Parar de comer carne costuma começar com uma intenção
positiva: melhorar a alimentação, reduzir o consumo de gordura, aumentar
vegetais no prato ou simplesmente adotar um estilo de vida que faça mais
sentido.
Mas existe uma pergunta que raramente aparece nessa decisão: o que vai ocupar o lugar da proteína que saiu do prato?
A questão ganhou força depois de dois novos estudos publicados nos últimos meses. Em um deles, adultos acima dos 65 anos que adotaram uma dieta vegana por conta própria perderam massa muscular em apenas 12 semanas. Em outro, participantes mais velhos seguindo uma alimentação vegetariana conseguiram ganhar músculo e força.
A aparente contradição tem uma explicação, e talvez seja justamente a informação mais importante para quem pensa em abandonar a carne. O problema não parece ser simplesmente comer ou não comer alimentos de origem animal, mas retirar uma fonte importante de proteína sem reorganizar o restante da alimentação.
“Uma pessoa pode melhorar muito a qualidade da dieta ao
aumentar o consumo de vegetais e ainda assim terminar o dia ingerindo menos
proteína do que precisa. Uma coisa não exclui a outra”, explica o médico
nutrólogo Dr. Cláudio Mutti.
O
que aconteceu quando a carne saiu do prato
Publicado em agosto no American Journal of Clinical Nutrition, um ensaio clínico acompanhou 72 pessoas saudáveis com 65 anos ou mais durante três meses.
Parte delas manteve a alimentação onívora habitual. Outro
grupo adotou uma dieta vegana escolhendo sozinho o que comer. Um terceiro fez a
mesma mudança, mas acrescentou treinamento de força.
Entre aqueles que apenas mudaram para a alimentação vegana,
a ingestão de proteína caiu quase 28 gramas por dia nas primeiras semanas. Ao
final do período, houve redução significativa do volume muscular das coxas e de
aproximadamente 1,15 kg de massa magra nos braços e pernas. O grupo que
continuou com a dieta habitual manteve essas medidas praticamente estáveis.
É um resultado que facilmente poderia virar uma conclusão
errada: “dieta vegana faz perder músculo”. O próprio estudo conta uma história
mais complexa.
Quem retirou os alimentos de origem animal também passou a
consumir consideravelmente menos proteína. E quando os pesquisadores
acrescentaram musculação à dieta vegana, a perda muscular foi menor. Ou seja,
havia mais acontecendo naquele corpo do que simplesmente a ausência de carne.
Tirar o bife e colocar o quê?
Esse talvez seja o erro mais fácil de cometer durante uma transição alimentar. A pessoa retira carne, frango ou peixe e aumenta arroz, legumes, saladas e preparações vegetais.
O prato continua bonito. Às vezes fica até nutricionalmente melhor em vários aspectos. Mas isso não significa que a substituição tenha sido equivalente em proteína.
Feijão, lentilha, grão-de-bico, ervilha, soja, tofu e outros
alimentos podem perfeitamente participar de uma alimentação rica em proteínas.
Ovos e laticínios também permanecem como opções para vegetarianos que os
consomem.
A diferença é que a dieta precisa ser pensada dessa maneira.
“Não é necessário transformar cada refeição em uma conta matemática, mas é preciso perceber que retirar um alimento não significa automaticamente substituir aquilo que ele fornecia. Se uma fonte relevante de proteína desapareceu, precisamos saber de onde ela virá agora”, afirma Dr. Cláudio Mutti.
Para uma pessoa jovem, com bom apetite e fisicamente ativa,
o erro pode passar despercebido durante algum tempo. Depois dos 60, a conversa
muda.
É
aí que a idade entra na história
A perda gradual de massa muscular faz parte do
envelhecimento.
Além disso, o músculo mais velho tende a responder de maneira menos eficiente aos estímulos que favorecem sua construção e manutenção. Isso significa que proteína adequada e exercício físico deixam de ser apenas preocupações de quem quer hipertrofia.
Passam a ser parte da estratégia para continuar
independente.
Músculo é o que ajuda uma pessoa a levantar do sofá sem apoio, subir escadas, carregar compras, reagir depois de um tropeço e preservar equilíbrio e mobilidade. Por isso, perder massa muscular aos 30 e perder aos 70 não representam exatamente o mesmo problema.
“Depois dos 60, não estamos falando apenas de estética.
Estamos falando da reserva física que aquela pessoa terá aos 70, 80 ou 90 anos.
Músculo passa a ser patrimônio de longevidade”, ressalta o nutrólogo.
Então
é possível virar vegetariano sem prejudicar os músculos?
Sim. Os estudos não mostram que carne seja obrigatória para ganhar ou preservar musculatura. Também não autorizam a conclusão de que qualquer dieta vegetariana será automaticamente adequada.
A diferença está na maneira como essa mudança é feita. Quem reduz ou elimina carne precisa olhar para a alimentação inteira e perguntar se continua consumindo proteína suficiente, se existem boas fontes distribuídas ao longo do dia e se o organismo está recebendo estímulo para preservar musculatura.
E há pessoas que merecem atenção ainda maior: idosos, quem
já apresenta perda de força ou massa muscular, pessoas com pouco apetite,
indivíduos em processos intensos de emagrecimento e pacientes com condições
clínicas que interferem na alimentação ou no metabolismo.
A quantidade ideal de proteína também não é universal.
Idade, peso, nível de atividade física, objetivos e condições de saúde podem
modificar a recomendação. Por isso, simplesmente copiar a quantidade utilizada
em um estudo não transforma aquele número em prescrição pessoal.
A
musculação aparece nos dois lados da história
Talvez o dado mais interessante desses trabalhos nem esteja no prato. Está na construção de músculos.
No primeiro estudo, os idosos que acrescentaram treinamento
de força à alimentação vegana perderam menos massa muscular do que aqueles que
apenas modificaram a dieta. No segundo, vegetarianos e onívoros treinaram três
vezes por semana e ambos ganharam músculo e melhoraram força.
É um lembrete importante em uma época em que alimentação
costuma receber quase toda a atenção. Proteína fornece matéria-prima. O
exercício diz ao organismo que existe motivo para manter e construir aquele
tecido.
É possível retirar carne. É possível manter uma alimentação predominantemente vegetal. É possível ganhar músculo. O que não faz sentido é acreditar que simplesmente eliminar alimentos automaticamente tornará a dieta melhor.
Especialmente depois dos 60, a pergunta precisa deixar de
ser apenas “o que eu quero parar de comer?”
É preciso acrescentar outra: “o que meu corpo ainda precisa
receber quando isso sair do prato?”
Porque uma mudança feita para viver de maneira mais saudável
não deveria cobrar, silenciosamente, a força que será necessária para
envelhecer bem.
Dr. Cláudio Mutti / RQE - 116971 e RQE – 116972 - médico nutrólogo, com atuação voltada à saúde metabólica, emagrecimento, composição corporal, longevidade e prevenção de doenças. Em seu trabalho, busca traduzir evidências científicas em estratégias aplicáveis à rotina, com foco em alimentação, metabolismo, manutenção da massa muscular e qualidade de vida ao longo do envelhecimento.


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