Psicóloga explica como a ansiedade pode surgir durante a investigação do câncer de mama e como lidar com o período de incerteza
Para muitas mulheres, o impacto emocional do câncer de
mama começa muito antes de qualquer diagnóstico. Um exame alterado, o pedido de
uma investigação complementar ou simplesmente a espera pelo resultado bastam
para desencadear uma avalanche de pensamentos: "E se for alguma
coisa?", "E se for câncer?", "Como vou lidar com
isso?". No Outubro Rosa, mês dedicado à conscientização sobre a doença, a
saúde mental também merece espaço nessa conversa.
De acordo com Aline Rezende Graffiette, psicóloga
especialista em saúde mental e comportamento no trabalho e fundadora da Mental
One, a dificuldade de lidar com a incerteza está ligada à tentativa do cérebro
de antecipar cenários para recuperar a sensação de controle. "Quando não
temos uma resposta, a mente tende a preencher esse espaço com possibilidades. O
problema é que, diante de uma situação que envolve a saúde, essas possibilidades
costumam se voltar para os cenários mais negativos", explica.
Essa ansiedade pode se manifestar de diferentes maneiras:
pensamentos repetitivos, dificuldade para dormir, irritabilidade, falta de
concentração, necessidade constante de buscar informações e dificuldade de se
desligar do assunto ao longo do dia. Para algumas mulheres, a espera pelo
resultado se transforma em um período de vigilância permanente sobre o próprio
corpo.
"É importante diferenciar a preocupação natural de
uma ansiedade que começa a ocupar todo o espaço da vida. A pessoa pode
continuar trabalhando, cuidando da família e realizando suas atividades, mas
mentalmente estar o tempo inteiro voltada para aquilo que pode acontecer",
afirma Aline.
O problema de
tentar "não pensar nisso"
Diante da
ansiedade, uma reação comum é tentar afastar os pensamentos ou buscar garantias
de que tudo ficará bem. Segundo a psicóloga, porém, nenhuma dessas estratégias
costuma resolver a angústia. "Ninguém precisa se obrigar a pensar positivo
o tempo todo. O objetivo não é eliminar o medo, mas conseguir reconhecer o que
se está sentindo sem deixar que a incerteza dite toda a rotina", orienta.
Nesse período,
algumas atitudes podem ajudar a reduzir a sobrecarga emocional: limitar a busca
excessiva por informações na internet, manter a rotina sempre que possível,
conversar com pessoas de confiança e reservar momentos específicos do dia para
lidar com as questões relacionadas ao exame ou à investigação.
Outro ponto
importante é evitar o isolamento. Muitas vezes, familiares e amigos, na
tentativa de tranquilizar, recorrem a frases como "não pense nisso"
ou "vai dar tudo certo". Para Aline, acolher pode ser mais importante
do que encontrar a frase perfeita. "Em vez de minimizar o medo, podemos
perguntar como a pessoa está se sentindo e oferecer presença. Nem sempre é
preciso resolver a situação; às vezes, estar disponível para ouvir já é uma
forma importante de apoio", explica.
E quando o
resultado chega?
O impacto
emocional não termina necessariamente com a chegada do resultado. Se o
diagnóstico for confirmado, a mulher pode precisar lidar com uma série de
mudanças e decisões sobre o tratamento, além de questões ligadas ao trabalho, à
família, à autoestima e à percepção do próprio corpo.
Mesmo quando o
resultado afasta a doença, ter passado por um período de medo e incerteza pode
deixar marcas. "A resposta pode ser tranquilizadora, mas a mente nem
sempre muda de estado imediatamente. Depois de um período de muita tensão, é
possível continuar mais vigilante, interpretando qualquer sintoma como uma
ameaça", explica a especialista.
Ainda assim,
Aline reforça que o medo do resultado não deve ser motivo para adiar a
investigação. "É justamente por isso que os exames de prevenção são tão
importantes. Mesmo que o diagnóstico se confirme, quando a doença é
identificada logo no início, as chances de cura são muito maiores. No caso do
câncer de mama, a prevenção precisa ser feita com regularidade para que, se
algo aparecer, ainda esteja bem no começo. Assim, lidar com o diagnóstico deixa
de carregar o peso de uma questão de vida ou morte", afirma.
Por isso, o
Outubro Rosa também pode ser uma oportunidade para ampliar a conversa sobre
cuidado. Cuidar da saúde não significa apenas fazer exames e consultas, mas
também reconhecer os impactos emocionais que podem surgir ao longo desse
processo e buscar ajuda quando eles começam a comprometer a qualidade de vida.
"Pedir
ajuda psicológica não significa que a pessoa não está conseguindo lidar com a
situação. Significa reconhecer que aquele momento exige recursos emocionais
importantes e que ela não precisa atravessá-lo sozinha", conclui Aline.

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