Levantamento, feito pelo quarto ano consecutivo, mostra que filhotes lideram resgates e entradas em abrigos superam três vezes mais o número de adoções
O
abandono de animais no Brasil segue concentrado nos centros urbanos e atinge,
principalmente, filhotes e cães. Essa realidade é apontada pela Pesquisa
Cenário de Abandono de Animais, realizada pelo quarto ano
consecutivo pelo Cobasi Cuida, iniciativa social da Cobasi, com ONGs e
protetores independentes parceiros. A ação engloba o contexto do Dezembro
Verde, campanha nacional de conscientização contra o abandono e os maus-tratos
aos animais.
De
acordo com o levantamento, que contou com a participação de 64 representantes
(sendo 85,9% de ONGs e 14,1% de protetores independentes), 82,9% dos casos de
abandono ocorrem em áreas urbanas. Dentro desse recorte, a maioria dos
registros acontece em vias públicas e outros pontos da cidade, totalizando
76,6% das ocorrências, enquanto 6,3% são identificados nas proximidades de
estabelecimentos comerciais. Já as áreas rurais concentram 17,2% dos casos.
Para
Daniela Bochi, gerente do Cobasi Cuida, os dados reforçam a necessidade de
tratar o abandono como um problema estrutural das cidades. “O
abandono está diretamente ligado à falta de informação e de ações preventivas,
como a castração. Quando esse cenário se concentra nos centros urbanos, ele
pressiona ainda mais as ONGs e protetores, que já operam no limite”,
afirma.
Filhotes lideram
resgates e ampliam ciclo do abandono
O
perfil dos animais resgatados evidencia a relação direta entre abandono e a
ausência de controle reprodutivo. Segundo a pesquisa, 31% dos resgates envolvem
ninhadas de filhotes, o que amplia rapidamente o número de animais em
acolhimento. Outros 10% correspondem a animais com necessidades especiais, como
doenças crônicas, deficiências físicas ou idade avançada, que demandam cuidados
contínuos e elevam significativamente os custos e o tempo de permanência nos
abrigos.
Em
relação às espécies, os cães representam a maioria dos resgates, com 54%,
seguidos pelos gatos, que correspondem a 32%.
Entradas em abrigos superam
adoções e revelam gargalos estruturais
Quando
questionadas sobre as estratégias adotadas para reduzir o abandono, as ONGs e
protetores destacaram a realização de entrevistas rigorosas com adotantes,
mencionada 28 vezes entre os entrevistados. Já o incentivo à castração foi
citado 23 vezes, enquanto campanhas educativas e de conscientização foram
lembradas nove vezes.
No
entanto, ao avaliar o que seria essencial para enfrentar o problema de forma
estrutural, houve forte consenso em torno da necessidade de políticas públicas
mais rigorosas, mencionadas 54 vezes. Outra medida que foi amplamente lembrada
no levantamento foi o fortalecimento da fiscalização contra maus-tratos e
abandono, com 48 menções, além da ampliação de campanhas de castração em larga
escala, com 47 menções.
Os
relatos também evidenciam desafios recorrentes enfrentados pelas organizações,
como a falta de espaço físico, a devolução de animais já adotados e a
sobrecarga causada pelo acolhimento de animais que exigem cuidados prolongados.
Aumento no
número de entrada de animais em abrigos e lares temporários
O
cenário identificado na pesquisa feita pelo Cobasi Cuida se conecta aos dados
nacionais da Pesquisa Transparência dos Dados de Abrigo de Animais,
realizada pela Medicina de Abrigos Brasil, com apoio também da empresa Cobasi.
Apenas no primeiro semestre de 2025, foram registradas 5.325 entradas de cães e
gatos em abrigos e lares temporários no Brasil. No mesmo período, foram
contabilizadas 1.685 saídas, o que representa um saldo negativo de 3.640
animais, com uma proporção de uma saída para cada 3,16 entradas.
Os
dados nacionais mostram ainda que os abrigos privados concentram 84,7% das
entradas e 80,8% das saídas de animais, reforçando a dependência do país em
relação a essas instituições. Os lares temporários respondem por 11,2% das
entradas e 15,8% das saídas, enquanto os abrigos públicos mantêm participação
inferior a 2% em ambos os fluxos. As adoções seguem como principal forma de
saída, com taxas superiores a 85% tanto para cães quanto para gatos.
Além
disso, a pesquisa estima que cerca de 4,8 milhões de cães e gatos estejam em
situação de vulnerabilidade no Brasil, sendo aproximadamente 201 mil sob
cuidados de ONGs e protetores. Em escala global, o país concentra cerca de 30
milhões de animais abandonados, o equivalente a um em cada quatro no mundo.
“Produzir, apoiar e dar
visibilidade a dados consistentes é fundamental para transformar a realidade do
abandono animal. Só com informação qualificada é possível fortalecer ações
preventivas e ampliar a adoção responsável”, conclui Daniela Bochi.

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