A inteligência
artificial está mudando a forma como o varejo avalia o desempenho de suas lojas
físicas. Dados de vendas, estoque, fluxo de pessoas, custos de ocupação e até
compras feitas pela internet podem ser cruzados em poucas horas para
identificar unidades que apresentam resultados abaixo do esperado. Para Eduardo
Glazar, CSO da Globalsys, a tecnologia pode acelerar decisões sobre o
fechamento de pontos considerados pouco eficientes, mas não deve ser usada
isoladamente. “A decisão sobre cada unidade precisa passar por quem conhece a
operação e o entorno”, afirma.
Entre as
ferramentas utilizadas nesse processo estão plataformas de geointeligência,
sensores e câmeras para medir o fluxo de consumidores, dados de meios de
pagamento e modelos de previsão de demanda. Mais recentemente, a IA generativa
passou a facilitar o acesso a essas informações, permitindo que gestores façam
perguntas em linguagem natural e obtenham respostas diretamente das bases
disponíveis. Segundo Glazar, porém, o maior limitador desses projetos é a
qualidade dos dados. “Um cadastro com CEP errado ou clientes duplicados
distorce qualquer análise de perfil de consumo, e o modelo entrega a conclusão
errada sem sinalizar a falha”, explica.
A tecnologia
também pode aumentar a produtividade das equipes sem necessariamente ampliar o
número de funcionários. Sistemas de previsão de demanda ajudam a ajustar
escalas ao movimento da loja, enquanto alertas de ruptura e sugestões de
reposição reduzem o tempo gasto na busca por produtos. Etiquetas eletrônicas
diminuem o trabalho de atualização de preços, e assistentes capazes de
consultar estoques de outras unidades e informações dos produtos dão mais
recursos aos vendedores durante o atendimento. “Com essas ferramentas, sobra
mais tempo da equipe para o atendimento”, destaca o executivo.
A
transformação também altera o papel da loja física dentro da estratégia do
varejo. Dados da FTI Consulting mostram que a participação do canal digital no
varejo brasileiro passou de 8,62% em 2023 para 9,03% em 2024, enquanto 46,1%
dos brasileiros afirmaram pretender comprar mais pela internet e menos em
lojas. Apesar desse avanço, a maior parte das vendas ainda ocorre nos
estabelecimentos físicos. Eles passaram, porém, a acumular novas funções, como
pontos de retirada e troca, estoques avançados para entregas rápidas e espaços
para experimentar produtos. “Parte do valor que uma unidade gera aparece nas
vendas online da região”, observa Glazar.
Nesse cenário, ganham espaço as lojas integradas aos canais digitais, com estoque compartilhado e visível ao consumidor, além de unidades capazes de oferecer experiências que o comércio eletrônico não reproduz, como testar produtos e receber orientação especializada. O uso de dados também permite adaptar o sortimento às características de cada região. Na outra ponta, lojas que apenas reproduzem o catálogo do site, mantêm estoques isolados e conhecem pouco o perfil de seus consumidores podem perder relevância. Ainda assim, Glazar ressalta que indicadores semelhantes podem esconder problemas diferentes. “Duas lojas com indicadores parecidos podem ter causas diferentes, uma ligada à gestão e outra à localização”, explica.
Para o consumidor, essa transformação pode
resultar em menos falta de produtos, retirada mais rápida de pedidos,
atendimento com mais informações e ofertas mais personalizadas. O avanço,
porém, exige atenção ao uso dos dados. “Quando a personalização exagera, o
cliente percebe que está sendo monitorado e a confiança na marca cai”, afirma
Glazar. O tratamento das informações de consumo também precisa respeitar a Lei
Geral de Proteção de Dados (LGPD). Nesse cenário, a inteligência artificial
amplia a capacidade do varejo de analisar grandes volumes de informações, mas decisões
sobre lojas, equipes e consumidores continuam dependendo de contexto,
conhecimento do mercado e avaliação humana.

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