Recompensas digitais, comparação social e excesso de estímulos
podem afetar a atenção e o desenvolvimento socioemocional; especialista defende
mediação familiar, educação midiática e mais experiências no mundo real
Algoritmos de redes sociais podem identificar sinais de vulnerabilidade emocional e recomendar conteúdos que intensificam sentimentos negativos, é o que diz um estudo recente desenvolvido por pesquisadores da UCLA, a Universidade da Califórnia, em Los Angeles. Para crianças e adolescentes, que atravessam fases importantes do desenvolvimento cerebral, a exposição a esse tipo de estímulo merece atenção. Além do conteúdo consumido, especialistas destacam como o uso das plataformas pode afetar a atenção, a autoimagem e as oportunidades de desenvolver habilidades socioemocionais.
Segundo
Lívia Ciacci, neurocientista e especialista do Supera – Estimulação Cognitiva,
o impacto das telas precisa ser analisado para além do número
de horas de uso. É necessário observar quais experiências deixam de fazer parte
da rotina e como as plataformas digitais estimulam os sistemas cerebrais
envolvidos na recompensa e na aprovação social.
O que as telas substituem no desenvolvimento infantil
Na infância, sono, brincadeiras livres, leitura e conversas presenciais são experiências importantes para o desenvolvimento cognitivo e socioemocional. Quando o tempo diante das telas ocupa o espaço dessas atividades, pode ocorrer o chamado efeito de deslocamento.
“A pergunta certa não é ‘quantas horas?’, mas ‘o que meu filho deixou de fazer para ficar aqui, e por quanto tempo?’”, explica Lívia.
A especialista ressalta que as habilidades sociais também dependem de experiências concretas. Reconhecer expressões faciais, perceber mudanças no tom de voz, lidar com frustrações e compreender os sentimentos de outras pessoas são aprendizagens que acontecem nas interações cotidianas.
“Empatia é como um músculo. Ela se desenvolve treinando. Cada interação olho no olho é uma aula socioemocional”, afirma.
Isso
não significa que toda exposição às telas seja prejudicial. O contexto de uso,
a idade, o conteúdo e a participação dos adultos fazem diferença. O alerta está
no uso excessivo, especialmente quando reduz oportunidades de convivência e
aprendizagem fora do ambiente digital.
Na adolescência, recompensas digitais podem intensificar a busca por aprovação
Durante a adolescência, o cérebro passa por mudanças importantes nos sistemas relacionados à recompensa, à aprendizagem e ao controle dos impulsos. Curtidas, notificações e comentários podem estimular a busca por aprovação, enquanto a comparação constante com imagens idealizadas afeta a percepção que os jovens têm de si mesmos.
“O cérebro adolescente é um carro com acelerador de Fórmula 1 e o freio de um fusca”, compara Lívia. Segundo ela, os sistemas de recompensa estão especialmente ativos nessa fase, enquanto o córtex pré-frontal, associado ao planejamento e ao autocontrole, continua amadurecendo.
Nesse contexto, mecanismos digitais que oferecem recompensas imprevisíveis podem tornar mais difícil interromper o uso. Quando o adolescente já está emocionalmente vulnerável, a exposição repetida a conteúdos relacionados a inseguranças, conflitos ou sofrimento pode contribuir para intensificar esses sentimentos.
“A rede social não cria a insegurança adolescente; ela a coloca num megafone e a transmite 24 horas por dia”, afirma a especialista.
Por isso, diante de conteúdos que exploram momentos de tristeza ou fragilidade, é importante que pais e responsáveis observem mudanças de comportamento, conversem sobre o que os jovens estão consumindo e ajudem a desenvolver uma relação mais crítica com as plataformas.
Proibir não basta: é preciso mediar e oferecer
alternativas
Para
Lívia, a educação midiática e a participação dos adultos são fundamentais para
que crianças e adolescentes compreendam como as plataformas funcionam e
reconheçam conteúdos que podem afetar seu bem-estar.
“Proibir
sem mediar é como ensinar a nadar jogando a criança na piscina; mediar é entrar
na água junto”, orienta.
A especialista também chama atenção para o exemplo dos próprios adultos. A presença constante do celular durante refeições, conversas e momentos em família pode reduzir as oportunidades de interação presencial.
“Regular
começa pelo espelho”, afirma.
Em vez
de apenas retirar o aparelho, a proposta é proteger momentos importantes da
rotina, como o sono, as refeições e as brincadeiras, e criar alternativas que
despertem interesse e ofereçam experiências de pertencimento, descoberta e
realização.
“O
livro não ficou chato; o cérebro foi recalibrado para achar chato tudo que não
pisca colorido. A boa notícia é que essa calibração é reversível”, diz Lívia.
Atividades
presenciais que envolvem desafios, atenção sustentada, memória, raciocínio e
convivência podem ajudar a ampliar o repertório de experiências dos jovens.
Essa é também a proposta da estimulação cognitiva: oferecer oportunidades de
aprendizagem e interação que contribuam para o desenvolvimento de habilidades
cognitivas e socioemocionais.
A
orientação, portanto, não é tratar a tecnologia como inimiga, mas ajudar
crianças e adolescentes a utilizá-la de forma consciente, sem que o ambiente
digital ocupe o espaço das experiências essenciais ao desenvolvimento.
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