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terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

A inteligência artificial deixou de ser opcional para as agências de viagem brasileiras

A operação das agências de viagem brasileiras sempre foi marcada por processos manuais, dependência de conhecimento individual e sistemas fragmentados. Durante décadas, o diferencial esteve na experiência acumulada do agente, na capacidade de lidar com múltiplos fornecedores e na gestão quase artesanal do atendimento. Esse modelo, embora funcional por muito tempo, começa a se mostrar insuficiente diante da digitalização acelerada do turismo e da mudança no comportamento do consumidor. A inteligência artificial (IA) surge, nesse contexto, não como acessório tecnológico, mas como fator de reorganização estrutural da operação das agências.

O impacto é direto nas rotinas mais intensivas em tempo e esforço. Hoje, ferramentas baseadas em IA já permitem automatizar pesquisas complexas de voos, comparar tarifas em segundos, monitorar variações de preços, responder clientes em múltiplos canais simultaneamente e analisar históricos de vendas para orientar decisões comerciais. Na prática, isso significa reduzir drasticamente o tempo gasto em tarefas operacionais que não geram valor direto ao cliente, como buscas repetitivas, cruzamento manual de informações e respostas padronizadas. O ganho não é apenas de velocidade, mas de consistência e precisão, algo difícil de sustentar em operações dependentes exclusivamente do esforço humano.

Esse movimento acompanha uma mudança clara de expectativa dos próprios viajantes. De acordo com a 6ª edição da Pesquisa Global de Viagens de Negócios da SAP Concur, 94% dos viajantes corporativos no Brasil já utilizam ferramentas corporativas para realizar reservas, e 71% afirmam preferir receber sugestões baseadas em inteligência artificial para facilitar o processo, em vez de analisar todas as opções manualmente. Esses dados indicam uma inversão importante na lógica de decisão: o viajante deixa de valorizar o excesso de opções e passa a priorizar curadoria, conveniência e relevância. Em um cenário de excesso de informação, a capacidade de filtrar e recomendar se torna mais valiosa do que simplesmente apresentar alternativas.

As tendências do setor até as próximas duas décadas indicam que a inteligência artificial tende a redesenhar toda a cadeia do turismo, do planejamento à experiência final do viajante, ao reduzir fricções e ampliar a capacidade de personalização. A mesma pesquisa da SAP Concur mostra que 14% dos viajantes corporativos brasileiros optariam diretamente por uma lista personalizada por IA, adaptada às suas preferências e necessidades individuais, reforçando a demanda por experiências cada vez mais orientadas por dados. Embora o percentual pareça pequeno à primeira vista, ele revela um comportamento embrionário que tende a se expandir rapidamente à medida que os sistemas ganham confiança, precisão e transparência. O que hoje é visto como conveniência passa a ser expectativa padrão.

O que antes exigia horas de trabalho humano passa a ser executado quase instantaneamente por sistemas inteligentes, alterando profundamente o papel do agente de viagens. A ideia de substituição surge com frequência, mas não se sustenta na prática: a inteligência artificial não elimina a função humana, apenas desloca seu foco. O agente deixa de ser operador de sistemas e intermediário de reservas para atuar como consultor estratégico, interpretando necessidades, construindo experiências e lidando com situações complexas que a automação ainda não resolve sozinha. Em outras palavras, a IA assume tarefas repetitivas e previsíveis, enquanto o profissional se concentra em negociação, relacionamento, personalização avançada e resolução de exceções, áreas em que o valor humano é insubstituível.

A adoção da inteligência artificial vem se consolidando justamente porque responde às limitações estruturais das agências brasileiras. Em um mercado composto majoritariamente por pequenas e médias operações, ainda marcadas por processos tradicionais e margens pressionadas, soluções baseadas em IA tornaram-se mais acessíveis e escaláveis. Elas permitem ganhos rápidos de produtividade, redução de custos operacionais e ampliação da capacidade de atendimento sem exigir crescimento proporcional das equipes. Isso altera a equação econômica do setor: crescer deixa de significar contratar mais pessoas e passa a significar operar melhor, com mais inteligência e menos desperdício.

No setor de turismo, essa transformação tecnológica se torna ainda mais estratégica. Para as agências de viagens brasileiras, a inteligência artificial deixa de ser apenas uma tendência e se consolida como infraestrutura básica da operação. Não se trata de substituir o fator humano, mas de reposicioná-lo: tecnologia e conhecimento humano não competem, mas se complementam. Quem entender isso consegue oferecer serviços mais eficientes, personalizados e ágeis; quem adiar essa transição corre o risco de se tornar irrelevante em um mercado em que essas qualidades já não são diferenciais, mas exigências mínimas.
 

 

Bruno Bazotti - fundador e CEO da Larian AI, onde atua na transformação do setor de turismo por meio de soluções de inteligência artificial voltadas à automação e eficiência operacional. Com mais de 12 anos de experiência em tecnologia, incluindo passagens por empresas como IBM, Intuit e TEKsystems, é especialista em estratégia de dados, automação e desenvolvimento de produtos baseados em IA.


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