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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

O fim do Novo START e o aumento da insegurança internacional


Na última semana, expirou o acordo Novo START. O acordo era uma renovação do START I, Tratado de Redução de Armas Estratégicas entre Estados Unidos e Rússia que fora assinado em 1991 e entrou em vigor em 1994. O START tinha como objetivo limitar a expansão dos arsenais nucleares de Rússia e Estados Unidos e era considerado um dos pilares do regime de controle de armas nucleares, uma vez que EUA e Rússia possuem os maiores arsenais desse tipo de armamento. O Novo START foi renegociado quando o START I expirou e entrou em vigor em 2011, tendo validade até 4 de fevereiro de 2026.

O START I e o Novo START tinham como principal objetivo limitar a possibilidade de uma corrida armamentista nuclear entre as duas principais potências militares globais. Além de limitar o número de ogivas, o acordo também limitava a quantidade de mísseis interbalísticos e de submarinos capazes de lançar esses mísseis, quantidade de bombardeiros capazes de lançar armas nucleares, além de garantir a existência de mecanismos de verificação e transparência uma vez que a implementação dos limites estabelecidos pelo acordo eram das partes assinantes.

A data limite de vigência do acordo passou e não há perspectivas de que um novo acordo seja negociado para ser colocado em seu lugar. Ao limitar os arsenais estratégicos das principais potências nucleares globais, o acordo tinha efeitos que transbordavam para outras potências nucleares, uma vez que construir arsenais maiores que de Rússia e Estados Unidos levantaria preocupação e desconfiança em termos das intenções por trás do desenvolvimento de um amplo arsenal nuclear.

Apesar de tentativas de prolongar a vigência do Novo START, os dois países não alcançaram um consenso. O contexto global em que o acordo expirou é marcado por crescentes tensões e competição entre as principais potências globais. O governo americano tem afirmado que um novo acordo de limitação de armas nucleares deveria incluir a China, potência nuclear e com poder militar em expansão. Hoje, a China possui menos armas nucleares que os EUA e a Rússia, com um arsenal significativamente menor do que de ambas as potências. Contudo, o fim do acordo pode acabar incentivando outras potências nucleares, sobretudo a China, a expandirem seus arsenais a fim de garantir sua segurança nacional. É importante ressaltar que as potências nucleares europeias também têm demonstrado interesse em expandir seus arsenais em um contexto em que a OTAN e a segurança oferecida pela aliança já não parecem ser tão confiáveis.

O fim do Novo START e a ausência de um novo acordo para seu lugar cria um ambiente de maior insegurança internacional e favorece o arrefecimento da corrida armamentista, que já é uma realidade no contexto atual de instabilidade e competição. O fim das limitações dos arsenais nucleares também aumenta a possibilidade de que essas armas sejam empregadas ou que a ameaça do uso das mesmas retorne como uma das principais formas de coerção na dinâmica da política internacional. O Secretário Geral da ONU, António Guterres, vê com preocupação o fim do acordo e o que ele representa em termos de segurança internacional. Guterres tem pedido que Rússia e Estados Unidos negociem um novo acordo para substituir o acordo expirado.

O cenário se torna ainda mais preocupante ao se observar que o fim do tratado dá continuidade a um tendência de expiração e não renegociação de outros importantes tratados sobre armamentos, como o Tratado de Forças Convencionais na Europa, o Tratado de Céus Abertos e o Acordo de Forças Nucleares de Alcance Intermediário. O acirramento da competição entre as principais potências globais tem sido acompanhado pelo fim de importantes acordos de limitação de armamentos mostrando que a tendência é o acirramento da corrida armamentista entre esses países. A instabilidade de alianças militares como a OTAN também contribui para reforçar essa corrida, principalmente com a invasão russa da Ucrânia e a incerteza sobre os interesses finais russos.

O fim de Novo START reforça a tendência de aumento da insegurança e da incerteza na política internacional e a volta das questões de poder para o centro da dinâmica internacional.

 

 Fernanda Brandão - Doutora em Relações Internacionais, Professora e coordenadora do curso de Relações Internacionais da Faculdade Presbiteriana Mackenzie R

 

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