelas de nêutrons formadas a partir do colapso do núcleo de
estrelas massivas no final de suas vidas - sua rotação rápida e extrema
regularidade dos seus pulsos, funcionam como "relógios cósmicos"
precisos, sendo fundamentais para a compreensão da evolução estelar. Apesar de
sua contribuição essencial, o Nobel de Física de 1974 foi concedido apenas ao
seu orientador e a outro colega, um exemplo claro de como mulheres cientistas
eram frequentemente negligenciadas nas honrarias científicas. Em 2018, doou seu
Breakthrough Prize para apoiar estudantes sub-representados em física,
reforçando seu compromisso com a diversidade e inclusão na ciência.
15. Katie Bouman: a primeira imagem de um buraco negro
Katie Bouman (1989) é uma cientista americana conhecida por seu
trabalho em métodos computacionais de reconstrução de imagens aplicados à
astronomia. Ela ganhou destaque ao coordenar a equipe do consórcio
internacional Event Horizon Telescope (EHT), que divulgou em 10 de abril de
2019 a primeira imagem de um buraco negro (M87*), construída a partir de dados
de uma rede global de radiotelescópios. Seu trabalho foi responsável por
comunicar ao grande público como algoritmos e processamento computacional são
essenciais para transformar grandes volumes de dados em uma imagem científica
interpretável.
16. Katherine Johnson: a matemática que levou o homem à Lua
Katherine Johnson (1918–2020) foi uma americana que desde jovem
demonstrou aptidão excepcional em matemática, e cujo talento para cálculos precisos
a tornou peça-chave nos primeiros programas espaciais da NASA. Apesar de
barreiras raciais e de gênero em uma época de segregação, foi convidada a
integrar equipes de elite que resolviam complexos problemas de mecânica
orbital. Em um campo dominado por homens brancos, sua contribuição frequentemente
era subestimada ou invisibilizada, mas seus cálculos garantiram a segurança e o
sucesso de voos pioneiros, incluindo a chegada do homem à Lua em 1969. Décadas
depois, Johnson recebeu homenagens como a Medalha Presidencial da Liberdade.
17. Lise Meitner: fundamentou o processo de fissão nuclear
Lise Meitner (1878–1968) foi uma física austríaca cuja pesquisa
teórica sobre a divisão do núcleo de átomos pesados levou à compreensão do
processo de fissão nuclear, um marco na física que possibilitou o
desenvolvimento da energia nuclear. Formada na Universidade de Viena em um
tempo em que mulheres raramente eram aceitas em ambientes científicos, ela
colaborou por décadas com colegas como Otto Hahn e, junto com seu sobrinho Otto
Frisch, elucidou como o núcleo do urânio se divide e libera enorme quantidade
de energia. Foi obrigada a deixar a Alemanha nazista por ser judia durante a
Segunda Guerra Mundial, vivendo no exílio justamente quando suas descobertas
ganhavam repercussão, o que contribuiu para que seu papel fosse minimizado. Ela
foi indicada ao Prêmio Nobel 48 vezes ao longo de várias décadas, mas nunca
chegou a ser laureada. O prêmio de 1944, por exemplo, coube apenas a seu colega
Hahn.
18. Marie Curie: a pioneira da radioatividade
Marie Skłodowska Curie (1867–1934), nascida em Varsóvia sob o
domínio russo, enfrentou a exclusão das universidades em seu país e mudou-se
para Paris para estudar física e química, tornando-se a primeira mulher a
ganhar um Prêmio Nobel. Junto com seu marido Pierre, investigou o fenômeno da
radioatividade — termo que ela mesma cunhou — e isolou os elementos polônio e
rádio, trabalho que rendeu o Nobel de Física em 1903 e, em 1911, o Nobel de
Química, tornando-a a primeira mulher e, até hoje, a única pessoa a ser laureada
com dois Prêmios Nobel em áreas científicas distintas. Em uma época em que a
participação feminina na ciência era fortemente desencorajada, Curie enfrentou
preconceito institucional, incluindo resistência a seu reconhecimento e a
barreiras à carreira acadêmica. Seu legado inclui avanços fundamentais em
física nuclear e aplicações médicas com radiografia móvel durante a Primeira
Guerra Mundial.
