Seis em
cada dez famílias da capital mineira começaram 2026 com contas atrasadas;
endividamento também volta a subir no País
A capital de Minas
Gerais, Belo Horizonte, é, hoje, a mais inadimplente do Brasil, apontam os
números da Radiografia
do Endividamento de 2026, estudo realizado pela Federação do Comércio de Bens,
Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP). Seis
em cada dez famílias da cidade (65%) tinham uma conta vencida no início de 2026
— bastante à frente de outras quatro capitais que completam o ranking: Manaus
(AM), onde 49% dos lares estavam inadimplentes, Fortaleza (CE), com 48%,
Goiânia (GO) e Distrito Federal, 42%.
Belo Horizonte, na
verdade, vê seu indicador aumentar a cada ano: no fim de 2023, a porcentagem de
famílias nessa condição era de 50% na cidade. Um ano depois, chegou a 55% e,
agora, subiu 10 pontos porcentuais (p.p.) [tabela 1].
Em Manaus, ao
contrário, a taxa era de 51% em 2023, regrediu para 41% um ano depois e, agora,
voltou a subir significativamente. Em Goiânia, a margem permaneceu estável nos
dois anos de análise.
Do lado oposto,
João Pessoa (PB) é a capital brasileira menos inadimplente: só 12% das famílias
estavam com dívidas vencidas no começo do ano. A cidade está perto da situação
de Curitiba (PR), com 14% de lares nessa condição, Belém (PA) e Cuiabá (MT),
com 16%, e São Paulo (SP), com 20%.
Na média do País, quase um terço (29%)
das famílias entrou em 2026 com ao menos uma dívida em atraso.
Na leitura da FecomercioSP, embora a média
indique certa estabilidade, algumas capitais — como Belo Horizonte — já vivem
uma situação grave. Se o crédito ocupa lugar central no orçamento doméstico das
famílias brasileiras, os dados apontam para uma centralidade ainda mais
decisiva dessa modalidade na composição da renda dos lares, o que, no futuro,
pode levar à deterioração financeira nesses lares.
[TABELA
1]
Famílias
com dívidas atrasadas nas capitais brasileiras (%)
Fonte:
FecomercioSP.
Ainda segundo a FecomercioSP, embora tenha havido
certo equilíbrio na renda das famílias brasileiras em 2025, a expansão das
dívidas cresceu na mesma magnitude, o que deve pressionar a capacidade de
pagamento de suas despesas no futuro próximo. Não sem razão, o governo oferece
como alternativa uma nova moldura para o programa Desenrola.
Mais gente
endividada
Os dados da Radiografia do
Endividamento de 2026 também mostram que a quantidade de famílias com dívidas
voltou a subir no Brasil: de 78% em 2023, diminuiu para 76% em 2024 e, agora,
chegou a oito em cada dez lares (80%). Da mesma forma, as situações mais
preocupantes ocorrem em capitais como Belo Horizonte (MG) e Fortaleza (CE),
além de Vitória (ES) e Rio de Janeiro (RJ) [tabela 2].
[TABELA
2]
Famílias
com dívidas nas capitais brasileiras (%)
Fonte:
FecomercioSP
Na contramão,
estão capitais bastante diferentes entre si, como Macapá (AP) e São Paulo (SP),
ambas com 69% de famílias endividadas. Enquanto a primeira é uma cidade de
menor porte, com aproximadamente 500 mil habitantes, a outra é a maior
metrópole do País e da América do Sul. Esse ranking tem ainda Campo Grande (MS)
e Belém (PA), com 70% de endividamento, e Florianópolis (73%).
Entretanto, em
dados absolutos, a capital paulista é a que reúne mais famílias nessas circunstâncias:
são 2,87 milhões de lares, muito à frente do Rio de Janeiro (RJ), com 2,09
milhões, e do Distrito Federal (DF), com 779,7 mil.
