Método simples, mas baseado em evidências científicas, pode ajudar na recuperação mesmo após meses de perda
Você já imaginou ter que reaprender a sentir cheiros? Para muitas pessoas que perderam parcialmente ou totalmente o olfato – condição conhecida como hiposmia ou anosmia –, essa é uma realidade que vai além do simples incômodo de não sentir o aroma do café ou o perfume preferido. E a boa notícia é que, sim, há como reabilitar esse sentido. A solução pode estar em uma prática curiosa e, até pouco tempo atrás, pouco conhecida: o treinamento olfativo.
Parece
coisa de terapia alternativa, mas trata-se de um método com base científica
sólida, defendido por especialistas como o otorrinolaringologista Dr. Alexandre
Yakushijin Kumagai, do Hospital Paulista. "O treinamento olfativo é uma
forma estruturada de reabilitação sensorial. É como uma fisioterapia para o nariz",
explica o médico.
Como funciona?
A
prática consiste em cheirar conscientemente quatro odores diferentes, duas
vezes ao dia, por no mínimo 12 semanas. Os aromas mais utilizados nos
protocolos científicos são rosa, limão, cravo e eucalipto – sempre por meio de
óleos essenciais. A exposição repetitiva ajuda o cérebro a
"reaprender" a processar os cheiros.
Por trás desse reaprendizado está a neuroplasticidade – a capacidade do cérebro de se adaptar e criar novas conexões neurais. Estudos de imagem funcional mostram que, após semanas de treinamento, áreas cerebrais ligadas ao olfato, como o córtex orbitofrontal e o giro parahipocampal, voltam a ser ativadas.
A
técnica, aliás, é recomendada oficialmente por diretrizes internacionais, como
a EPOS 2020 e o International Consensus Statement on Olfaction Dysfunction
(2023).
Para quem é indicado?
O treinamento olfativo é especialmente eficaz em casos de perda de olfato após infecções virais – como as provocadas pela Covid-19, por exemplo. Mas também pode ajudar em outras condições, como traumatismo craniano leve, rinite alérgica controlada, envelhecimento e até em doenças neurodegenerativas, como Parkinson e Alzheimer (nestas, como suporte, não como cura).
E
mesmo quem convive com a hiposmia há muito tempo pode se beneficiar. "O
ideal é começar o quanto antes, mas mesmo pacientes com perda persistente há
mais de um ano podem apresentar melhora", afirma o especialista do
Hospital Paulista.
Cuidado com os tutoriais!
Com a popularização do tema nas redes sociais, muitos pacientes tentam fazer o treino olfativo por conta própria. Um erro, alerta o especialista. “Nem toda perda de olfato é causada por vírus. Pode ser algo muito mais sério, como tumores, rinossinusites crônicas, doenças neurológicas ou até deficiências hormonais”, explica.
Além
disso, o uso de odores não validados ou o diagnóstico errado pode atrasar
tratamentos e comprometer a recuperação. O recomendado é sempre procurar um
otorrinolaringologista, que pode indicar exames como endoscopia nasal, testes
específicos de olfato (como o UPSIT ou o Sniffin’ Sticks) e, em alguns casos,
tomografia ou ressonância magnética.
Alerta de doenças graves
A hiposmia, apesar de parecer um sintoma leve, pode ser o primeiro sinal de condições mais preocupantes. Entre elas, doenças neurodegenerativas, infecções fúngicas em imunodeprimidos e até tumores na base do crânio, como estesioblastoma. Por isso, o ideal é procurar um especialista sempre que a perda de olfato durar mais de 2 a 4 semanas, principalmente se não estiver relacionada a gripes ou resfriados.
A
ciência já mostrou que o olfato pode ser treinado, assim como um músculo. E
isso abre caminho para uma forma segura e eficaz de reconquistar um dos
sentidos mais subestimados do corpo humano. Mas o segredo, segundo os
especialistas, está na orientação médica correta, na disciplina e – por que
não? – na esperança de voltar a sentir o mundo com todos os seus aromas.
Hospital Paulista de Otorrinolaringologia

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