19. Marie Tharp: a primeira a mapear o fundo dos oceanos
Marie Tharp (1920–2006) foi uma geóloga e cartógrafa americana que
transformou dados brutos de sondagens submarinas em mapas detalhados do fundo
dos oceanos, revelando pela primeira vez a topografia completa das dorsais
meso-atlânticas. Trabalhando no Lamont-Doherty Earth Observatory, suas representações
cartográficas foram fundamentais para confirmar a teoria das placas tectônicas
e mudaram a compreensão científica sobre a dinâmica do planeta Terra. Apesar de
sua contribuição crucial, por muitos anos ela não recebeu o reconhecimento que
merecia — seus mapas foram inicialmente usados por colegas homens sem citação
de sua autoria. Hoje, o trabalho de Tharp é celebrado como uma das maiores
realizações da geociência do século.
20. Mary Anning: a pioneira da paleontologia
Mary Anning (1799–1847) foi uma paleontóloga e coletora de fósseis
inglesa nascida em Lyme Regis, na famosa “Jurassic Coast”, que transformou
restos pré-históricos encontrados nos penhascos em descobertas científicas
fundamentais sobre a vida no período jurássico. Ao longo da vida, desenterrou o
primeiro esqueleto de ichthyosaurus completo, o primeiro plesiosaurus
intacto e o primeiro pterossauro encontrado fora da Alemanha,
ampliando o conhecimento sobre répteis marinhos e voadores extintos. Apesar de
seu profundo impacto na paleontologia, sua falta de educação formal e o fato de
ser mulher e de classe social baixa fizeram com que muitos de seus achados
fossem creditados a cientistas homens. Embora tenha morrido relativamente jovem
e em dificuldades financeiras, sua reputação e reconhecimento cresceu
postumamente.
21. Mary Jackson: a primeira engenheira negra da NASA
Mary Winston Jackson (1921–2005) foi uma matemática e engenheira
aeroespacial americana nascida em Hampton, Virgínia, que, após se formar em
matemática e ciências físicas, trabalhou em várias funções até ingressar em
1951 no National Advisory Committee for Aeronautics (NACA), que depois se
tornou a NASA. Inicialmente atuando como “computadora humana”, ela ganhou
permissão especial para fazer cursos de graduação em matemática e física junto
a colegas brancos e, em 1958, tornou-se a primeira engenheira negra da agência,
pesquisando efeitos aerodinâmicos essenciais ao voo de aeronaves e espaçonaves.
Nos anos finais de sua carreira, aceitou uma demissão voluntária para liderar
programas de equidade de gênero e raça na NASA, impulsionando a contratação e
promoção de outras mulheres e minorias.
22. Mileva Marić: física e matemática sérvia
Mileva Marić (1875–1948) foi uma física e matemática sérvia que,
em uma época de forte exclusão feminina no ensino superior, ingressou no
prestigiado Politécnico de Zurique, onde estudou ao lado de Albert Einstein –
posteriormente seu marido. Cartas trocadas entre ela e Einstein revelam uma
colaboração intelectual nos anos em que as bases da Teoria da Relatividade
foram lançadas. Após o casamento e a maternidade, sua carreira científica foi
interrompida, enquanto o reconhecimento público ficou concentrado em Einstein. Seu
caso é frequentemente citado como exemplo das contribuições femininas
invisibilizadas ao longo do século.
23. Nettie Stevens: a descobridora dos cromossomos X e Y
Nettie Maria Stevens (1861–1912) foi uma bióloga e geneticista
americana que forneceu as primeiras evidências conclusivas de que o sexo
biológico é determinado por cromossomos específicos, observando em insetos que
a presença do cromossomo Y nos espermatozoides conduzia ao desenvolvimento
masculino, enquanto sua ausência resultava em fêmeas com cromossomos XX. Sua
pesquisa foi fundamental para entender a hereditariedade dos caracteres sexuais
— esclarecendo um mistério que intrigava a comunidade científica — mas foi
frequentemente ofuscada por colegas homens que receberam maior atenção e crédito
público. Mesmo assim, Stevens publicou dezenas de trabalhos e, hoje, seu papel
é reconhecido como fundamental para a biologia.
24. Nise da Silveira: a humanização dos tratamentos mentais
Nise da Silveira (1905–1999) foi uma médica psiquiatra brasileira
formada pela Faculdade de Medicina da Bahia, que desafiou as práticas invasivas
e repressivas da psiquiatria do século passado ao propor tratamentos humanistas
centrados na escuta, na arte e nas relações afetivas. Em uma época dominada por
práticas como eletrochoque e lobotomia, ela fundou o Museu de Imagens do
Inconsciente, onde obras de pacientes ajudaram a revelar a subjetividade humana
e transformaram a compreensão do sofrimento mental. Nise enfrentou resistência
de colegas e instituições conservadoras que viam suas abordagens como
impraticáveis ou subversivas, mas manteve sua prática ética e criativa. Seu
legado inspirou gerações de profissionais de saúde mental a valorizarem a
dignidade humana, abrindo caminhos para práticas terapêuticas mais humanas no
Brasil e no mundo.
