Especialista
alerta: produções que usam auroras artificiais podem criar expectativas irreais
e até prejudicar o turismo responsável no Ártico
Imagem de BeHappyTravel por Pixabay
A estreia do filme Natal Sob a Aurora Boreal
no catálogo da Netflix reacendeu um debate importante para o turismo do Ártico:
o uso de imagens de auroras geradas por inteligência artificial. Embora
visualmente impactantes, essas imagens artificiais não representam o fenômeno
natural e podem interferir diretamente na experiência de quem sonha em ver as
Luzes do Norte pela primeira vez.
Quem faz o alerta é Marco Brotto, conhecido como O
Caçador da Aurora Boreal, que já liderou 180 expedições bem-sucedidas pelo
Ártico e se dedica há mais de uma década a educar sobre o fenômeno. Para ele,
imagens artificiais criam expectativas incompatíveis com a realidade e podem
gerar frustração nos viajantes, além de prejudicar o turismo responsável.
“Quando uma produção usa aurora artificial, ela
altera o imaginário do público. A pessoa viaja esperando algo que não existe. A
verdadeira aurora boreal é extremamente poderosa justamente porque é
imprevisível e natural e essa verdade não pode ser substituída por efeitos
gerados por IA”, afirma Brotto.
Nos últimos anos, o turismo de observação da aurora
boreal cresceu mundialmente, impulsionado por filmes, séries e redes sociais.
Mas, segundo Brotto, a popularização de imagens não reais traz dois desafios
importantes:
1. Frustração e impacto na
experiência do viajante
Auroras criadas por IA costumam parecer mais
saturadas, simétricas e constantes do que o fenômeno real. Para quem chega ao
ártico com a expectativa errada, a experiência pode ser comprometida.
“A Aurora Boreal muda o tempo todo. Ela pode ser
suave, intensa, dançante ou quase imperceptível. Parte da beleza está
exatamente nisso. Quando uma obra apresenta algo ‘perfeito demais’, ela entrega
uma fantasia, não ciência”.
2. Riscos ao turismo sustentável
e à cadeia que vive do fenômeno
Quando o público perde referência da realidade, há
impactos diretos na credibilidade do turismo e nos milhares de profissionais
que dependem dele, de guias a hotéis, pesquisadores e toda a cadeia local.
“Trabalhamos com um fenômeno natural. Nosso
compromisso é com a verdade e com a segurança. Produções que usam auroras
falsas acabam interferindo na forma como o mundo entende o ártico e suas
fragilidades.”
Brotto reforça que não é contra o uso de tecnologia
no audiovisual. Ele reconhece o valor artístico, mas defende que o público seja
informado quando a obra utiliza fenômenos artificiais. “A arte pode e deve
criar. Mas o turismo vive da confiança. E a confiança nasce da
transparência”.
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