Defasagem pode levar fechamento de clínicas, aumenta filas e expõe pacientes a riscos evitáveis em todo o país
A Associação Brasileira de Centros de Diálise e Transplante (ABCDT) iniciou uma campanha nacional com o lema “Diálise é direito, reajuste é dever”, para sensibilizar o governo federal sobre as dificuldades enfrentadas por cerca de 840 clínicas que prestam serviços de diálise ao Sistema Único de Saúde (SUS). Hoje, o valor pago pelo Ministério da Saúde está cerca de 43% abaixo dos custos reais, o que compromete a manutenção e expansão desses serviços essenciais para os mais de 150 mil brasileiros que dependem da diálise e do SUS para sobreviver.
Recentemente, a ABCDT e Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN) entregaram estudo para o Ministério da Saúde, cobrando reajuste da Tabela SUS para não inviabilizar operação das clínicas privadas. O estudo, feito pela consultoria Planisa, com base na KPIH — a maior base de dados de custos em saúde da América Latina – comprova que o custo médio por sessão de hemodiálise no país é de R$ 343, considerando gastos com pessoal, materiais, utilidades e estrutura. A remuneração atual da Tabela SUS, de R$ 240,97, representa uma defasagem superior a 43%, comprometendo a sustentabilidade dos serviços, os investimentos em tecnologia e a retenção de profissionais qualificados. E somando tributos sobre a receita bruta, como ISS (de 2 a 5%) e PIS/COFINS (9,25%), o custo aumenta 12,75% e sobe para cerca de R$ 393 por sessão, uma defasagem de 63%.
“Em 27 anos, o
valor pago por sessão aumentou apenas 160%, enquanto a inflação acumulada pelo
IPCA foi de 400%. Deveríamos receber, no mínimo, R$ 460 por sessão, pelo IPCA,
mas recebemos R$ 240. É uma situação insustentável, que vem se prolongando há
muitos anos. É preciso reajustar e manter uma atualização anual dos valores
pagos para cobrir a inflação”, afirma Yussif Ali Mere Junior, nefrologista e
presidente da ABCDT. A defasagem já representa uma perda de R$ 1,6 bilhão por
ano para o setor.
Sem o reajuste
necessário, clínicas em todo o país operam endividadas - especialmente as
menores, que não conseguem economia de escala - e muitas cidades sequer
conseguem abrir novas unidades. O resultado é uma fila silenciosa: pacientes
internados em hospitais improvisando sessões de diálise, expostos a
contaminações e afastados de suas famílias.
“O impacto desse
déficit é visível: em maio de 2025, um levantamento da SBN mostrou ao menos 1.095
pacientes internados no Brasil apenas aguardando vaga em clínicas de diálise -
uma realidade que se configura como uma crise humanitária silenciosa e
inaceitável. Nossa estimativa é que abrangendo todos os estados, esse número
seja até maior”, diz Yussif.
Um exemplo é o de
Artur Faria da Costa, de 74 anos, que ficou dois meses internado no Rio de
Janeiro até conseguir uma vaga fixa. “Sofri uma queda, fraturei a bacia e
descobri que meus rins não funcionavam mais. Esperei internado, sem saber se
conseguiria tratamento. Foi doloroso, uma espera cheia de medo”, relata.
Situação
semelhante viveu Eliane Rodrigues Teixeira, de 61 anos, que passou 45 dias
internada aguardando uma vaga para diálise crônica. “Minha mãe queria ir
embora, mas não podia. Foi exaustivo para toda a família”, conta a filha
Tatiane Teixeira, que acompanhava a mãe todos os dias após o trabalho.
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| Carlos Henrique Pastorinho, de 31 anos |
O carioca Daniel
Azevedo Flor, de 44 anos, também conheceu o lado invisível da fila. Esperou 40
dias para conseguir iniciar a hemodiálise após descobrir ser renal crônico
devido à hipertensão. “Minha primeira sessão foi um choque, parecia uma
sentença. Hoje sei que não é o fim. Quero estar presente para ver meus filhos,
Lorenzo e Breno Davi, crescerem. É por eles que enfrento tudo isso”, destaca.
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| Livia Alessandra da Silva, de 35 anos |
Além das dificuldades financeiras, o setor aponta que a falta de vagas causa deslocamentos longos, sobrecarrega hospitais e expõe pacientes a infecções evitáveis. Há vazios assistenciais graves, principalmente no Norte e Nordeste.
“A diálise é um direito garantido pelo SUS, mas sem reajuste justo, o serviço se torna insustentável. É preciso garantir condições para que clínicas sigam funcionando e ampliando vagas. O paciente renal não pode esperar. Esse estudo é um instrumento técnico e transparente para subsidiar políticas públicas e renegociações contratuais com o Ministério da Saúde. Não há como garantir a continuidade, a qualidade e a equidade da Terapia Renal Substitutiva no Brasil sem um urgente reequilíbrio financeiro”, finaliza Yussif.


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