Não podemos mais tratar eventos climáticos extremos como acontecimentos pontuais, distantes da realidade empresarial ou como algo que, simplesmente, “acontece de tempos em tempos”. Os recentes alertas de vendavais, tornados e demais instabilidades climáticas passaram a ser variáveis que precisam entrar na gestão de riscos das organizações - não para gerar alarmismo, mas para gerar preparação, de forma que as empresas deixem de perguntar se “isso pode acontecer?”, para questionar “se acontecer, qual é a nossa vulnerabilidade, em quanto tempo conseguiremos voltar a operar, e como vamos responder?”.
Números recentes ajudam
a dimensionar essa mudança de cenário. Até o fim de julho deste ano, segundo a
Plataforma de Registro e Observadores de Tempestades Severas (Prevots), o
Brasil já havia registrado 81 tornados, quantia próxima do recorde de 92
ocorrências notificadas ao longo de todo o ano anterior. Em média, esses e
demais desastres naturais provocam perdas anuais de, aproximadamente, R$ 110
bilhões por ano ao PIB brasileiro, de acordo com o Centro Internacional Celso
Furtado (CICEF).
Os dados evidenciam que
um dos maiores erros das organizações, nesse sentido, é avaliar o risco
climático olhando apenas para dentro dos limites físicos da empresa. As
enchentes que acometeram o Rio Grande do Sul, em 2024, ressaltaram essa
questão, mostrando que uma empresa pode estar fisicamente preservada e, ainda
assim, ficar impossibilitada de operar porque uma rodovia foi bloqueada, seu
fornecedor crítico parou, não há energia, forma de comunicação, seus
colaboradores não conseguem se deslocar ou porque a infraestrutura da região
foi comprometida.
Uma gestão de risco aplicada à realidade
considera a vulnerabilidade de toda a cadeia
produtiva, e não somente da instalação em si – abrangendo questões como onde estão os fornecedores críticos; se há fornecedores
alternativos; quais rotas logísticas são utilizadas; se existe alguma
dependência energética, de água ou infraestrutura; e quanto tempo conseguem
operar sem determinado insumo, por exemplo. Até porque, os impactos gerados são
sistêmicos, não se limitando a questões financeiras.
Quanto custa perder a
confiança de um cliente porque você não conseguiu entregar? Um fornecedor
estratégico? Uma resposta inadequada diante de uma comunidade? Comprometer a
reputação construída durante anos? E, principalmente, colocar pessoas em risco
por que a organização não estava preparada? Existem perdas que um balanço
financeiro consegue registrar. Outras, não.
Toda crise acaba
testando a
governança da organização, mostrando se as responsabilidades estavam claras, se
os riscos eram conhecidos, se existiam recursos disponíveis, se a comunicação
funcionava e se as lideranças estavam preparadas para tomar decisões sob
pressão. É justamente por isso que a preparação
não deveria ser entendida apenas como custo, mas como a construção da
resiliência corporativa, transformando essa
experiência em aprendizado organizacional e prevenção.
Nesse sentido, a gestão
ambiental é um dos pontos que mais precisa evoluir. Ao invés de ser lembrada
somente quando precisam renovar uma licença, destinar um resíduo, atender uma
condicionante ou responder a uma fiscalização, precisa ser capaz de antecipar
vulnerabilidades e apoiar decisões, compreendendo
o contexto da organização, seus aspectos e impactos ambientais, obrigações e,
ao mesmo tempo, olhando para aquilo que pode afetar a capacidade corporativa de
continuar operando.
Outra ferramenta
extremamente importante capaz de ajudar as organizações a identificarem e gerenciarem
riscos ambientais de forma mais estruturada, é a ISO 14001, a qual obriga a
organização a sair da lógica de ações isoladas para estruturar um sistema de
gestão eficaz nesse sentido. Ela traduz um risco climático global para um risco
operacional que precisa acontecer, ajudando a organização a conhecer suas
vulnerabilidades, estabelecer controles, testar sua capacidade de resposta,
acompanhar resultados e melhorar continuamente.
Mas, para que atinja
esses benefícios, sua implementação precisa começar pelo mapeamento dos
processos internos, identificando onde estão seus principais aspectos e
impactos ambientais, quais são suas obrigações, quais riscos podem comprometer
suas atividades e quais controles já existem. Ainda, ser incorporada à rotina
da empresa, ao invés de ser um sistema paralelo.
A liderança também tem
papel decisivo, afinal, não existe sistema de gestão ambiental sustentável
quando o meio ambiente fica restrito ao setor responsável por isso. A alta
direção precisa compreender os riscos, participar das decisões e garantir
recursos para prevenção, preparação e resposta – compreendendo que todo risco
é dinâmico. Uma ISO 14001 realmente eficaz precisa estar viva: monitorando
indicadores, reavaliando riscos, realizando auditorias, aprendendo com as
ocorrências, revendo os planos de emergência e utilizando a análise crítica da
direção para tomar decisões.
Não podemos controlar
quando haverá uma chuva extrema, um vendaval ou uma enchente. Mas, podemos
controlar o quanto conhecemos nossas vulnerabilidades e o quanto estamos
preparados para responder. Para as empresas, essa talvez seja uma das
principais mudanças de mentalidade necessárias para os próximos anos,
construindo organizações que estejam, de fato, preparadas para lidar com essas
adversidades climáticas quando chegarem.
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