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segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Atenção em disputa: como recuperar o foco em meio ao excesso de estímulos

Celular, notificações, excesso de informação e multitarefa fragmentam a atenção e dificultam a conexão com o presente; autora de "Ser é a nova revolução" reúne cinco práticas para recuperar a presença no cotidiano


Quantas vezes alguém pega o celular para verificar uma notificação e, minutos depois, percebe que já está percorrendo as redes sociais sem sequer lembrar por que abriu o aparelho? Entre mensagens, alertas, vídeos, notícias e múltiplas tarefas simultâneas, a atenção se tornou um dos recursos mais disputados da vida contemporânea. Para Lygia Flaiano Nyikos, empresária, advogada, pesquisadora, professora e autora de “Ser é a nova revolução – Da performance à presença: um guia para quem quer trabalhar, viver e se conectar com propósito”, publicado pela Editora Labrador, recuperar a capacidade de estar inteiro em uma atividade pode ser uma forma de resistência à lógica da hiperconectividade.

Um estudo publicado no Journal of the Association for Consumer Research acompanhou 520 usuários de smartphones e mostrou que aqueles que deixaram o aparelho em outra sala tiveram desempenho superior em testes de capacidade cognitiva em comparação com quem manteve o celular sobre a mesa. O resultado sugere que a simples presença do aparelho pode consumir parte dos recursos cognitivos disponíveis, mesmo quando ele não está sendo usado, reforçando a discussão sobre como a hiperconectividade e os estímulos constantes podem interferir na nossa capacidade de manter o foco e estar plenamente presentes em uma atividade.

A autora observa que a fragmentação da atenção não acontece apenas diante das telas. A rotina acelerada, a autocobrança, o excesso de estímulos e a necessidade constante de responder às demandas também contribuem para um estado de presença parcial. É a imagem de quem caminha pela cidade com os olhos fixos no celular e os fones nos ouvidos, fisicamente presente em um lugar, mas desconectado do que acontece ao redor.

No livro, Lygia recorre à neurociência para discutir atenção, hábitos, emoções, estresse e autorregulação. Um dos pontos abordados é o chamado cost of task switching, ou custo da alternância entre tarefas. Em vez de executar diversas atividades complexas ao mesmo tempo, o cérebro tende a alternar rapidamente entre elas, o que fragmenta o foco e exige esforço cognitivo. A autora também diferencia o Cronos, associado ao tempo medido pelo relógio, do Kairós, relacionado ao tempo vivido com qualidade e significado.

A proposta não é abandonar produtividade, tecnologia ou vida profissional, mas questionar o que acontece quando desempenho e conexão permanente passam a ocupar todo o espaço. Na obra, a presença aparece como um exercício cotidiano de consciência: perceber os próprios padrões, reconhecer os estímulos que desviam a atenção e criar espaços para escolhas menos automáticas.

“Estar presente não significa fazer menos ou abandonar a realização. Significa não desaparecer dentro dela”, explica Lygia. Para ela, pequenas mudanças podem ajudar a recuperar a relação com o instante e transformar atividades comuns em experiências mais conscientes. É o que a autora chama de “sacramento do instante”: interromper o piloto automático para perceber aquilo que normalmente passa despercebido, como sentir o aroma de um café, observar a luz do dia ou simplesmente permanecer alguns minutos sem recorrer à tela.

A partir dos conceitos e exercícios apresentados no livro, Lygia reúne cinco práticas para reduzir a fragmentação da atenção e fortalecer a presença no cotidiano:

1. Crie momentos de “atenção exclusiva”
Escolha atividades que serão realizadas sem celular ou outras telas, como tomar café, fazer uma refeição, ler ou conversar. A proposta é exercitar a capacidade de permanecer em uma única experiência, sem buscar estímulos paralelos.

2. Faça uma pausa antes de reagir
Diante de uma mensagem, notícia ou situação incômoda, crie um pequeno intervalo entre o estímulo e a resposta. Três respirações profundas podem ser suficientes para interromper uma reação automática e permitir uma escolha mais consciente.

3. Estabeleça contratos com a tecnologia
Em vez de depender apenas de força de vontade, determine limites objetivos: estabelecer um horário para desligar os dados móveis, retirar notificações desnecessárias e definir um período máximo diário para as redes sociais. “A pergunta não é apenas quanto tempo passamos conectados, mas quem está escolhendo esse tempo”, afirma a autora.

4. Substitua o hábito automático por uma alternativa consciente
Ao perceber o impulso de pegar o celular por tédio, ansiedade ou solidão, identifique qual recompensa está sendo buscada. Depois, experimente uma alternativa previamente escolhida, como caminhar, preparar um chá, ler algumas páginas ou simplesmente permanecer alguns minutos em silêncio.

5. Reserve um período para desacelerar antes de dormir
Criar uma rotina sem telas antes do sono pode funcionar como uma transição entre o excesso de estímulos do dia e o momento de descanso. A ideia é estabelecer um ritual que ajude o cérebro a deixar o modo de alerta e favoreça uma relação menos fragmentada com o próprio tempo.

Para Lygia, a transformação não depende de uma grande ruptura, mas da repetição de pequenas escolhas. Como resume em seu livro: “A revolução não acontece numa manhã iluminada: ela acontece numa terça-feira comum, quando você faz algo diferente do padrão. E faz de novo. E de novo. E de novo.”

 

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