Além dos 34,8% que encontram dificuldades na
formação dos líderes, há 17,4% que veem impasse na adaptação de políticas
internas
Há
cerca de três meses, entrou em vigor a atualização da NR-1, determinação que
passou a exigir a inclusão dos riscos psicossociais no gerenciamento
ocupacional das organizações. Devido às dificuldades das empresas de se
adequarem à nova norma, houve uma suspensão temporária das multas e penalidades
aplicadas pelo Ministério do Trabalho. Nesse contexto, a EXEC, consultoria em
recrutamento de executivos, realizou um levantamento para identificar quais são
os maiores desafios para adequação à norma, e constatou que para a maioria,
34,8% o ponto principal é a capacitação de lideranças.
Para
Camila Marion, sócia da EXEC, a atualização da NR-1 expõe lideranças que não
querem mudar a forma de conduzir seus times. "Esse público envolve líderes
que atuam em ambientes onde ainda se normalizam práticas como
microgerenciamento, metas desconectadas da realidade, comunicação inadequada e
cobrança baseada em desgastes contínuos. Por isso, a capacitação nunca foi tão
importante, com a realização de treinamentos, mentorias, feedbacks e
alinhamento com a cultura organizacional", diz.
Marion
afirma que, infelizmente, o mercado ainda recompensa líderes que entregam
resultados às custas do desgaste de suas equipes, mas o modelo deve ser ainda
mais questionado com o fortalecimento da NR-1. "A tendência é que essa
tolerância diminua à medida que aumente a compreensão dos impactos desses
comportamentos e as exigências regulatórias e reputacionais. E as lideranças
precisam estar conscientes disso."
Um
dos respondentes da pesquisa afirma que o desafio é “conscientizar a liderança
que a responsabilidade é compartilhada e não apenas dos profissionais de RH”, o
que confirma a percepção de que o tema deve ser transversal, percorrendo desde
os cargos diretores até os times liderados.
Os
demais desafios identificados no levantamento incluem: adequação das políticas
e procedimentos internos, com 17,4%; comunicação das mudanças para os
colaboradores, 13%; e coordenação com Segurança do Trabalho, 8,7%. Para 26,1%,
não houve desafios notáveis.
Aplicação da norma em diferentes setores
Contudo,
a depender da área de atuação da empresa, há desafios específicos que precisam
ser coordenados. Outro respondente, por exemplo, afirmou que a dificuldade é
fazer a “liderança do ‘chão de fábrica’ entender a importância da segurança
psicológica e o que assédio moral tem a ver com a NR-1”.
A
partir de uma análise qualitativa do levantamento, a EXEC observa que empresas
ligadas ao varejo tendem a ser impactadas por fatores como o grande número de
colaboradores, diferentes unidades e equipes heterogêneas, o que dificultaria a
aplicação de treinamentos. Já para o setor industrial os desafios seriam a
integração com Segurança do Trabalho, documentação e a aplicação das normas no
“chão de fábrica”.
Em
empresas de serviços e tecnologia, o gargalo está em cultura e comunicação, ou
seja, a habilidade de conseguir integrar novos hábitos à rotina dos
colaboradores no dia a dia corporativo. No setor financeiro, por sua vez, os
pontos de maior atenção são governança, risco e modelo de gestão.
Uma vez que cada área de atuação tem demandas específicas quanto aos riscos psicossociais, é necessário olhar atento para que a postura das organizações em tornar a aplicação da NR-1 não seja apenas um checklist de compliance. “Provavelmente esse será um dos grandes desafios que vamos enfrentar. Muitas organizações podem enxergar a norma apenas como uma obrigação regulatória e focar na produção de documentos, políticas e evidências para a fiscalização. O problema é que riscos psicossociais não desaparecem por apenas estarem registrados em uma planilha", pontua.
Doenças mentais atingem cada vez mais os colaboradores
Enquanto
as empresas ainda encontram percalços para preparar suas lideranças para essa
nova realidade, os casos de adoecimento mental seguem disparando. Somente em
2025, a Previdência Social concedeu mais de 500 mil afastamentos remunerados
por incapacidade temporária ligados a transtornos mentais e comportamentais,
segundo o órgão. O volume de concessões de benefícios ligados a esses problemas
de saúde saltou 134% no último biênio, segundo dados da Organização
Internacional do Trabalho (OIT), agência da ONU, e da SmartLab.
Camila
Marion afirma que o impacto de fatores como metas, pressão, sobrecarga de
trabalho, qualidade da liderança, comunicação, desenho de processos e cultura
organizacional, afetam não somente o colaborador, mas também a performance da
instituição. “As empresas estão percebendo que ambientes psicologicamente
saudáveis não são apenas uma questão de responsabilidade social, mas também de
competitividade. Se a organização não identificar, avaliar e gerenciar os
riscos ocupacionais, incluindo os psicossociais, poderá sofrer autuações dos
órgãos fiscalizadores, além de aumentar sua exposição a passivos trabalhistas e
previdenciários".
Segundo
a executiva, a cobrança por resultados continuará existindo, mas cresce a
necessidade de equilibrar performance e sustentabilidade. “As lideranças serão
cada vez mais avaliadas não apenas pelo que entregam, mas também pela forma
como conduzem as equipes e pelos impactos que geram no ambiente de trabalho. O
líder do futuro será reconhecido não apenas pelo resultado que entrega, mas
pelo legado humano que deixa na equipe", finaliza.
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