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terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Inovação na educação começa nas pessoas, não nas máquinas


Sempre que a educação entra em pauta, a tecnologia aparece como promessa de solução. Plataformas digitais, inteligência artificial, telas interativas e novos equipamentos são frequentemente apresentados como respostas para problemas históricos do ensino. O equívoco começa quando se acredita que a simples adoção dessas ferramentas, por si só, seja capaz de transformar a aprendizagem. 

A experiência prática nas escolas e a pesquisa acadêmica mostram que o principal desafio da educação, especialmente a pública, não está na ausência de tecnologia, mas na permanência de modelos pedagógicos que já não dialogam com a realidade dos estudantes. Durante décadas, a escola se organizou a partir da transmissão de conteúdo, com o aluno em posição passiva e o professor como centro do processo. Inovar, nesse contexto, exige uma mudança mais profunda: colocar o estudante no centro da aprendizagem e reposicionar o educador como mediador do conhecimento. 

É nesse ponto que a robótica educacional passa a fazer sentido. Não como vitrine de modernização ou novidade tecnológica, mas como metodologia pedagógica. Ao trabalhar com projetos de robótica, o aluno precisa agir, decidir, testar hipóteses e corrigir erros. Aprende porque precisa fazer algo funcionar. Conceitos de matemática, ciências e lógica deixam de ser abstratos e passam a ter aplicação concreta. 

Metodologias baseadas em projetos têm demonstrado impactos mais consistentes na aprendizagem. Quando o estudante é desafiado a resolver problemas reais, o erro deixa de ser um obstáculo e passa a fazer parte do processo. Essa abordagem fortalece a autonomia, o pensamento crítico e a construção ativa do conhecimento, competências cada vez mais necessárias em um mundo complexo e automatizado. 

É importante reforçar: tecnologia não é sinônimo de inovação. É possível inovar sem recursos digitais e, ao mesmo tempo, utilizar tecnologias avançadas sem alterar a dinâmica da sala de aula. O que faz diferença é a clareza pedagógica. Sem um projeto bem definido e sem formação adequada dos professores, qualquer ferramenta tende a se tornar apenas um recurso pontual, com impacto limitado no aprendizado. 

Hoje, o fator humano é o principal entrave, e também a maior oportunidade, para a inovação educacional. Professores precisam de tempo, formação contínua e apoio institucional para experimentar novas práticas. A mudança de postura pedagógica não acontece de forma automática, mas seus efeitos costumam ser mais duradouros do que a substituição de equipamentos. 

Esse debate ganha ainda mais relevância quando observado fora dos muros da escola. Dados da Federação Internacional de Robótica indicam que o número de robôs industriais em operação no mundo mais que dobrou na última década, ultrapassando quatro milhões de unidades. Países que lideram esse movimento também são aqueles que investiram de forma consistente em educação científica, técnica e tecnológica ao longo do tempo. 

Discutir robótica na educação básica não significa antecipar o mercado de trabalho, mas preparar os estudantes para compreender sistemas tecnológicos, lidar com problemas complexos e atuar de forma crítica em uma sociedade cada vez mais automatizada. Trata-se de formar cidadãos capazes de entender o mundo físico e digital em que vivem, e não apenas consumidores de tecnologia. 

Outro desafio central é encontrar equilíbrio entre o uso de recursos digitais e a aprendizagem ativa. Em um ambiente marcado por estímulos constantes e respostas rápidas, a escola precisa criar experiências que favoreçam a investigação, a concentração e o raciocínio. Projetos bem estruturados ajudam o aluno a se envolver de forma mais profunda com o processo de aprendizagem e a desenvolver habilidades que não se constroem por meio do consumo passivo de telas. 

O futuro da educação passa pelo uso consciente da tecnologia como apoio, não como substituto. Ferramentas digitais e inteligência artificial podem contribuir para personalizar o ensino e apoiar o trabalho docente, mas o papel do professor permanece central. Nenhuma tecnologia substitui a mediação humana, a leitura de contexto e a capacidade de provocar reflexão. 

Se a intenção é avançar de forma consistente na educação, o foco precisa voltar-se às pessoas. Inovação não nasce das máquinas, mas das escolhas pedagógicas, da formação dos educadores e da construção de projetos educacionais claros. A tecnologia pode, e deve, ser aliada, desde que esteja a serviço de uma aprendizagem mais significativa. 

 

Valdemar Abila - fundador da Brink Mobil, empresa reconhecida nacionalmente por suas soluções educacionais inovadoras. Sua trajetória na educação começou no início da década de 1980, levando livros, histórias e experiências pedagógicas a comunidades, educadores e escolas em diferentes regiões do Brasil, o que contribuiu para a construção de uma visão pioneira sobre metodologias mais lúdicas, acessíveis e eficazes no processo de aprendizagem. Hoje, a Brink Mobil atua no desenvolvimento de brinquedos educacionais, mobiliário pedagógico e tecnologias educacionais alinhadas à BNCC, com foco no fortalecimento do ensino público e na valorização dos educadores como agentes centrais da transformação social.

Roberto Garcia - Coordenador Executivo e Pesquisador Associado no NACE – Escola do Futuro/USP, com 32 anos de atuação na área de tecnologia educacional em projetos voltados à educação pública e particular. É inventor de soluções educacionais inovadoras, com diversas patentes registradas, além de coautor de uma plataforma virtual de aprendizagem registrada pela Universidade de São Paulo (USP) e empresa privada. Atua também como coordenador na produção de materiais didáticos para o uso de tecnologias na educação.



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