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sábado, 24 de outubro de 2026

Redes sociais podem amplificar a vulnerabilidade emocional de crianças e adolescentes

Recompensas digitais, comparação social e excesso de estímulos podem afetar a atenção e o desenvolvimento socioemocional; especialista defende mediação familiar, educação midiática e mais experiências no mundo real

 

Algoritmos de redes sociais podem identificar sinais de vulnerabilidade emocional e recomendar conteúdos que intensificam sentimentos negativos, é o que diz um estudo recente desenvolvido por pesquisadores da UCLA, a Universidade da Califórnia, em Los Angeles. Para crianças e adolescentes, que atravessam fases importantes do desenvolvimento cerebral, a exposição a esse tipo de estímulo merece atenção. Além do conteúdo consumido, especialistas destacam como o uso das plataformas pode afetar a atenção, a autoimagem e as oportunidades de desenvolver habilidades socioemocionais. 

Segundo Lívia Ciacci, neurocientista e especialista do Supera – Estimulação Cognitiva, o impacto das telas precisa ser analisado para além do número de horas de uso. É necessário observar quais experiências deixam de fazer parte da rotina e como as plataformas digitais estimulam os sistemas cerebrais envolvidos na recompensa e na aprovação social. 

 

 

O que as telas substituem no desenvolvimento infantil 

Na infância, sono, brincadeiras livres, leitura e conversas presenciais são experiências importantes para o desenvolvimento cognitivo e socioemocional. Quando o tempo diante das telas ocupa o espaço dessas atividades, pode ocorrer o chamado efeito de deslocamento. 

“A pergunta certa não é ‘quantas horas?’, mas ‘o que meu filho deixou de fazer para ficar aqui, e por quanto tempo?’”, explica Lívia. 

A especialista ressalta que as habilidades sociais também dependem de experiências concretas. Reconhecer expressões faciais, perceber mudanças no tom de voz, lidar com frustrações e compreender os sentimentos de outras pessoas são aprendizagens que acontecem nas interações cotidianas. 

“Empatia é como um músculo. Ela se desenvolve treinando. Cada interação olho no olho é uma aula socioemocional”, afirma. 

Isso não significa que toda exposição às telas seja prejudicial. O contexto de uso, a idade, o conteúdo e a participação dos adultos fazem diferença. O alerta está no uso excessivo, especialmente quando reduz oportunidades de convivência e aprendizagem fora do ambiente digital.

 

Na adolescência, recompensas digitais podem intensificar a busca por aprovação 

Durante a adolescência, o cérebro passa por mudanças importantes nos sistemas relacionados à recompensa, à aprendizagem e ao controle dos impulsos. Curtidas, notificações e comentários podem estimular a busca por aprovação, enquanto a comparação constante com imagens idealizadas afeta a percepção que os jovens têm de si mesmos. 

“O cérebro adolescente é um carro com acelerador de Fórmula 1 e o freio de um fusca”, compara Lívia. Segundo ela, os sistemas de recompensa estão especialmente ativos nessa fase, enquanto o córtex pré-frontal, associado ao planejamento e ao autocontrole, continua amadurecendo. 

Nesse contexto, mecanismos digitais que oferecem recompensas imprevisíveis podem tornar mais difícil interromper o uso. Quando o adolescente já está emocionalmente vulnerável, a exposição repetida a conteúdos relacionados a inseguranças, conflitos ou sofrimento pode contribuir para intensificar esses sentimentos. 

“A rede social não cria a insegurança adolescente; ela a coloca num megafone e a transmite 24 horas por dia”, afirma a especialista. 

Por isso, diante de conteúdos que exploram momentos de tristeza ou fragilidade, é importante que pais e responsáveis observem mudanças de comportamento, conversem sobre o que os jovens estão consumindo e ajudem a desenvolver uma relação mais crítica com as plataformas. 

 

Proibir não basta: é preciso mediar e oferecer alternativas

Para Lívia, a educação midiática e a participação dos adultos são fundamentais para que crianças e adolescentes compreendam como as plataformas funcionam e reconheçam conteúdos que podem afetar seu bem-estar.

“Proibir sem mediar é como ensinar a nadar jogando a criança na piscina; mediar é entrar na água junto”, orienta.

A especialista também chama atenção para o exemplo dos próprios adultos. A presença constante do celular durante refeições, conversas e momentos em família pode reduzir as oportunidades de interação presencial.

 

“Regular começa pelo espelho”, afirma.

Em vez de apenas retirar o aparelho, a proposta é proteger momentos importantes da rotina, como o sono, as refeições e as brincadeiras, e criar alternativas que despertem interesse e ofereçam experiências de pertencimento, descoberta e realização.

“O livro não ficou chato; o cérebro foi recalibrado para achar chato tudo que não pisca colorido. A boa notícia é que essa calibração é reversível”, diz Lívia.

Atividades presenciais que envolvem desafios, atenção sustentada, memória, raciocínio e convivência podem ajudar a ampliar o repertório de experiências dos jovens. Essa é também a proposta da estimulação cognitiva: oferecer oportunidades de aprendizagem e interação que contribuam para o desenvolvimento de habilidades cognitivas e socioemocionais.

A orientação, portanto, não é tratar a tecnologia como inimiga, mas ajudar crianças e adolescentes a utilizá-la de forma consciente, sem que o ambiente digital ocupe o espaço das experiências essenciais ao desenvolvimento.


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