Muito se tem comentado sobre o enorme potencial petrolífero na margem equatorial do Brasil, região onde a partir do Norte, encontram-se as bacias Foz do Amazonas, Pará-Maranhão, Barreirinhas, Ceará e Potiguar. Ao que tudo indica, essa nova fronteira de exploração pode ser o novo pré-sal brasileiro, com possibilidade de produzir de 5 a 7,5 bilhões de barris de petróleo recuperáveis se considerado um fator de recuperação de 25%, ou seja, um volume inicial in situ de 20 a 30 bilhões de barris de petróleo.
Segundo os estudiosos na área, a margem equatorial
brasileira possui uma geologia semelhante a costa atlântica do norte da África,
a qual se inicia na costa nigeriana e se estende até Gana e Costa do Marfim,
onde ocorreram algumas descobertas importantes de petróleo no final dos anos
2000. A formação geológica da era cretácea (“Upper Cretaceous Age”), há cerca de 100
a 165 milhões de anos, deu origem ao sistema petrolífero existente em várias
regiões da costa atlântica africana e em regiões da costa brasileira como
Sergipe, Espírito Santo, assim como as bacias de Santos e Campos, uma vez que
nesta época, essas regiões estavam conexas.
O potencial petrolífero da margem equatorial
começou a ser materializado com a descoberta do campo em águas profundas de
Jubilee na costa de Gana em 2007, seguido de outras em regiões adjacentes e na
Costa do Marfim. Estas descobertas motivaram a ideia de que áreas
geologicamente semelhantes deste lado do Atlântico, tais como as bacias de
Para-Maranhão e Barreirinhas, também poderiam ter um potencial petrolífero
equivalente. De fato, este incrível potencial começou a ser relevado em 2011
com uma descoberta em águas profundas (2048 m de lâmina d’agua) na Guiana
Francesa, somente a 50 Km da fronteira com o Amapá. A descoberta foi resultado
da perfuração do poço Zaedyus (profundidade de 5711 metros) pela empresa Tullow
- de origem Irlandesa e com sede atualmente em Londres.
Adicionalmente, em 2015 a empresa americana
ExxonMobil iniciou suas atividades no bloco Stabroek na Gayana, onde encontrou
18 acumulações de petróleo de boa qualidade durante uma campanha de cinco anos
– e hoje, acredita-se que consiga alcançar de sete a nove bilhões de barris
equivalentes recuperáveis. Em julho deste ano, a empresa anunciou mais duas
descobertas (Seabob e Kiru-Kiru) ao Sudeste dos campos de Liza e Payara. As
unidades de produção Liza Destiny e Unity, combinadas, podem chegar até 340 mil
barris de petróleo ao dia (bpd). Um terceiro projeto denominado Payara – a
unidade produção Prosperity, com capacidade de produção de 220 mil bpd, deve
entrar em operação em 2023. Assim sendo, somente em 2022, a empresa completa
sete descobertas de um total de 25, desde que iniciou as atividades na Gyana.
E como fica o Brasil nesta história? Boas notícias
recentemente indicam que o país se mobiliza para acelerar o processo de
exploração na região da Margem Equatorial. A Petrobras anunciou
que pretende perfurar um primeiro poço com lâmina d’agua de cerca 2800
metros a 160 KM do litoral Norte do Amapá até o final de 2022. Os investimentos
previstos para exploração na região serão da ordem de US$ 2 bilhões, sendo que
este valor representa 38% do total de US$ 5,5 bilhões reservados para
atividades de exploração no plano de investimento da empresa até 2026.
A margem equatorial brasileira atraiu grande
interesse das operadoras na 11ª Rodada de Licitações de áreas de petróleo e gás
natural realizada pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e
Biocombustíveis (ANP) em 2013, quando o consórcio formado pela Total (40%), Petrobras
(30%) e BP (30%), adquiriu o direito de exploração da área pagando um bônus de
assinatura no valor de R$ 345,9 milhões. Após quase uma década perdida em
função da dificuldade de obtenção de licença ambiental para continuar a
campanha exploratória, a Total foi obrigada a desistir do projeto em 2020,
junto com a BP logo na sequência, em 2021.
Seguindo com boas notícias, no mês passado a ANP
aprovou a inclusão de 218 áreas na Margem Equatorial no regime de Oferta
Permanente, ampliando o número de áreas disponíveis de 71 para 289. Estas áreas
estão localizadas em cinco bacias sedimentares, que se estendem do litoral do
Amapá ao Rio Grande do Norte: Foz do Amazonas, Pará-Maranhão, Barreirinhas,
Ceará e Potiguar. É importante destacar que especialistas na área estimam um
potencial de 30 bilhões de barris de petróleo na região – com um volume
estimado recuperável de 7,5 bilhões de barris de petróleo – o qual poderá ser
ainda maior dependendo dos resultados da campanha exploratória e utilização de
novas tecnologias no aumento do fator de recuperação.
Os investimentos da Petrobras na região buscam
viabilizar a infraestrutura operacional, socioambiental e de comunicação para
dar início a campanha exploratória. Como consequência imediata, estes
investimentos devem movimentar toda a economia da região em diversos setores,
desde áreas de apoio marítimo e ambiental até setores como hotelaria e serviços
em geral. A decisão da Petrobras em investir em exploração na Margem Equatorial
terá uma transformação muito relevante para toda região norte do país,
transformação esta que deverá ser ainda mais significante se a empresa tiver
êxito com descobertas de petróleo e gás natural. O resultado pode transformar a
região em um “novo pré-sal brasileiro”, com benefícios incalculáveis para a
sociedade, o setor de petróleo e gás natural e para o Brasil.
Felipe Kury - ex-diretor da ANP e consultor independente.
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