Mais de 3 milhões de
criança ainda são vítimas de Trabalho Infantil no Brasil. Apesar das últimas
décadas terem registrado redução contínua, porém lenta, especialistas no tema
são unânimes ao afirmarem que é preciso unir esforços de diferentes áreas da
sociedade. Debate foi tema foi promovido pelo Programa Arise, em Seminário
ocorrido em Porto Alegre nos dias 18 e 19 de agosto.
“O
trabalho infantil é uma violação dos direitos fundamentais das crianças e
adolescentes previstos na Constituição”. A afirmação é da secretária Executiva
do Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil (FNPETI), Isa
de Oliveira. Conforme as estatísticas da Pesquisa Nacional por Amostra de
Domicílios (PNAD) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, em
2014, havia 41,1 milhões de crianças no Brasil, entre as quais 3,3 milhões
(8,1%) eram ocupadas. No entanto, de 1992 a 2015, houve uma redução contínua e
lenta no número de trabalhadores infantis. A projeção é de que, em 2020,
aproximadamente 1,9 milhão deste público ainda esteja na prática
produtiva.
Conforme
os dados apresentados por Isa, a Região Sul está em primeiro lugar em número de
crianças trabalhando, com 10,2%, índice superior à média nacional. O Rio Grande
do Sul é o quarto estado no número de casos de trabalho infantil (10,7%).
“Crianças e adolescentes estão deixando de estudar para poder trabalhar”,
afirma.
Já
a Juíza do Trabalho do Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região (RS), Andréa
Sain Pastous Nocchi, aponta para uma grande dificuldade na coleta de dados
sobre o problema, assim como relaciona este ao trabalho escravo, à falta de
políticas públicas, à violência e à educação precária. Segundo ela, a
aprendizagem é um fator importante para a redução do trabalho infantil, mas não
é o único. Ela deve andar junto às políticas públicas e ao envolvimento da
família. Andréa ressalta o fato de que o Brasil não conseguiu atingir a meta de
erradicar as piores formas de crianças e adolescentes em atividades produtivas
até 2015, assim como havia se comprometido. Ela ainda defende que o objetivo só
será alcançado com investimentos na educação.
A
EDUCAÇÃO COMO FERRAMENTA PARA ERRADICAÇÃO DO TRABALHO INFANTIL – A doutora em Economia
Aplicada pela University of Minessota e Pós-Doutorada em Ciências Sociais
Aplicada na Inglaterra e Estados Unidos, Ana Lúcia Kassouf resgata o histórico
do trabalho infantil no Brasil, que começou na escravidão e se consolida na
Revolução Industrial. Conforme ela, nos anos 90, começa o processo de redução
do trabalho infantil em virtude do aumento do número de crianças na escola e da
renda familiar. Já Tânia Fortuna, coordenadora Geral do Programa de Extensão
Universitária “Quem quer brincar”, da Faculdade de Educação da Universidade
Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) defende que o brincar é um direito da
criança e um fator importante para o seu desenvolvimento. Segundo ela,
transformações podem ocorrer através das práticas pedagógicas lúdicas.
O
ministro do Superior Tribunal do Trabalho, Lelio Bentes Corrêa, também defende
a educação de qualidade e o respeito aos direitos humanos como ferramentas
fundamentais para combater o trabalho infantil no Brasil. “Não se combate o
trabalho infantil só com medidas imediatas. É fundamental que se invista em
educação de qualidade, que se assegure a permanência destas crianças e
adolescentes na escola e que elas tenham o direito a sua formação profissional,
que está prevista na Constituição brasileira”, defende. O Brasil é o terceiro
país do mundo em evasão escolar. Para o ministro, os fatores econômicos,
diretamente relacionados ao trabalho infantil, ganham mais força em épocas de
crise. “Mais influente que o fator cultural, é o econômico. É necessário
assegurar às famílias condições de emprego e renda para que elas possam ser agentes
de resgate da sua própria cidadania”, frisa.