Considerando que o
Brasil
ganhou 1 milhão de novas famílias endividadas nesse período (de
11,98 milhões em 2023 para 12,96 milhões atualmente), é possível dizer que o
fenômeno é mais generalizado do que demográfico, embora os efeitos estejam
espalhados de formas distintas pelas capitais. Trata-se de uma expansão que
pressiona o sistema de crédito do País, colocando o futuro próximo sob risco.
Inadimplência
explode em João Pessoa e regride em Boa Vista
Mesmo que a
capital paraibana ainda seja a menos inadimplente do País, a situação
deteriorou-se nos últimos dois anos na cidade — em 2023, apenas 5% das famílias
tinham dívidas atrasadas, taxa que foi para 12% no fim de 2025. O salto foi de
151%, segundo os dados da Radiografia do Endividamento [tabela 3].
[TABELA
3]
Maiores
variações dos indicadores por capitais brasileiras (%)
Fonte:
FecomercioSP.
[TABELA
4]
Menores
variações dos indicadores por capitais brasileiras (%)
Fonte:
FecomercioSP.
Nenhuma outra
metrópole brasileira teve uma elevação tão expressiva. Goiânia (GO), na segunda
posição, viu sua taxa de inadimplência crescer 41% ao longo desse período,
enquanto Florianópolis teve aumento de 38%.
Por outro lado,
Boa Vista (RO), diminuiu a proporção de inadimplentes em 26%, enquanto Porto
Alegre (RS) registrou queda de 22% [tabela 4].
Diante dos dados,
a FecomercioSP entende ser
importante fortalecer as políticas de educação financeira da população, conscientizando
as famílias sobre os usos do crédito e quanto à organização mais adequada do
orçamento doméstico. O cenário de endividamento — e inadimplência, sobretudo —
é prejudicial para o consumo e, de certa forma, para a economia do Brasil.
Evitar a deterioração desse quadro é essencial.
Desenrola 2.0 tem
limitações estruturais
Embora o Novo
Desenrola Brasil busque ampliar o acesso à renegociação de débitos,
principalmente modalidades como cartão de crédito, cheque especial, crédito
pessoal e o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), há elementos que sugerem
limitações relevantes quanto à sua efetividade.
O ambiente
econômico é o principal desafio: juros elevados, inflação persistente e alta
carga tributária, que mantêm consumidores perto do limite financeiro e
dificultam soluções duradouras para a alta inadimplência, sobretudo em certas
capitais.
Apesar de ter
proporcionado um nível razoável de renegociação, o programa de 2024 tinha
limitações que restringiram a adesão e sua capacidade de resolver, de forma
estrutural, a situação, como o acesso difícil à plataforma Gov.br, ou a
concorrência com feirões de negociação já consolidados e a restrita capacidade
de pagamento da população, mesmo diante de descontos expressivos.
Há, agora,
mudanças relevantes, como a comunicação direta entre consumidor e instituição
financeira, sem necessidade de intermediação do Gov.br. Contudo, o governo passa a
atuar como garantidor desse crédito, por meio do Fundo de Garantia de Operações
(FGO).
Caso o inadimplente deixe de pagar o valor renegociado, o Poder Público cobre o
não pagamento. São R$ 2 bilhões iniciais, com potencial de ampliação para até
R$ 5 bilhões mediante autorização do Executivo, além de outros R$ 8 bilhões de
recursos atualmente parados no sistema financeiro. Em outras palavras, a
sociedade, de alguma forma, participa do financiamento do programa.
O uso do Fundo de
Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para quitar dívidas também pode gerar alívio
imediato, mas não é solução para o desequilíbrio estrutural das contas, podendo
resultar em inadimplência posterior, mas com menor proteção financeira.
Outro ponto
importante é a restrição, por 12 meses, do acesso a plataformas de apostas
online para participantes do programa. Ainda que a medida dialogue com
preocupações legítimas sobre o comprometimento da renda com jogos, pode
desestimular uma adesão de parte do público-alvo diante da percepção de que
novos programas de renegociação surjam no futuro.
FecomercioSP
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