A proibição das bets no Brasil pode interromper o ciclo de
perdas de milhares de apostadores, mas também traz uma preocupação sobre o
destino de quem já desenvolveu o hábito de apostar: a possibilidade de migração
para plataformas clandestinas. Para o contador, educador financeiro e autor de A Verdade
Sobre o Dinheiro, André Charone, o bloqueio das plataformas não
encerra sozinho os problemas financeiros e sociais provocados pelas apostas.
A Medida Provisória publicada pelo governo federal em 25 de
setembro proibiu a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das
apostas de quota fixa no país, incluindo apostas esportivas e jogos on-line. A
medida também determina ações de combate ao mercado ilegal.
Na avaliação de Charone, impedir o funcionamento das
plataformas regulares pode evitar novas perdas, mas não significa
necessariamente que todos os apostadores abandonarão o comportamento.
“Se uma pessoa já desenvolveu o hábito de apostar e
simplesmente perde o acesso à plataforma regular, isso não significa
necessariamente que ela vai parar. Existe o risco de buscar cassinos e sites
ilegais, onde a fiscalização é ainda menor e os mecanismos de proteção são
praticamente inexistentes”, afirma.
O risco não é apenas financeiro. Em plataformas clandestinas,
o consumidor pode ficar ainda mais exposto à falta de transparência,
dificuldades para recuperar valores e ausência de mecanismos de proteção. Desde
a publicação da MP, uma força-tarefa do governo informou ter derrubado 506
sites com indícios de oferta irregular de apostas, enquanto o Ministério da
Justiça também identificou canais que divulgavam bets e jogos de cassino
on-line.
Ao mesmo tempo, existe uma parcela da população que já chega
ao fim desse ciclo com dívidas acumuladas. Em muitos casos, o dinheiro
destinado às apostas pode ter vindo de empréstimos, cartão de crédito ou do
próprio orçamento familiar, comprometendo despesas como alimentação, moradia e
outras contas.
“A questão não termina quando a pessoa para de apostar. Se
ela já contraiu empréstimos, acumulou dívidas ou comprometeu o orçamento da
casa, será necessário um processo de reorganização financeira. E, quando existe
comportamento compulsivo, o acompanhamento psicológico também é fundamental”,
explica Charone.
Para o especialista, a resposta ao problema precisa ir além
do bloqueio das plataformas. Educação financeira, orientação às famílias,
renegociação de dívidas e atendimento especializado para pessoas que
desenvolveram comportamento compulsivo são medidas que podem ajudar na reconstrução
financeira e pessoal dos afetados.
“Não basta fechar uma porta. É preciso evitar que a pessoa simplesmente encontre outra ainda mais perigosa, e continuar cuidando de quem já foi afetado financeiramente e socialmente”, conclui.
André Charone - contador, professor universitário e mestre em Negócios Internacionais pela Must University, na Flórida (EUA), com atuação nas áreas de contabilidade, finanças e consultoria empresarial. Possui MBA em Gestão Financeira, Controladoria e Auditoria pela FGV, em São Paulo, além de certificações internacionais pela Universidade de Harvard, em Massachusetts, e pelo Disney Institute, na Flórida. É sócio do escritório Belconta – Belém Contabilidade e do Portal Neo Ensino, autor de livros e centenas de artigos na área contábil, empresarial e educacional. Seu mais recente trabalho é o livro "Empresário Sem Fronteiras: Importação e Exportação para pequenas empresas na prática", em que apresenta um guia realista para transformar negócios locais em marcas globais. A obra traz passo a passo estratégias de importação, exportação, precificação para mercados externos, regimes tributários corretos, além de dicas práticas de negociação e prevenção contra armadilhas no comércio internacional.
Disponível em versão física: https://loja.uiclap.com/titulo/ua111005/
e digital: https://play.google.com/store/books/details?id=nAB5EQAAQBAJ&pli=1
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