Quando falamos em saúde mental, ainda é comum que o assunto seja associado apenas a momentos de crise ou à necessidade de buscar ajuda quando algo já não vai bem. Mas cuidar da mente também passa por aquilo que fazemos todos os dias: como dormimos, como nos alimentamos, quanto nos movimentamos, quais momentos reservamos para nós mesmos e até mesmo como estabelecemos limites dentro de uma rotina cada vez mais acelerada.
Ao ampliar o debate sobre saúde mental, o Setembro
Amarelo também nos convida a olhar para o cuidado de maneira mais ampla. Não
existe uma fórmula única para o bem-estar, mas construir uma rotina que
contemple movimento, descanso, autocuidado e momentos de conexão pode ser um
caminho importante para uma vida mais equilibrada.
Segundo diretrizes da OMS, Organização Mundial da
Saúde, é indicado que adultos façam 300 minutos de atividade física moderada ou
150 minutos de exercício intenso por semana.
De acordo com Rodrigo Sangion, fundador e CEO da Les
Cinq Gym, a atividade física não deve ser encarada apenas como uma
ferramenta para transformar o corpo ou alcançar determinada performance. O
exercício também pode representar um momento de pausa, de presença e de
reconexão consigo mesmo em meio a agendas cheias, reuniões, compromissos e
estímulos constantes, e reservar um período do dia para se movimentar pode
ajudar a criar uma fronteira saudável entre as demandas externas e o cuidado
pessoal.
"Acredito que o primeiro passo seja encontrar
uma atividade que faça sentido para cada pessoa, antes mesmo de pensar em
quantidade ou intensidade. Caminhar, correr, nadar, praticar musculação,
dançar, fazer yoga ou simplesmente incorporar mais movimento à rotina são
algumas das diversas possibilidades. O importante é entender que cuidar do corpo
também pode fazer parte de uma estratégia maior de cuidado com a mente",
afirma Sangion.
Outro ponto fundamental é abandonar a ideia de que
autocuidado precisa ser algo extraordinário. Muitas vezes, ele está em atitudes
simples e consistentes, como dormir melhor, fazer uma refeição com calma,
diminuir o tempo diante das telas, encontrar amigos, passar alguns minutos em
silêncio ou respeitar o próprio limite.
Em uma sociedade que frequentemente valoriza a
produtividade acima de tudo, aprender a desacelerar também é uma forma de
cuidado. Nem todos os dias serão produtivos e reconhecer isso pode ser
libertador. O equilíbrio não significa ter uma rotina perfeita, mas desenvolver
uma relação mais consciente com as próprias necessidades.
Segundo dados do Ministério da Previdência Social, as
mulheres representam cerca 63% dos afastamentos do trabalho por transtornos
mentais no Brasil em 2025, e apresentam duas vezes mais chances de desenvolver
depressão e transtornos de ansiedade em comparação aos homens, impulsionadas
por fatores biológicos, sociais e de sobrecarga de rotina. O uso excessivo de
telas também prejudica a saúde mental ao causar sobrecarga cognitiva,
ansiedade, distúrbios do sono e isolamento social.
O ambiente em que praticamos exercícios pode contribuir
para essa experiência. Uma academia, por exemplo, pode ser muito mais do que um
espaço destinado ao treinamento físico. Pode se tornar um lugar de convivência,
de criação de vínculos e de construção de hábitos. Quando o exercício deixa de
ser uma obrigação e passa a fazer parte de um estilo de vida, a relação com o
movimento tende a mudar.
"É nesse ponto que acredito que o conceito de
bem-estar precisa ser ampliado, pois não se trata apenas de buscar resultados
estéticos ou estabelecer metas cada vez maiores, mas sim entender que saúde
envolve diferentes dimensões e que elas estão conectadas. Corpo e mente não são
universos separados. Também é importante reforçar que atividade física e
autocuidado não substituem acompanhamento psicológico, psiquiátrico ou outros
profissionais quando necessário. Em situações de sofrimento emocional intenso,
é fundamental procurar ajuda especializada e conversar com pessoas de
confiança. O exercício pode integrar uma rotina de cuidado, mas não deve ser
apresentado como solução isolada para questões de saúde mental", complementa Sangion.
Construir uma rotina mais equilibrada não acontece de
um dia para o outro. Começa com pequenas escolhas e, principalmente, com a
disposição de olhar para dentro e entender o que o nosso corpo e a mente estão
pedindo. Movimentar-se pode ser uma dessas escolhas. Descansar também. E,
claro, pedir ajuda quando necessário.
No fim, bem-estar não significa estar bem o tempo
todo. Significa criar condições para atravessar os diferentes momentos da vida
com mais consciência, suporte e qualidade de vida. E talvez esse seja um dos
maiores investimentos que podemos fazer seja aprender a cuidar de nós mesmos de
maneira integral.

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