25. Rachel Carson: a bióloga que alertou o mundo sobre os
impactos ambientais
Rachel Carson (1907–1964) foi uma bióloga marinha e escritora
americana que uniu rigor científico e sensibilidade literária em suas pesquisas
sobre ecologia e vida marinha, formação que a levou a trabalhar no U.S. Fish
and Wildlife Service antes de se dedicar à escrita sobre ciência e meio
ambiente. Seu livro Primavera Silenciosa, publicado em 1962, expôs os efeitos
devastadores de pesticidas na vida selvagem, na saúde humana e nos ecossistemas
— um marco no movimento ambiental global. A obra enfrentou forte resistência de
indústrias e críticas por desafiar práticas amplamente aceitas, e Carson sofreu
ataques pessoais por ser mulher questionando poderosos interesses econômicos.
Apesar disso, seu trabalho desencadeou debates públicos, mudanças em políticas
de uso de pesticidas e inspirou a criação da Agência de Proteção Ambiental dos
EUA.
26. Rita Lobato Velho Lopes: a primeira médica formada no
Brasil
Rita Lobato Velho Lopes (1866–1954) nasceu em Rio Grande (RS) e foi
a primeira mulher a se formar em medicina no Brasil em 1887, concluindo o curso
na Faculdade de Medicina da Bahia em apenas quatro anos — numa época em que
mulheres enfrentavam forte preconceito para acessar a educação superior. Ela
começou seus estudos na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e, determinada
a conquistar seu diploma, transferiu-se para Salvador, onde defendeu a tese
sobre a operação cesariana. Após a formatura, atuou em obstetrícia, ginecologia
e clínica geral atendendo pacientes de diferentes classes sociais e
frequentemente oferecendo serviços gratuitos, desafiando as expectativas da
época.
27. Rosalind Franklin: a química cuja pesquisa foi central
para compreender o DNA
Rosalind Elsie Franklin (1920–1958) foi uma química britânica
formada pela Universidade de Cambridge, especialista em difração de raios-X,
técnica que permitiu observar a estrutura interna de moléculas biológicas com
precisão. No início dos anos 1950, no King’s College London, ela produziu
imagens experimentais e dados fundamentais — incluindo a famosa “Fotografia 51”
— que evidenciaram a forma helicoidal do DNA, informação decisiva para que
James Watson e Francis Crick elaborassem o modelo de dupla hélice. Apesar da
importância de suas descobertas, Franklin enfrentou barreiras profissionais e
de gênero, teve seu trabalho usado sem o devido crédito e não foi reconhecida
com o Nobel, prêmio que em 1962 foi concedido a Watson, Crick e Maurice Wilkins.
28. Sônia Guimarães, primeira mulher negra a lecionar no ITA
Sônia Guimarães (1957) é uma física brasileira reconhecida por sua
atuação em materiais e dispositivos semicondutores e por romper barreiras
históricas em instituições tradicionalmente masculinas. Com doutorado pela
University of Manchester, ingressou no corpo docente do Instituto Tecnológico
de Aeronáutica (ITA) em 1993, tornando-se a primeira mulher negra a lecionar no
instituto e uma das principais referências públicas quando se fala em
representatividade na ciência brasileira. Sua trajetória é frequentemente
citada como exemplo de excelência acadêmica aliada à abertura de caminhos para
novas gerações de meninas negras nas áreas STEM.
29. Suzana Herculano-Houzel: neurociência e divulgação científica
Suzana Herculano-Houzel (1972) é uma neurocientista brasileira
reconhecida internacionalmente por suas contribuições à neuroanatomia
comparada. Seu trabalho demonstrou que o cérebro humano segue princípios de
organização semelhantes aos de outros primatas, desafiando a ideia de
excepcionalidade absoluta da espécie humana e reformulando interpretações sobre
cognição e evolução. Além da pesquisa acadêmica, destacou-se como uma das
principais divulgadoras científicas do país, aproximando conceitos complexos da
neurociência do grande público com rigor e clareza.
