No Dia Internacional do Café (1/10), estudo mostra que a forma como o grão é seco pode interferir no aroma, no sabor e na qualidade da bebida
O café está presente na rotina de praticamente
todo brasileiro. Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), a
bebida faz parte de 98% dos lares do país. Em 2025, o consumo interno chegou a
21,4 milhões de sacas, o equivalente a cerca de 1,4 mil xícaras por pessoa ao
ano.Mas, antes de chegar à xícara, o café passa por uma série de etapas que
ajudam a definir seu aroma, sabor e qualidade. Entre elas está a secagem, um
processo que pode alterar a composição química dos grãos e, consequentemente,
as características percebidas na bebida.
Foi justamente essa relação que motivou
a pesquisa “Impacto do tipo de secagem na composição volátil dos grãos de café
conilon”, desenvolvida por Diego Righi Benedicto, pesquisador e
professor de Nutrição da Afya Centro Universitário Itaperuna. O estudo
investigou como diferentes formas de secar o café podem modificar os compostos
responsáveis por suas características sensoriais.
A escolha do café
como objeto de estudo também é resultado da trajetória acadêmica do professor,
que já havia desenvolvido trabalhos relacionados à ciência dos alimentos,
fermentação e bebidas durante a graduação. Segundo Diego, a experiência com
diferentes áreas ajudou a construir o caminho até a pesquisa sobre o café. “Ao
final, eu não tinha aprendido apenas sobre café, mas também sobre
microbiologia, fermentação, processamento, análise de alimentos e sobre a
própria rotina de condução de uma pesquisa experimental”, relata.
Descobertas
Para investigar
como o processamento após a colheita pode influenciar o café, o professor Diego
Righi e sua equipe analisaram grãos de conilon da variedade Vitória, cultivados
em Muqui, no Espírito Santo. Os pesquisadores dividiram as amostras em três
grupos. Uma parte foi preparada naturalmente ao sol, em um terreiro suspenso.
Outra passou por um equipamento com ar quente, mantido a 35 °C. A terceira foi
submetida a um secador a lenha, com fogo direto e temperaturas entre 50 °C e 60
°C.
Depois, os cafés
foram comparados para identificar possíveis diferenças. A equipe avaliou tanto
a composição dos grãos quanto características percebidas durante a degustação,
como aroma, sabor e qualidade da bebida. Os resultados mostraram diferenças
significativas. O café preparado ao sol, no terreiro suspenso, alcançou 81,1
pontos e foi classificado como Fino. A amostra submetida a 35 °C
obteve 79,96 pontos, recebendo a classificação Premium. Já aquela
exposta a temperaturas entre 50 °C e 60 °C marcou apenas 38 pontos e apresentou
características negativas na avaliação sensorial.
Segundo Diego, os
resultados indicam que não é apenas a temperatura que influencia a qualidade. O
ambiente e a forma como o calor é aplicado também podem interferir nas
características finais da bebida. “Um dos achados que mais chamou nossa atenção
foi o impacto da secagem com fogo direto. A exposição à fumaça, à fuligem e aos
compostos formados durante esse processo esteve associada a uma perda
expressiva da qualidade do café.”
As análises
químicas ajudaram a explicar essas diferenças. Os pesquisadores identificaram
32 compostos voláteis, substâncias que contribuem para a formação dos aromas e
de outras características da bebida. “Conseguimos relacionar condições
específicas de processamento com mudanças na composição volátil e com
diferenças percebidas diretamente na bebida”, explica o professor.
Da universidade para
o campo
O estudo mostra
como a pesquisa pode contribuir para aprimorar processos e gerar resultados que
chegam ao campo. “O conhecimento produzido dentro da universidade consegue
chegar a um produtor local, contribuir para melhorar seu processo e, ao mesmo
tempo, gerar resultados que interessam à comunidade científica e ao setor
produtivo”, destaca Diego.
Para o pesquisador, compreender melhor cada etapa do processamento também é uma forma de agregar valor ao café brasileiro. Para ele, não basta produzir em grande quantidade. É preciso compreender melhor a matéria-prima, aprimorar os processos e transformar conhecimento em qualidade, eficiência e valorização da produção nacional.
O trabalho recebeu menção honrosa no XII Fórum Internacional de Inovação Acadêmica do Consórcio STHEM Brasil, iniciativa que reúne instituições de ensino superior para estimular a inovação acadêmica, a troca de experiências e o desenvolvimento de novas práticas de ensino e pesquisa.

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