Esperança, medo, raiva e a necessidade de pertencer entram conosco na cabine eleitoral. Reconhecê-los pode ajudar a escolher com mais clareza e a preservar os vínculos depois da eleição
Vivemos mais uma vez um momento eleitoral marcado
por polarizações. Cada extremo puxa a corda para o seu lado, na esperança de
vencer. O problema é a corda romper diante de nós, comprometendo
relacionamentos e projetos. Todos perdem.
O ato de votar carrega muitas emoções diferentes, e esse invisível que move
nossas escolhas vale ser percebido com mais clareza. Não deixamos nossas
emoções do lado de fora na cabine eleitoral: elas participam de como percebemos
os acontecimentos, avaliamos informações e fazemos escolhas. Razão e emoção não
ocupam necessariamente lados opostos nessa decisão.
Podemos votar inspirados pela ESPERANÇA.
Acreditamos que o poder vai mudar de mãos, ou continuar com quem está. Temos
esperança em nossos candidatos e no futuro que desejamos, e votamos a favor,
movidos por aquilo em que acreditamos. Mas há também quem escolha movido pela INDIGNAÇÃO
ou pela RAIVA: mais do que votar em alguém, votamos contra
alguém. A rejeição ao outro candidato pode se tornar tão importante quanto a
identificação com aquele que escolhemos, às vezes até mais.
Há outras emoções no caldeirão da eleição. Uma
delas é o MEDO. Tememos que o lado rival tome o poder ou continue
nele. Tememos perder direitos, segurança, condições de vida ou valores que
consideramos importantes. Em situações mais intensas, podemos sentir que tudo
estará perdido caso o outro lado vença.
Não se trata de dividir as emoções entre boas e
ruins, mas de perceber o que acontece quando uma delas se torna tão intensa que
domina a maneira como enxergamos a realidade. Quando o medo cresce, nossa
atenção se concentra na ameaça. Quando a raiva toma conta, ainda conseguimos
escutar o que contradiz aquilo em que acreditamos?
Existe ainda outra força: a necessidade humana de PERTENCER.
Somos seres sociais, construímos identidades a partir dos grupos e valores que
compartilhamos. Na política, também surge um "nós" e um
"eles". É aí que aparece a chamada polarização afetiva, quando a
distância política passa pelo campo dos sentimentos.
Sob forte impacto emocional, prestamos mais atenção
a algumas informações do que a outras, com mais dificuldade de considerar
perspectivas que desafiam nossas convicções e as redes sociais podem acentuar
essas divisões. Nesse período delicado, vale reconhecer nossas emoções e como estamos
decodificando suas mensagens.
Eleições passam. Governos começam e terminam. Mas
continuaremos vivendo no mesmo país, encontrando pessoas que votaram diferente de nós no
trabalho, na família, entre amigos e talvez dentro de casa. Por
isso, olhar para as emoções que nos movem diante do voto não é só uma questão
política, mas também humana, que merece cuidado.
O que está me movendo nessa escolha? Esperança? Medo? Raiva? Indignação? Confiança? Rejeição? Pertencimento? Provavelmente não há uma única resposta. Somos mais complexos do que isso. E nossas escolhas também.
Deborah Dubner - psicóloga e escritora, autora de sete livros sobre autoconsciência, evolução pessoal e Psicologia, com uma boa dose de poesia. Palestrante TEDx, especialista em Neurociência e Psicologia Positiva, é também graduada em Ciência da Felicidade e professora de pós-graduação em Motivação e Resiliência.

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