30. Tatiana Coelho de Sampaio: regeneração após lesão medular
Tatiana Coelho de Sampaio (1966) é uma cientista brasileira que
lidera pesquisas em biologia da matriz extracelular envolvendo a
polilaminina/laminina como estratégia de regeneração e recuperação funcional de
lesão medular. Um trabalho promissor no campo de terapias regenerativas que já
se encontra em etapas de protocolos rigorosos e avançados, com testes
bem-sucedidos em humanos. Sua trajetória se destaca por revelar como a pesquisa
de fronteira pode contribuir para tratamentos de alto impacto social, como
paraplegia e reabilitação.
31. Trotula de Ruggiero: a pioneira na ginecologia
Trotula de Ruggiero (século XI, Salerno, Itália) foi uma médica da
célebre Escola Médica de Salerno, um dos primeiros centros de saber médico da
Europa que admitia mulheres como alunas e professoras, num período em que a
medicina formal excluía quase sempre mulheres. A ela são atribuídos tratados
sobre doenças e cuidados da mulher antes e depois do parto e sobre cosmética
feminina, reconhecidos como alguns dos primeiros textos sistemáticos de
ginecologia e obstetrícia da tradição ocidental. Seu trabalho considerava a
saúde da mulher de forma integrada — incluindo alimentação, higiene e
tratamentos com plantas — e foi amplamente copiado e traduzido ao longo de
séculos, influenciando práticas médicas na Europa medieval. Apesar de seu
impacto duradouro, a autoria e a própria identidade de Trotula foram
obscurecidas por séculos em razão de dinâmicas historiográficas que
marginalizaram mulheres no cânone médico.
32. Tu Youyou: ciência que salvou milhões de vidas
Tu Youyou (1930) é uma cientista chinesa cuja pesquisa foi
decisiva no combate à malária, uma das doenças mais letais da história. A
partir do estudo sistemático da medicina tradicional chinesa, isolou a
artemisinina, composto altamente eficaz contra o parasita da malária. Seu
trabalho teve impacto direto na saúde pública global e já salvou milhões de
vidas, sendo reconhecido com o Prêmio Nobel de Medicina em 2015.
33. Valerie Thomas: a pioneira do 3D
Valerie LaVerne Thomas nasceu em 1943, em Maryland, EUA. Cientista
e inventora afro-americana, desde cedo demonstrou aptidão em matemática e
física, áreas nas quais se formou com honras antes de iniciar sua carreira na
NASA, onde foi uma das poucas mulheres e pessoas negras em funções técnicas.
Enquanto trabalhava com processamento de sinais e imagens, contribuiu
significativamente para o desenvolvimento dos sistemas de imagens dos satélites
Landsat, que transformaram a observação da Terra a partir do espaço. Em 1980,
ela recebeu patente pelo “transmissor de ilusões”, um dispositivo baseado em
espelhos que cria a percepção de imagens tridimensionais, tecnologia que
influenciou ideias posteriores em visualização e tecnologias 3D.
34. Vera Rubin: a astrônoma que mostrou a matéria escura
Vera Florence Cooper Rubin (1928–2016) foi uma astrônoma
americana, cuja carreira científica pioneira transformou a cosmologia ao
demonstrar que as galáxias espirais giram mais rápido nas regiões externas do
que a massa visível permitiria, evidência que se tornou um dos pilares da existência
da matéria escura, um componente dominante do universo invisível. Sua
descoberta moldou profundamente o entendimento moderno da estrutura e evolução
do cosmos, mas ela não recebeu o Prêmio Nobel, apesar de muitos especialistas
considerarem sua contribuição digna da honraria. Seu legado é celebrado
internacionalmente, inclusive pelo Observatório Vera C. Rubin no Chile,
dedicado a mapear o universo com tecnologia avançada e aprofundar a pesquisa
sobre matéria escura e outros fenômenos cósmicos.
Kharyna Rodrigues - graduada em Física e pós-graduada em Neurociência, apaixonada pela Educação e pelo desafio de tornar a aprendizagem mais acessível e significativa. Movida pela resistência que muitos estudantes demonstram diante da disciplina, aprofundou-se no estudo de como o cérebro adolescente aprende e atualmente, além de lecionar Física na escola Aubrick, em São Paulo, atua na implementação de projetos educacionais fundamentados na neurociência, com o objetivo de tornar o ensino de Física mais orgânico, humano e transformador.
International Schools Partnership -ISP
Para mais informações, acesse o site.

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