Levantamento do Datafolha,
divulgado em 16 de outubro, mostra que 78% dos brasileiros consideram que o
Brasil vive uma situação de polarização política. E essa divisão também parece
cobrar um preço emocional: pesquisa do BTG/Nexus, divulgada neste mês, revelou
que 38% dos entrevistados afirmam se sentir cansados ou desconfortáveis com a
polarização
Segundo
a psicóloga Tatiana Vainboim, a semana que antecede uma eleição
presidencial reúne elementos capazes de aumentar a ansiedade: incerteza,
sensação de pouco controle sobre o resultado, excesso de informação e percepção
de que uma decisão importante está se aproximando.
“Quanto
maior a importância que atribuímos a um acontecimento e menor a nossa
possibilidade de controlar seu desfecho, maior pode ser a ansiedade diante da
espera. Na eleição, a pessoa faz a sua escolha, mas sabe que o resultado
depende de milhões de outras escolhas. Para algumas pessoas, tolerar essa
incerteza pode ser bastante difícil”, explica.
“E se o meu candidato perder?”
A
ansiedade é, em certa medida, uma reação natural diante da antecipação de algo
importante. O problema começa quando a expectativa passa a ocupar espaço
excessivo na rotina.
O
eleitor pode sentir necessidade de atualizar pesquisas várias vezes ao dia,
conferir constantemente as redes sociais, assistir a todos os comentários sobre
a disputa e entrar repetidamente em discussões políticas.
“A
pessoa acredita que, se acompanhar mais uma pesquisa ou ler mais uma análise,
conseguirá diminuir a incerteza. Mas a informação nova traz outra dúvida, que
leva a uma nova checagem. É possível entrar em um ciclo no qual se procura
informação para aliviar a ansiedade e acaba se ficando ainda mais ansioso”,
explica Tatiana.
Esse
estado pode aparecer também no corpo e no comportamento: dificuldade para
desligar o pensamento antes de dormir, irritabilidade, tensão, problemas de
concentração e sensação de estar permanentemente aguardando alguma coisa.
Pesquisas
sobre períodos eleitorais já encontraram associação entre campanhas políticas
intensas e aumento de sofrimento psicológico, estresse e alterações no sono,
embora esses sintomas não devam ser automaticamente atribuídos à eleição nem
confundidos com um diagnóstico clínico.
Polarização transforma divergência em ameaça
Outro
componente importante é a polarização. Quando a identificação política se torna
muito intensa, uma discordância pode deixar de ser percebida apenas como
diferença de opinião.
“O
risco é quando passamos a enxergar quem pensa diferente não como alguém com
outra visão política, mas como alguém que representa uma ameaça aos nossos
valores, à nossa identidade ou ao futuro que imaginamos. A partir daí, uma
conversa política pode adquirir uma carga emocional muito maior”, afirma a
psicóloga.
É
nesse cenário que discussões entre amigos, casais e familiares podem se tornar mais
agressivas, especialmente nos últimos dias de campanha.
Para
Tatiana, não entrar em todas as discussões não significa abrir mão das próprias
convicções.
“Podemos
ter posicionamento político e, ao mesmo tempo, reconhecer que determinadas
conversas não estão mais produzindo diálogo. Quando o objetivo deixa de ser
trocar ideias e passa a ser derrotar, humilhar ou provocar o outro, colocar um
limite pode ser uma atitude de preservação.”
O celular prolonga a eleição durante o dia inteiro
Se
no passado o contato com a campanha eleitoral acontecia em momentos mais
delimitados, hoje a política acompanha o eleitor no bolso.
Uma
pesquisa aparece no celular durante o café da manhã. No grupo da família surge
um vídeo. No almoço, alguém comenta o debate. À tarde chega uma notícia. À
noite, o eleitor abre as redes sociais e encontra novamente candidatos,
análises, provocações e previsões.
“Nosso
psiquismo também precisa de intervalos. Estar informado é diferente de
permanecer emocionalmente conectado ao assunto durante todas as horas do dia.
Em algum momento, é preciso conseguir voltar para o trabalho, para a família,
para uma atividade prazerosa e para a própria rotina”, diz Tatiana.
Como chegar ao domingo com menos ansiedade?
A
psicóloga recomenda estabelecer momentos específicos para acompanhar as
notícias em vez de atualizar informações continuamente, evitar discussões
quando perceber que não há espaço para diálogo e preservar sono, alimentação,
exercícios e atividades que normalmente fazem parte da rotina.
Também
é importante reconhecer aquilo que está ou não sob controle.
“Você
pode escolher seu voto, informar-se, conversar, participar democraticamente e
comparecer à urna. Mas não consegue controlar sozinho o resultado de uma
eleição. Reconhecer esse limite pode ajudar a diminuir a tentativa de antecipar
ou controlar mentalmente aquilo que ainda não aconteceu”, afirma.
O
cuidado vale também para o momento da apuração. Se acompanhar cada atualização
estiver provocando sofrimento intenso, não há obrigação de permanecer conectado
minuto a minuto.
“A
democracia pressupõe convivermos também com aquilo que não controlamos. O
desafio emocional dessa semana talvez seja justamente conseguir sustentar
nossas escolhas e convicções sem permitir que a incerteza tome conta de toda a
nossa vida”, conclui Tatiana.
Quando a ansiedade merece atenção?
Ansiedade e expectativa nos dias que antecedem uma eleição não significam, por si só, a existência de um transtorno. Mas sinais persistentes como insônia importante, crises de ansiedade, prejuízo no trabalho, incapacidade de se desligar do assunto, conflitos recorrentes ou sofrimento que comprometa a rotina merecem atenção e, quando necessário, avaliação profissional.
Tatiana Vainboim - Psicóloga especialista em Psicologia Hospitalar Pelo Programa de Aprimoramento em Hospital Geral do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP) e mestre em Neurologia pela Faculdade de Medicina Da Universidade de São Paulo (FMUSP). Especialista em Psicologia Hospitalar pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP) e Psico-Oncologista pela Sociedade Brasileira de Psico-Oncologia (SBPO).
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