No campo da saúde, algumas intervenções ganham certos rótulos que acabam por acompanhar gerações, ainda que o avanço das tecnologias e das técnicas médicas transforme completamente o cenário. Um exemplo dessa rotulagem é a afirmação, compartilhada entre parentes ou outro círculo de contatos por tantos anos, de que “a cirurgia de hemorroida dói demais”. Por causa dessa frase, ainda nos dias de hoje, muitas pessoas convivem por anos com sangramento, crises de dor e aquele incômodo diário ao evacuar, além da dificuldade de fazer higiene, adiando a ida ao médico por medo. Acontece que a história mudou.
Atualmente, o tratamento das hemorroidas conta com técnicas cirúrgicas que usam tecnologias que reduzem bastante a dor pós-operatória, aceleram a recuperação e permitem voltar à rotina mais cedo. E quanto mais cedo o problema é tratado, mais simples costuma ser a solução. A evolução permitiu à medicina mais de uma opção de tratamento, o que contribui para que o paciente supere medos, velhos rótulos e sane o que tanto o incomoda.
Antes de
destacar essa evolução, é importante aprofundar entendimentos. As hemorroidas
são vasos sanguíneos que todos nós temos na região do ânus. Elas viram um
problema quando incham, sangram, saem para fora (o chamado prolapso) ou formam
coágulos. Esse quadro é chamado de doença hemorroidária, e é muito comum.
A cirurgia tradicional, chamada hemorroidectomia, retira as hemorroidas com um corte e deixa feridas abertas numa região muito sensível e que é usada todos os dias para evacuar. Por isso, por muito tempo, o pós-operatório foi realmente difícil para milhares de pessoas.
Ela ainda é uma técnica importante e, em alguns casos, a melhor indicação. Contudo, hoje ela não é mais a única opção, e mesmo quando é necessária pode ser feita com recursos que tornam a recuperação muito mais confortável.
Entre as tecnologias que mudaram o tratamento está a ligadura elástica, que é uma das técnicas mais usadas no mundo para tratar hemorroidas internas em fase inicial. Com um aparelho específico, o médico coloca um pequeno elástico na base da hemorroida. Sem receber sangue, ela murcha e cai sozinha em poucos dias, geralmente junto com as fezes, sem que o paciente perceba. No lugar, forma-se uma pequena cicatriz que ajuda a manter o tecido firme.
Como é aplicada numa parte do reto que tem pouca sensibilidade à dor, a ligadura costuma causar apenas uma sensação de peso ou desconforto leve e passageiro, somente nos primeiros dias. O paciente rapidamente retorna às atividades de rotina. Esse é o tipo de tratamento que se torna possível quando o paciente procura ajuda cedo.
Outra opção de tratamento é com o laser de diodo, uma fibra muito fina que leva energia de luz até o interior da hemorroida. Essa energia gera calor controlado, que "seca" e retrai o tecido doente de dentro para fora. Com o tempo, a hemorroida diminui de tamanho e se fixa de volta ao seu lugar. Esse é um procedimento minimamente invasivo, sem grandes feridas abertas. Estudos que reuniram centenas de pacientes mostraram que quem foi tratado com laser teve menos dor já no primeiro dia e na primeira semana, usou menos analgésicos e voltou mais rápido à rotina. O laser funciona especialmente bem nas hemorroidas internas em fases iniciais e intermediárias (graus II e III).
A terceira opção de tratamento que a medicina hoje oferece para as hemorroidas é a radiofrequência, por meio de ondas de energia, aplicadas com uma agulha fina diretamente na hemorroida, para gerar calor. O efeito é parecido com o do laser: o tecido cicatriza por dentro, a hemorroida encolhe e volta a ficar firme no lugar, sem que seja preciso retirar a pele da região. A técnica preserva os tecidos saudáveis ao redor, provoca menos feridas e menos cuidados locais, o que também favorece uma rápida recuperação. É uma boa opção para hemorroidas internas que sangram ou saem para fora, especialmente em estágios iniciais e intermediários.
O leque de opções de tratamento não para por aí. O laser de CO2, com corte extremamente preciso, que vaporiza o tecido com pouco dano ao que está ao redor e ajuda a controlar pequenos sangramentos, tem sido bastante utilizado para retirar plicomas, aquelas pequenas peles que ficam do lado de fora do ânus, muitas vezes resultado de crises antigas de hemorroida, e para tratar componentes externos da doença. Já a fotobiomodulação usa um laser de baixa potência, que não corta nem queima. A luz é aplicada sobre a região tratada e estimula as células a trabalharem melhor: ajuda a reduzir a inflamação, o inchaço e a dor, e favorece a cicatrização.
Aliados às técnicas, hoje também existe um arsenal de medicamentos que, combinados, controlam a dor de forma muito eficaz, inclusive deixando o pós-operatório ainda mais tranquilo, entre analgésicos, anti-inflamatórios e anestésicos locais, pomadas relaxantes, medicamentos venotônicos, que melhoram a circulação e reduzem o inchaço e fibras e laxativos suaves, para que as fezes fiquem macias e a evacuação não machuque. Diante desse rol, é importante ressaltar que o plano de medicamentos é sempre individualizado, de acordo com o procedimento realizado e com as características de cada paciente após consulta e diagnóstico médico.
Assim
como os medicamentos podem ser complementares uns dos outros para tratamento
eficaz desse problema, as tecnologias também podem ser combinadas. Um mesmo
paciente pode, por exemplo, tratar as hemorroidas internas com laser de diodo
ou radiofrequência, retirar um plicoma externo com laser de CO2, fazer sessões
de fotobiomodulação para acelerar a cicatrização e seguir um protocolo de
medicamentos e cuidados com a pele para ter um pós-operatório tranquilo.
A escolha da estratégia depende do tipo de hemorroida, do grau da doença, dos sintomas e das expectativas de cada pessoa. Por isso, a avaliação com o coloproctologista é o primeiro e mais importante passo.
Quando a doença hemorroidária é tratada logo no início dos sintomas, as chances de resolver o problema com técnicas menos invasivas são muito maiores. Já quando o paciente adia por anos, as hemorroidas tendem a crescer, sair para fora com mais frequência e formar plicomas. Nesses casos, o tratamento pode precisar ser mais amplo.
Por essa razão, os sinais que o corpo dá não devem ser desprezados. Até porque outras doenças, inclusive o câncer colorretal, podem causar sintomas parecidos. Só a avaliação médica consegue diferenciar. Sangue nas fezes ou no papel higiênico, dor, ardor ou coceira anal frequentes, sensação de "bolinha" ou caroço no ânus, algo que sai pelo ânus ao evacuar ou fazer esforço ou ainda sensação de evacuação incompleta são alguns dos alertas que o corpo dá. Nesses casos, o medo já não pode mais ser obstáculo para procurar um médico.
A medicina evoluiu e hoje tudo ficou mais fácil. Com as tecnologias certas e um protocolo bem planejado, é possível tratar o problema com dor controlada, recuperação mais rápida e resultados que devolvem qualidade de vida.
Fernando
Bray - médico, especialista em gastroenterologia cirúrgica e coloproctologia em
São Paulo. Doutor e Mestre em Ciências da Saúde
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