Dados apontam um crescimento exponencial dos
suicídios de policiais no Brasil, uma mazela que poderia ter sido evitada com
um programa efetivo de bem-estar com foco nas doenças psicossociais
Embora a edição mais recente do Anuário Brasileiro de Segurança Pública aponte uma queda de 4% nas
mortes de policiais em 2021, a boa notícia não abarca os índices de suicídio,
que apresentaram um aumento de 55,4%, com 121 vítimas. Esses dados referem-se
somente aos policiais militares da ativa.
Esse
aumento no comparativo com 2020 se deve em grande medida à entrada de dados de
novos estados na estatística nacional, dentre eles São Paulo, que tem maior
representatividade, com 23,7% dos casos nacionais, e que não apresentara dados
para 2020. Ocorre que, mesmo desagregando os dados desse estado, o Brasil
apresentou um aumento de 18,5% das taxas de suicídios de policiais da ativa.
A
polícia civil não está imune a esse aumento de suicídios nas forças policiais.
Entre 2021 e 2022 houve um crescimento de 61,5%, quando o total de casos saltou
de 13 para 21.
Em
estados como o Rio Grande do Sul, por exemplo, o suicídio é a principal causa
de morte de policiais, militares e civis.
Quando você
acompanha as estatísticas de suicídios no Brasil, os integrante das forças
policiais têm uma média muito maior, um número muito maior de suicídios, de
tentativas e internações por problemas psiquiátricos.
Para o Dr. Ricardo Pacheco, médico, gestor em
saúde e presidente da Oncare Saúde e da ABRESST (Associação Brasileira de
Empresas de Saúde e Segurança no Trabalho), isso é consequência da rotina, que
é muito dura e de uma atividade que normalmente não cuida do homem. “É preciso
criar uma série de estruturas de proteção aos policiais para que eles possam
prestar um melhor serviço à sociedade e retornar para suas famílias em
segurança”.
Subnotificação e fatores que levam policiais ao
suicídio
A subnotificação é com certeza um problema e nos impede de termos dados mais
absolutos, e pode gerar uma falsa interpretação de estatísticas que mostram uma
redução no número de suicídios consumados.
O médico alerta que muitos dos casos de suicídios sucedidos e tentativas de
suicídio de policiais não são informados ao setor responsável por inúmeras
razões. “Entre elas, estão as questões socioculturais – o tabu em torno do
fenômeno; a proteção ao familiar da vítima (a preservação do direito ao seguro
de vida) e a existência de preconceito ao policial diagnosticado com problemas
emocionais e psiquiátricos”, elenca Pacheco.
Quanto aos fatores que levam os policiais a tirarem suas vidas, o presidente da
Oncare Saúde elenca os mais relevantes: “O convívio permanente com a morte e a
violência, as extenuantes jornadas de trabalho, a falta de sono, lazer e
convívio com a família são fatores de risco para os policiais. Estão
diretamente relacionados com o trabalho policial e, portanto, podem levar os
profissionais a quadros de adoecimento físico e mental. No entanto, as
organizações policiais individualizam os problemas, atribuindo ao indivíduo a
responsabilidade por seu adoecimento ou violência auto infligida, como no caso
dos suicídios. Erro recorrente nas forças policiais”, lamenta o médico.
O policial muitas vezes é vítima duas vezes
Não é incomum relatos de policiais que apresentaram doenças mentais às suas
corporações e foram penalizados. Em vários casos, os agentes optam por não relatar
o transtorno para não perder o porte de armas ou até mesmo o emprego dentro da
corporação.
Policiais militares do estado de São Paulo,
por exemplo, relataram descaso da corporação em relação a problemas de saúde mental.
Muitos informaram haver desconfiança por parte das chefias, recusa de licenças
médicas e até casos de oficiais que procuraram a Justiça para comprovar que
estão doentes e obter o afastamento.
"Infelizmente
ainda existe um estigma dentro das corporações com relação os distúrbios mentais.
Ainda existe muita resistência interna. Têm muitos policiais que acham que o
outro está fingindo, tem muito comandante e delegado que acha que esse tipo de
doença é frescura, que o policial está dando desculpa para não voltar para o
trabalho, que na verdade ele quer pegar uma licença remunerada e trabalhar em
outras coisas. Fato é que a
permanência desses
agentes doentes no serviço, apesar da indicação de afastamento, traz riscos
para a população”, alerta Pacheco.
Promover um programa de saúde mental nas
corporações policiais é urgente!
A prevenção é fundamental
quando o assunto é suicídio, também nas forças policiais.
“Essa prevenção precisa
acontecer em três níveis. Primeiro, com os policiais, fazendo ações de
conscientização sobre a saúde mental. Em seguida, oferecendo um olhar mais
atento para os policiais que já demonstraram algum sinal de alerta ou passaram
por situações difíceis (estresse contínuo, perdas na família ou de colega muito
próximo, entre outras situações). Por último, observando os policiais que já
tentaram suicídio uma ou mais vezes e buscar alternativas para contornar isso,
como pensar em tirar arma de fogo desses policiais, ter instruções de como a família
deve lidar e fornecimento de apoio pelas instituições”, afirma Dr. Ricardo
Pacheco.
O médico ressalta que as
corporações devem contar com uma estrutura consolidada de saúde mental
internamente. “Temos muitos desafios para enfrentar, tanto no sentido de
sensibilizar a tropa e os comandantes, mas também no sentido das próprias
polícias terem um serviço estruturado e cultura de dados que lhes permita
conhecer melhor esse fenômeno no seu interior institucional”, completa.
A Oncare Saúde mantém o Programa Bem-Estar
Emocional, um canal de atendimento focado no suporte para situações de crise,
com o objetivo de ajudar na motivação e crescimento, onde os trabalhadores são
atendidos por um psicólogo qualificado, que trabalhará aspectos e
características como autoconhecimento, instabilidade emocional, ansiedade,
baixa autoestima, depressão, frustração, inquietude, além de incentivar a lidar
com sentimentos negativos e falta de perspectiva.
Os psicólogos da
Oncare são qualificados para prestar todo o suporte necessário na promoção do
bem-estar emocional e da qualidade de vida dos trabalhadores, inclusive
policiais.
Lei que
prevê ações de apoio à saúde mental e de prevenção ao suicídio para
profissionais de segurança pública e de defesa social foi sancionada
A Lei 14.531/2023 foi sancionada janeiro de
2023 com três vetos.
Aprovada em dezembro pelo Congresso Nacional,
a lei amplia o Programa Pró-Vida, criado para atenção psicossocial e de saúde
no trabalho aos profissionais da segurança pública e defesa social e inclui
esses profissionais na Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do
Suicídio.
A norma prevê acompanhamento médico e
psicológico, carga horária de trabalho humanizada, política remuneratória
condizente com a responsabilidade do trabalho policial, promoção da qualidade
de vida do profissional, entre outras ações.
A
lei também estabelece atenção para os profissionais com quadro de depressão ou
ansiedade, estresse e de outras alterações psíquicas, que façam uso abusivo de
álcool e de outras drogas ou que tenham tentado o suicídio.
Autor da norma, o senador Alessandro Vieira,
do PSDB sergipano, ressaltou que o suicídio entre os policiais é oito vezes
maior do que em outras categorias.
Oncare Saúde
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