TRABALHO
INFANTIL NA AGRICULTURA FAMILIAR – A perspectiva do trabalho
infantil na agricultura familiar aponta para a necessidade de
Políticas Públicas que tratem o meio rural igual ao meio urbano. Entre os
desafios apontados por ele estão um projeto de vida com qualidade e felicidade
para o jovem rural e fazer com que os adolescentes “tomem gosto” pela
agricultura. O professor e pesquisador da UFRGS, Sergio Schneider,
aponta para diversos aspectos, entre eles, a necessidade de se continuar a
reflexão da temática do trabalho infantil na agricultura
familiar e os avanços no entendimento do que é trabalho neste setor.
Schneider fez relação entre trabalho infantil e vulnerabilidade social, assim
como aponta a necessidade do cumprimento da legislação de maneira global. E,
ainda, defende que é preciso que as escolas urbanas abordem a agricultura
familiar, com espaço de valorização e uma integração entre campo e cidade.
TRABALHO
E ARTE – Já a advogada, mestre e doutoranda
em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo, Sandra Cavalcante, aponta para
as características do trabalho infantil artístico, mostrando os impactos que
sua prática tem na vida das crianças, como a baixa no rendimento escolar e a
mudança na convivência com os colegas. Segundo a pesquisadora, hoje não há uma
regulamentação própria para o trabalho infantil artístico, o que faz com o que
a criança fique sem proteção nesta atividade. “Atualmente, para que as crianças
possam trabalhar no meio artístico é necessária apenas uma autorização
judicial. No entanto, é preciso impor restrições”, afirma.
ARISE,
UM PROGRAMA COM BONS RESULTADOS
– São 2.230 crianças e adolescentes atendidos, mais de 600 mães treinadas para
comercialização de panificação e compotas, 194 jovens (14 a 17 anos) formados e
520 professores capacitados. Estes números comprovam a transformação que o
Programa Alcançando a Redução do Trabalho Infantil pelo suporte à Educação
(ARISE) vem promovendo, desde 2012, nos municípios de Arroio do Tigre, Ibarama,
Lagoa Bonita do Sul e Sobradinho, na Região Centro Serra do Vale do Rio Pardo,
no Rio Grande do Sul.
Desenvolvido
em parceria pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), ONG Winrock
Internacional (WI) e Japan Tobacco International (JTI), disponibiliza, no turno
inverso ao das aulas, oficinas de Artes, Artesanato, Pintura, Violão, Idiomas,
Educação Ambiental, Reforço Escolar e Informática. Além disso, mantém o Centro
de Formação do Jovem Rural, em Arroio do Tigre, com cursos técnicos de
qualificação. “Com o programa queremos rever conceitos para gerar mudanças.
Isso é fundamental. Mentes abertas para fazer a diferença”, destaca o diretor
de Assuntos Corporativos e Comunicação da JTI, Flávio Goulart.
Os
bons resultados alcançados pelo Programa, que tem o apoio de diversas entidades
e das prefeituras locais, estão registrados nos relatórios anuais, bem como no
site oficial da iniciativa (www.ariseprogram.org). Conforme a diretora do Arise e
coordenadora da ONG Winrock, Luísa Siqueira, para o início das atividades do
programa foram realizadas pesquisas junto às comunidades alvo. As oficinas, as
capacitações e todas as ações são realizadas conforme a realidade de cada
localidade. “Todo o levantamento leva a um trabalho desenvolvido em cima de
três pilares: educação, conscientização e sustentabilidade”, ressalta.
Neste sentido, a conscientização sobre o trabalho infantil ganhou destaque com
a produção de um programa de rádio semanal, numa emissora local, produzido
pelos próprios participantes e focado na divulgação das atividades e sobre os
conceitos relacionados ao tema do trabalho infantil.
A
oficial de Projetos da OIT, Márcia Soares, destacou que a educação é o foco
principal do Arise. “A escolarização é apenas um momento e a educação de forma
integral e contextualizada é um direito fundamental. Por isso, reter a criança
e o adolescente na escola é o caminho para combater e erradicar o trabalho
infantil”, frisa.
A problemática do trabalho infantil no Brasil foi
debatida, no Plenário do Tribunal Regional do Trabalho (TRT), em Porto Alegre,
nos dias 18 e 19 de agosto. O Seminário ARISE – Trabalho Infantil:
Desafios e Superações foi promovido pela Organização
Internacional do Trabalho (OIT), pela ONG Winrock Internacional (WI) e Japan
Tobacco International (JTI).
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