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sábado, 24 de outubro de 2026

Ansiedade eleitoral - psicóloga fala como a eleição mexe com o emocional

Levantamento do Datafolha, divulgado em 16 de outubro, mostra que 78% dos brasileiros consideram que o Brasil vive uma situação de polarização política. E essa divisão também parece cobrar um preço emocional: pesquisa do BTG/Nexus, divulgada neste mês, revelou que 38% dos entrevistados afirmam se sentir cansados ou desconfortáveis com a polarização
 

Segundo a psicóloga Tatiana Vainboim, a semana que antecede uma eleição presidencial reúne elementos capazes de aumentar a ansiedade: incerteza, sensação de pouco controle sobre o resultado, excesso de informação e percepção de que uma decisão importante está se aproximando.

“Quanto maior a importância que atribuímos a um acontecimento e menor a nossa possibilidade de controlar seu desfecho, maior pode ser a ansiedade diante da espera. Na eleição, a pessoa faz a sua escolha, mas sabe que o resultado depende de milhões de outras escolhas. Para algumas pessoas, tolerar essa incerteza pode ser bastante difícil”, explica.
 

“E se o meu candidato perder?”

A ansiedade é, em certa medida, uma reação natural diante da antecipação de algo importante. O problema começa quando a expectativa passa a ocupar espaço excessivo na rotina.

O eleitor pode sentir necessidade de atualizar pesquisas várias vezes ao dia, conferir constantemente as redes sociais, assistir a todos os comentários sobre a disputa e entrar repetidamente em discussões políticas.

“A pessoa acredita que, se acompanhar mais uma pesquisa ou ler mais uma análise, conseguirá diminuir a incerteza. Mas a informação nova traz outra dúvida, que leva a uma nova checagem. É possível entrar em um ciclo no qual se procura informação para aliviar a ansiedade e acaba se ficando ainda mais ansioso”, explica Tatiana.

Esse estado pode aparecer também no corpo e no comportamento: dificuldade para desligar o pensamento antes de dormir, irritabilidade, tensão, problemas de concentração e sensação de estar permanentemente aguardando alguma coisa.

Pesquisas sobre períodos eleitorais já encontraram associação entre campanhas políticas intensas e aumento de sofrimento psicológico, estresse e alterações no sono, embora esses sintomas não devam ser automaticamente atribuídos à eleição nem confundidos com um diagnóstico clínico.
 

Polarização transforma divergência em ameaça

Outro componente importante é a polarização. Quando a identificação política se torna muito intensa, uma discordância pode deixar de ser percebida apenas como diferença de opinião.

“O risco é quando passamos a enxergar quem pensa diferente não como alguém com outra visão política, mas como alguém que representa uma ameaça aos nossos valores, à nossa identidade ou ao futuro que imaginamos. A partir daí, uma conversa política pode adquirir uma carga emocional muito maior”, afirma a psicóloga.

É nesse cenário que discussões entre amigos, casais e familiares podem se tornar mais agressivas, especialmente nos últimos dias de campanha.

Para Tatiana, não entrar em todas as discussões não significa abrir mão das próprias convicções.

“Podemos ter posicionamento político e, ao mesmo tempo, reconhecer que determinadas conversas não estão mais produzindo diálogo. Quando o objetivo deixa de ser trocar ideias e passa a ser derrotar, humilhar ou provocar o outro, colocar um limite pode ser uma atitude de preservação.”
 

O celular prolonga a eleição durante o dia inteiro

Se no passado o contato com a campanha eleitoral acontecia em momentos mais delimitados, hoje a política acompanha o eleitor no bolso.

Uma pesquisa aparece no celular durante o café da manhã. No grupo da família surge um vídeo. No almoço, alguém comenta o debate. À tarde chega uma notícia. À noite, o eleitor abre as redes sociais e encontra novamente candidatos, análises, provocações e previsões.

“Nosso psiquismo também precisa de intervalos. Estar informado é diferente de permanecer emocionalmente conectado ao assunto durante todas as horas do dia. Em algum momento, é preciso conseguir voltar para o trabalho, para a família, para uma atividade prazerosa e para a própria rotina”, diz Tatiana.
 

Como chegar ao domingo com menos ansiedade?

A psicóloga recomenda estabelecer momentos específicos para acompanhar as notícias em vez de atualizar informações continuamente, evitar discussões quando perceber que não há espaço para diálogo e preservar sono, alimentação, exercícios e atividades que normalmente fazem parte da rotina.

Também é importante reconhecer aquilo que está ou não sob controle.

“Você pode escolher seu voto, informar-se, conversar, participar democraticamente e comparecer à urna. Mas não consegue controlar sozinho o resultado de uma eleição. Reconhecer esse limite pode ajudar a diminuir a tentativa de antecipar ou controlar mentalmente aquilo que ainda não aconteceu”, afirma.

O cuidado vale também para o momento da apuração. Se acompanhar cada atualização estiver provocando sofrimento intenso, não há obrigação de permanecer conectado minuto a minuto.

“A democracia pressupõe convivermos também com aquilo que não controlamos. O desafio emocional dessa semana talvez seja justamente conseguir sustentar nossas escolhas e convicções sem permitir que a incerteza tome conta de toda a nossa vida”, conclui Tatiana.
 

Quando a ansiedade merece atenção?

Ansiedade e expectativa nos dias que antecedem uma eleição não significam, por si só, a existência de um transtorno. Mas sinais persistentes como insônia importante, crises de ansiedade, prejuízo no trabalho, incapacidade de se desligar do assunto, conflitos recorrentes ou sofrimento que comprometa a rotina merecem atenção e, quando necessário, avaliação profissional. 



Tatiana Vainboim - Psicóloga especialista em Psicologia Hospitalar Pelo Programa de Aprimoramento em Hospital Geral do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP) e mestre em Neurologia pela Faculdade de Medicina Da Universidade de São Paulo (FMUSP). Especialista em Psicologia Hospitalar pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP) e Psico-Oncologista pela Sociedade Brasileira de Psico-Oncologia (SBPO).
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