Especialistas alertam para sinais que vão do baby
blues à depressão pós-parto e à psicose puerperal, condição rara e que demanda
atendimento imediato
O
nascimento de um bebê costuma ser cercado por expectativas de felicidade e plenitude,
mas o puerpério também pode ser um período de intensa vulnerabilidade
emocional. Alterações hormonais, privação de sono, exaustão física, adaptação à
nova rotina, dificuldades na amamentação e a pressão social em torno da
maternidade podem impactar de forma importante a saúde mental da mulher. Embora
a depressão pós-parto seja o quadro mais conhecido, ela não é o único. O
período após o nascimento também pode incluir manifestações como o baby blues,
transtornos de ansiedade e, em situações mais graves, a psicose puerperal. A
Organização Mundial da Saúde informa que cerca de 13% das mulheres no pós-parto
apresentam algum transtorno mental, principalmente depressão.
Esse
dado reforça que o tema precisa ser tratado como uma questão de saúde pública, com
orientação qualificada, acolhimento e diagnóstico oportuno. Quando o sofrimento
psíquico não é reconhecido, pode haver impacto sobre o bem-estar materno, o
vínculo com o bebê, a rotina familiar e a capacidade de recuperação da mulher
no pós-parto. Além disso, o atraso no diagnóstico pode agravar quadros que
evoluem de forma rápida e necessitam de intervenção especializada.
Uma
das manifestações mais frequentes após o parto é o chamado baby blues, condição
marcada por choro fácil, sensibilidade aumentada, irritabilidade, oscilação de
humor e sensação de sobrecarga nos primeiros dias depois do nascimento. Apesar
de comum, ele costuma ser transitório e tende a melhorar em até duas semanas. O
NHS destaca que sentir-se triste, ansiosa ou irritada por alguns dias após o
parto é algo comum, mas que a persistência ou piora dos sintomas exige atenção.
“Durante
muito tempo, o sofrimento emocional no pós-parto foi reduzido a uma ideia de
fragilidade passageira, quando, na verdade, pode envolver quadros psíquicos importantes
e que exigem acolhimento, escuta qualificada e acompanhamento profissional. É
fundamental que a mulher encontre um ambiente seguro para falar sobre medo,
angústia, tristeza, exaustão e desconexão, sem culpa e sem julgamento”, afirma
Eduardo A. Amaro, psicólogo e coordenador do núcleo de Saúde Mental do Hospital
e Maternidade Santa Joana
Já
a depressão pós-parto é mais intensa, persistente e incapacitante. Entre os
sinais mais relatados estão tristeza frequente, desesperança, irritabilidade,
culpa excessiva, sensação de incapacidade, perda de interesse nas atividades do
dia a dia, dificuldade para dormir mesmo quando há oportunidade de descanso,
ansiedade constante e dificuldade de conexão com o bebê. Em casos mais graves,
podem surgir pensamentos de autolesão ou de machucar o bebê, o que demanda
busca imediata por ajuda.
“A
depressão pós-parto não é sinal de fraqueza, ingratidão ou falta de vínculo com
o bebê. Ela é um quadro de saúde mental que pode comprometer profundamente o
bem-estar da mulher e de toda a dinâmica familiar. Quanto mais cedo os sinais
são percebidos, maiores são as chances de cuidado adequado, recuperação e
preservação da saúde materna”, diz Eduardo A. Amaro.
Outro
ponto importante é que o sofrimento emocional no pós-parto nem sempre se
apresenta apenas como tristeza. Há mulheres que desenvolvem quadros ansiosos
importantes, com medo constante, hipervigilância, sensação de estar sempre em
alerta, crises de choro, taquicardia, insônia e pensamentos repetitivos de que
algo ruim vai acontecer com o bebê. Por isso, especialistas defendem que a
escuta clínica no puerpério seja mais ampla e inclua diferentes manifestações
da saúde mental materna. O NHS ressalta que a depressão pós-parto pode vir
acompanhada de medo, ansiedade, irritabilidade e dificuldade para lidar com a
rotina, o que ajuda a entender por que nem sempre o quadro se expressa apenas
como tristeza.
A
psicose puerperal, embora rara, é o quadro mais grave da saúde mental pós-parto
e pode surgir nas primeiras semanas após o nascimento, com sintomas como
delírios, alucinações e perda de contato com a realidade, exigindo atendimento
imediato. Especialistas reforçam que qualquer alteração emocional significativa
no puerpério, seja um baby blues prolongado, ansiedade intensa, sinais
de depressão ou manifestações psicóticas, deve ser reconhecida e tratada o
quanto antes. Ao menor sinal de sofrimento acentuado, é fundamental buscar
ajuda profissional para proteger a mãe e o bebê.
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